Por que Lula ainda aposta na soberania como bandeira de campanha
Principais pontos
- Lula voltou a usar soberania como eixo de discurso na ONU, em meio a tensão com os EUA e pressão da campanha eleitoral.
- Estratégia ganhou força após tarifaço de Trump contra produtos brasileiros, mas perdeu impacto eleitoral diante da maior preocupação dos eleitores com segurança pública, preços e emprego.
- Pesquisas recentes mostram avanço de Flávio Bolsonaro na disputa, enquanto especialistas avaliam que a bandeira depende de conexão com efeitos concretos para influenciar voto.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elegeu — mais uma vez — a defesa da soberania nacional como mote de seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), dividido entre a agenda diplomática brasileira e a pressão da campanha eleitoral, com primeiro turno marcado para 4 de outubro.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse. “Somos chamados a optar entre soberania ou subordinação”, acrescentou o petista ao discursar na terça-feira, 22.
A fala antecedeu um discurso diametralmente oposto proferido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem a defesa da soberania nacional de Lula foi endereçada — ainda que sem menção direta. Entre outras ameaças, o chefe da Casa Branca sugeriu usar “poderio militar” na América Latina para “garantir os interesses nacionais vitais” de sua nação.
A aposta na herança
Não por acaso. Desde que Trump assinou o primeiro decreto para sobretaxar em 50% produtos brasileiros enviados aos EUA, em julho de 2025, Lula tomou para si o discurso de que defenderia a soberania nacional da ofensiva americana.
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A decisão foi declaradamente atribuída ao que o republicano chamou de “perseguição” do Judiciário brasileiro contra Jair Bolsonaro (PL), então às vésperas de ser condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e preso por uma tentativa de golpe de Estado. Os filhos do ex-presidente chegaram a comemorar a medida.
O governo federal enfrentava uma maré ruim. No início daquele ano, o Datafolha registrou a pior avaliação popular de todos os períodos de Lula no Palácio do Planalto. Anúncios descalibrados e resistências do Congresso frearam chances de reação — até o tarifaço.
Diante da ação trumpista, o petista rapidamente assumiu um tom que aludiu a seu período como líder sindical, na década de 1970, e situou o Brasil em condição de ator resistente à política de sanções comerciais dos EUA.
Ao longo dos meses seguintes, quando os mandatários chegaram a se reunir para negociações diplomáticas, a avaliação popular da gestão federal melhorou — com os institutos de pesquisa relacionando diretamente a defesa da soberania a esse fenômeno — e o presidente ganhou terreno em levantamentos eleitorais. Esta fase, no entanto, aparenta ter ficado para trás.
Impacto sob questão
A menos de um mês para o primeiro turno da eleição, Lula levou à propaganda eleitoral a defesa da soberania, das terras raras e do Pix — alvo declarado de incômodo da Casa Branca — sem efeito semelhante.
Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro registrou, pela primeira vez, o petista em empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL) nas simulações de primeiro e segundo turnos.
Em viés de alta, o ‘Zero Um’ evita associar-se a Trump e tem levado aos programas eleitorais a estratégia de confrontar o endividamento das famílias e a má avaliação popular da segurança pública, agendas que mais pressionam o oponente. Na televisão, deixou a estratégia clara: “Vou devolver a primeira de todas as soberanias: a da segurança pública. A soberania de você poder andar na rua sem medo”.
A tônica encontra sustento na percepção popular. Pesquisa divulgada pela AtlasIntel na quarta-feira, 23, registrou 49% de preferência pelo candidato do PL para combater a criminalidade e o tráfico de drogas; em agosto, levantamento divulgado por Nexus e BTG mostrou que 35% dos brasileiros consideram a segurança pública o principal problema do país. Apesar dos números darem fôlego ao opositor, o incumbente reforça a aposta no protagonismo dado à bandeira da soberania.
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Para Karolina Roeder, professora de ciência política da Uninter-PR, Lula aposta no enquadramento para “associar o governo à ideia de proteção nacional” e aproximar o bolsonarismo da defesa oposta. “O saldo tende a ser positivo à medida que a campanha consiga conectar a soberania ao cotidiano, mostrando que pressões externas afetam empregos, exportações e renda. Se ficar restrita ao plano abstrato, rende pouco voto novo, embora ajude a mobilizar a base e a demarcar o campo adversário”, disse ao GSW Brasil.
O dilema, na equação, recai sobre a distância aparente dessa conexão. “Esse efeito perde força quando a ameaça deixa de ser novidade ou quando seus custos não se materializam no cotidiano. Na reta final [da campanha], a agenda tende a se voltar para temas de avaliação retrospectiva, como emprego, preços e violência, que são os que o eleitor mais sente”, concluiu a professora.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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