Estresse eleitoral: dá para poupar a saúde do corpo e da mente nesta reta final?
Principais pontos
- A intensa disputa política nas redes sociais, a polarização e a tensão pelo quadro incerto podem afetar o sono, a concentração, o humor e as relações pessoais, mas sentir ansiedade não significa estar doente.
- Períodos prolongados de estresse podem afetar a saúde física, exigindo atenção especial de pessoas com hipertensão e doenças cardíacas.
- Limitar o consumo de notícias, preservar a rotina e buscar momentos de relaxamento são algumas recomendações para enfrentar a apuração.

A disputa pela Presidência da República chega ao fim neste domingo, 25. Nas redes sociais, a piada em tom de verdade é que todos estão esgotados. Afinal, estas eleições foram marcadas pela já aguardada polarização, mas também por uma intensa disputa pelo voto em uma guerra que ganhou exércitos e tropas com missões atribuídas de lado a lado.
Às vésperas da definição de quem governará o país pelos próximos quatro anos, a tensão está nas alturas e isso pode ter consequências para a saúde do corpo e da mente. Ansiedade, noites maldormidas, irritabilidade e manifestações físicas da estafa provocada pela corrida eleitoral estão entre os efeitos possíveis deste período em que muitas pessoas sentem que o futuro está em jogo.
Mas é possível acompanhar a votação e principalmente a apuração sem colocar cargas demasiadas sobre os ombros, ainda mais se a pessoa esteve tão engajada nas últimas semanas que foi para as ruas, para as redes e para o WhatsApp?
Para responder a essas questões, o GSW Brasil ouviu a psicóloga clínica Helena Gullo e o médico clínico Cláudio Miguel Rufino, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Eles explicam como a exposição prolongada ao estresse pode afetar a saúde e recomendam maneiras de reduzir o desgaste sem deixar de acompanhar o processo eleitoral.
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Sentir ansiedade não significa estar doente
A primeira preocupação de Helena é evitar que sentimentos compreensíveis diante de uma eleição tão disputada sejam automaticamente tratados como sintomas de uma doença.
"Antes de mais nada, é bom não 'patologizar' a ansiedade e a angústia das pessoas nesse momento. É algo esperado. Não estamos diante de uma eleição comum. Há uma polarização bastante agressiva e uma sensação de instabilidade constante", afirma.
A psicóloga propõe uma reflexão: "Será que não seria um sinal de saúde a pessoa inserida nessas condições sentir-se ansiosa e não apática?"
Segundo Helena, o problema começa quando a tensão interfere na rotina. A sensação de que tudo está em jogo e de que é necessário defender permanentemente as próprias convicções pode produzir irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e esgotamento emocional. O medo do futuro também pesa, mas isso não significa que a população esteja psicologicamente adoecida.
O estresse político pode afetar também o organismo
Rufino esclarece que o organismo humano reage a situações de tensão por meio de mecanismos fisiológicos de adaptação. O estresse não é necessariamente uma doença, mas sua persistência pode comprometer o corpo.
"A saúde é diretamente afetada pela exposição a períodos prolongados de estresse. Quando nosso organismo não consegue mais se adaptar, podemos desenvolver doenças psíquicas e orgânicas", afirma.
Em situações de estresse, o organismo libera hormônios, como adrenalina e cortisol, que podem acelerar os batimentos cardíacos, elevar temporariamente a pressão arterial e alterar o funcionamento gastrointestinal.
O médico reforça que o adoecimento depende de uma combinação de fatores. "O estresse existe desde a origem da humanidade. O adoecimento pode ocorrer ou não, sendo o momento mais um fator, mas geralmente existem fatores subjacentes que se somam", explica.
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Na psicologia, Helena destaca o estresse crônico, que ocorre quando situações desgastantes se prolongam e a pessoa encontra dificuldades para se recuperar emocionalmente. Há também pesquisas sobre o chamado estresse político, associado à exposição frequente a conflitos, notícias e incertezas.
Um aspecto que pode intensificar esse processo é a identificação emocional com candidatos e grupos políticos.
"Quando a preferência política passa a ocupar um lugar central na identidade da pessoa, uma crítica ao candidato pode ser vivida quase como uma agressão pessoal", observa. Isso ajuda a explicar por que discussões políticas podem afetar relações familiares, amizades e o ambiente de trabalho.
Hipertensos e pessoas com doenças cardíacas precisam de atenção
A tensão durante a apuração dos votos exige cuidados especiais de quem já apresenta problemas de saúde. Rufino recomenda que pessoas com hipertensão arterial e doenças coronarianas, que afetam as artérias responsáveis por levar sangue ao coração, evitem situações de estresse agudo.
Isso não significa deixar de acompanhar os resultados, mas reduzir a exposição a situações que provoquem reações intensas, especialmente quando houver orientação médica para controlar fatores de risco cardiovascular.
Sintomas como dor no peito, falta de ar intensa ou desmaio não devem ser atribuídos automaticamente à ansiedade. Nessas situações, é necessário procurar atendimento médico imediato.
Redes sociais e WhatsApp: como evitar a fadiga mental
A circulação incessante de pesquisas, vídeos, mensagens e provocações políticas pode transformar o acompanhamento das eleições em uma atividade ininterrupta.
Helena alerta que as redes sociais produzem uma sensação de urgência permanente. "A cada nova mensagem, surge a impressão de que precisamos ler, responder, compartilhar. Essa exposição contínua pode aumentar a ansiedade e dificultar o descanso mental", diz.
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Para reduzir o desgaste sem comprometer o acesso às informações, siga estas dicas:
- Estabeleça horários para consultar notícias, pesquisas e atualizações eleitorais.
- Selecione fontes confiáveis de informação.
- Silencie temporariamente grupos de WhatsApp que estejam provocando desgaste emocional.
- Evite discussões repetitivas ou agressivas.
- Reduza o uso do celular antes de dormir.
"Ninguém precisa responder a todas as provocações ou convencer todas as pessoas de que está certo. Preservar relações e estabelecer limites são atitudes saudáveis", avalia Helena.
O que fazer na véspera da votação
No sábado, 24, a principal recomendação dos especialistas é preservar a rotina e reservar espaço para atividades prazerosas.
Helena sugere dormir adequadamente, praticar alguma atividade física e encontrar pessoas queridas. Rufino acrescenta a importância de relaxar, dedicar-se a um hobby e refletir sobre o momento sem permanecer continuamente exposto às discussões políticas.
A proposta não é ignorar a importância da eleição, mas impedir que a expectativa ocupe todas as horas do dia.
Durante a apuração, não é preciso acompanhar cada voto
Para os eleitores, o domingo representará o momento de maior expectativa emocional. Depois de depositar o voto na urna, eles passam a acompanhar um resultado que já não depende da decisão individual.
"Depois de votar, precisamos aceitar que o resultado depende de milhões de pessoas. A tentativa de controlar mentalmente algo que não depende exclusivamente de nós só aumenta a ansiedade", esclarece Helena.
Durante a apuração, ela recomenda fazer pausas, caminhar, praticar exercícios simples de respiração e conversar com pessoas de confiança.
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Rufino sugere associar o acompanhamento dos resultados a situações agradáveis. "Procure associar as notícias a momentos de prazer, como estar com familiares, confraternizar com amigos ou realizar alguma atividade gratificante", recomenda.
Para quem apresenta problemas cardiovasculares, reduzir o tempo diante das telas e evitar discussões acaloradas pode ser especialmente importante.
A derrota pode provocar um sentimento de luto
A divulgação do resultado não encerra necessariamente a tensão emocional. Para parte dos eleitores, especialmente aqueles que participaram ativamente da campanha, a derrota de um candidato pode provocar tristeza, raiva, frustração e sensação de perda.
Na análise de Helena, a identificação com um projeto político pode ser tão intensa que o resultado desfavorável representa a perda de uma expectativa sobre o futuro.
"Para quem dá muito valor à política, ou mesmo trabalha com isso, ao perder as eleições é natural que ocorra um luto de uma ideia de futuro."
Esse sentimento não significa, por si só, um transtorno psicológico. A psicóloga destaca a importância do convívio social para lidar com a frustração.
"Reconhecer e aceitar a impotência individual é doloroso. Por isso, é importante estar em grupo e buscar os amigos. A sociabilidade é de extrema importância, pois traumas de ordem coletiva são melhor elaborados coletivamente", acrescenta.
Quando a ansiedade e a tristeza exigem ajuda profissional
Os especialistas alertam que o sofrimento não deve ser ignorado quando se torna intenso ou persistente. Helena ressalta a importância de distinguir tristeza de depressão. "Ficar abatido com um resultado eleitoral não significa desenvolver um transtorno depressivo."
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Segundo a psicóloga, alguns sinais merecem atenção:
- Tristeza persistente e sensação de desesperança.
- Perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer.
- Alterações importantes no sono ou no apetite.
- Dificuldade para trabalhar, estudar ou manter relações pessoais.
Rufino também alerta que, mesmo com medidas preventivas, pode haver agravamento da ansiedade ou aparecimento de problemas físicos e psicológicos, tornando necessária a avaliação profissional.
Se houver pensamentos de morte ou suicídio, é fundamental buscar ajuda imediata.
Para Helena, o principal é reconhecer que, independentemente de quem vença a eleição, as necessidades pessoais e os vínculos afetivos permanecem. "Nossa vida continua depois da eleição. Precisamos cuidar das relações, da saúde, do trabalho e dos projetos pessoais."
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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