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Mulheres são vítimas de 59% dos ataques a candidatos nas eleições de 2026

Principais pontos

  • Pesquisa da Terra de Direitos e da Justiça Global identificou 134 episódios de violência política nos 50 dias de campanha do primeiro turno, uma ocorrência a cada nove horas.
  • Dos 70 episódios que tiveram mulheres como vítimas, 45 envolveram machismo ou misoginia. Todas as sete ameaças de violência sexual registradas foram dirigidas a mulheres.
  • Nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição efetiva até o encerramento da coleta de dados, apesar da adoção de medidas urgentes em pelo menos oito casos.
Ana Elisa, deputada federal (PT-MG)
Ana Elisa, deputada federal (PT-MG)
Source: GABRIEL PAIVA
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As ameaças de morte e de violência sexual denunciadas na quinta-feira, 8, pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) expõem uma das faces da violência política no Brasil: a intimidação de mulheres que disputam eleições ou ocupam cargos públicos. Os ataques ocorrem em um cenário no qual candidatas, embora ainda sejam minoria na política, aparecem como as principais vítimas de ameaças e ofensas.

Um levantamento divulgado na quarta-feira, 7, pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política durante os 50 dias de campanha do primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro. Isso equivale a um caso a cada nove horas.

As mulheres foram vítimas em 70 episódios, ou 52,2% do total. A desproporção é ainda maior quando considerados apenas os ataques a pessoas que estavam disputando a eleição. Dos 102 episódios dirigidos a candidaturas, 60 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 58,8%, embora elas representassem aproximadamente 35% das candidaturas.

Os dados fazem parte da quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, que acompanha agressões, ameaças e outras formas de intimidação contra agentes políticos e lideranças. Desde 2016, as organizações já mapearam 2.071 episódios.

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O que caracteriza a violência política contra mulheres

A violência política não se limita às agressões físicas. Ela também ocorre quando uma pessoa é ameaçada, humilhada, perseguida ou intimidada em razão de sua participação na vida pública. Pode atingir candidatas, parlamentares, dirigentes partidárias e outras mulheres que exercem direitos políticos.

Quando os ataques estão relacionados ao fato de a vítima ser mulher, a violência assume uma dimensão de gênero. Isso acontece, por exemplo, quando uma candidata recebe ameaças de estupro, é atacada com expressões misóginas ou sofre tentativas de desqualificação baseadas em sua condição feminina.

A distinção é importante porque nem toda crítica dirigida a uma mulher na política constitui violência política de gênero. Questionar propostas, cobrar explicações ou discordar de decisões faz parte do debate democrático. A violência aparece quando a crítica dá lugar à intimidação, à discriminação ou a ataques destinados a restringir a participação política.

No Brasil, a Lei 14.192, de 2021, estabeleceu medidas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra mulheres. A legislação também tipificou no Código Eleitoral a conduta de assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas e mulheres que exercem mandatos, utilizando menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou dificultar sua campanha ou o desempenho do mandato.

Ameaças sexuais atingem exclusivamente mulheres

O levantamento revela diferenças importantes na maneira como homens e mulheres são atingidos pela violência política.

Entre os 97 episódios classificados como violência simbólica, categoria que inclui ameaças e ofensas, 60 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 61,9%. Já entre os 32 episódios de violência física, incluindo agressões, atentados e assassinatos, a participação feminina foi de 21,9%.

Os dois assassinatos e dez dos 11 atentados registrados tiveram homens como vítimas. Todas as 12 ocorrências envolvendo armas de fogo também atingiram homens.

Em contrapartida, as sete ameaças de violência sexual identificadas pelas organizações tiveram exclusivamente mulheres como vítimas.

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Em 53 dos 70 episódios contra mulheres, ou 75,7%, os pesquisadores identificaram elementos discriminatórios. O machismo ou a misoginia apareceram em 45 casos, o racismo em nove e a transfobia em cinco. Essas formas de discriminação podem ocorrer simultaneamente em um mesmo episódio.

Para Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global, a violência tem consequências específicas para grupos historicamente afastados dos espaços de decisão.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, afirmou a dirigente em comunicado da organização.

Mulheres negras enfrentam uma violência ainda mais intensa

O recorte racial mostra que a violência política não atinge todas as mulheres da mesma maneira.

Segundo a pesquisa, mulheres negras foram vítimas em 24,6% dos episódios registrados no primeiro turno, embora representassem 18,2% das candidaturas. Entre as 70 ocorrências contra mulheres, 19 tiveram mulheres pretas como vítimas.

Dos 13 episódios em que o racismo foi identificado explicitamente como motivação discriminatória, oito atingiram mulheres pretas.

Os números indicam que, além das barreiras enfrentadas pelas mulheres na política, o racismo amplia a exposição de candidatas negras a ataques. Mulheres trans também enfrentam formas específicas de intimidação, como mostram os cinco episódios com elementos de transfobia identificados pelo levantamento.

Violência cresce durante as eleições

Os 134 episódios registrados no primeiro turno de 2026 representam um aumento de aproximadamente 11% em relação aos 121 identificados no primeiro turno de 2022.

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O levantamento também permite comparar a frequência das agressões durante e fora das campanhas eleitorais.

Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, período sem campanha eleitoral, as organizações registraram 354 episódios de violência política, uma média de um caso a cada 44 horas. Durante os 50 dias de campanha do primeiro turno de 2026, a frequência passou para um episódio a cada nove horas, aproximadamente cinco vezes maior.

A ameaça foi a modalidade mais frequente, com 64 ocorrências. Em seguida apareceram as ofensas (33), agressões físicas (19), atentados (11), criminalização (cinco) e assassinatos (dois).

A maior parte dos ataques aconteceu nas ruas: foram 71 episódios durante atividades de campanha ou eventos públicos. O ambiente virtual concentrou 31,3% dos registros.

Para Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos, é necessário identificar os locais em que candidatas e agentes políticos estão mais vulneráveis para desenvolver medidas de proteção.

Processos por violência política de gênero quase multiplicaram por 12

Outro conjunto de dados, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em setembro, ajuda a dimensionar o problema.

Como mostrou o GSW Brasil, o número de processos relacionados à violência política contra mulheres na Justiça Eleitoral passou de 15 em 2022 para 177 em 2026, até 21 de setembro. Isso representa um crescimento de quase 12 vezes em quatro anos.

O avanço ocorreu de forma contínua. Foram 23 processos em 2023, 78 em 2024 e 118 em 2025, antes de chegar aos 177 registrados em 2026.

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Dos processos registrados neste ano, 75 eram inquéritos policiais, 32 eram representações criminais ou notícias-crime e 17 eram ações penais eleitorais. Até aquela data, 80,2% permaneciam em tramitação.

É importante distinguir os dois levantamentos. A pesquisa da Terra de Direitos e da Justiça Global contabiliza episódios de violência identificados por meio de monitoramento jornalístico, registros oficiais e denúncias públicas. Já o painel do TSE reúne procedimentos que chegaram à Justiça Eleitoral. Portanto, os números não podem ser somados nem comparados diretamente como se medissem o mesmo universo.

O crescimento dos processos também não significa necessariamente que a violência tenha aumentado na mesma proporção. Pode refletir maior número de denúncias e registros formais.

Nenhum dos casos havia resultado em punição

A ausência de responsabilização é outro ponto destacado pela pesquisa da Terra de Direitos e da Justiça Global.

Até o encerramento da coleta, nenhum dos 134 episódios identificados durante a campanha havia resultado em punição efetiva. Em pelo menos oito casos, a Justiça Eleitoral adotou medidas urgentes, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas.

Essas providências podem interromper ataques e proteger vítimas, mas não equivalem à punição dos responsáveis.

Em 26 episódios, ou 19,4% do total, os autores identificados eram agentes públicos. Entre eles estavam 14 parlamentares ou governantes, sete agentes de segurança e cinco outros agentes públicos.

As pesquisadoras também alertam para a subnotificação. Como o levantamento depende principalmente de episódios que chegam ao conhecimento público, mulheres que recebem ameaças e não denunciam por medo podem ficar fora das estatísticas.

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“Existe essa subnotificação. Os casos muitas vezes não chegam à opinião pública por causa do medo”, afirmou Gisele Barbieri, da Terra de Direitos, em entrevista à Agência Brasil.

Como denunciar a violência política contra mulheres

Mulheres que sofrem ameaças, perseguições ou outras formas de violência política podem procurar a Justiça Eleitoral, o Ministério Público ou a polícia, conforme a natureza dos fatos.

A Ouvidoria do TSE funciona como canal de acolhimento, orientação e encaminhamento de denúncias. Em setembro de 2026, o tribunal e a Procuradoria-Geral Eleitoral assinaram um protocolo para integrar o atendimento e o acompanhamento dos casos, com previsão de confidencialidade e medidas para evitar que as vítimas precisem repetir seus relatos a diferentes órgãos.

Também é possível encaminhar denúncias pelo portal do Ministério Público Federal.

A legislação brasileira prevê pena de um a quatro anos de prisão, além de multa, para o crime de violência política contra mulheres tipificado no artigo 326-B do Código Eleitoral. A pena pode ser aumentada nas circunstâncias previstas em lei.

Para Glaucia Marinho, da Justiça Global, o enfrentamento dessas práticas é indispensável à garantia dos direitos políticos.

“A violência não pode ser tratada como parte natural da disputa eleitoral. Quando ameaças e ataques são usados para intimidar candidaturas, impedir atividades de campanha e silenciar propostas, o direito à participação política é diretamente afetado”, afirmou a dirigente.

A quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil terá seus resultados consolidados, incluindo os episódios do segundo turno das eleições de 2026, divulgados em novembro.

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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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