Onda azul nos EUA tem marcos históricos e impõe derrota a Trump

Principais pontos

  • Democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio de mandato em 3 de novembro, ampliando seu poder para fiscalizar o governo de Donald Trump.
  • Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora nos EUA, enquanto Deb Haaland será a primeira mulher indígena a ocupar o cargo.
  • As eleições também levaram a primeira mulher indígena e o primeiro muçulmano ao Senado.
Ex-prefeita de Atlanta (capital da Geórgia), Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora na história do país.
Ex-prefeita de Atlanta (capital da Geórgia), Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora na história do país.
Source: Reprodução / Instagram - keishaforga

Eleições levam primeira mulher negra ao governo de um estado norte-americano, além de indígenas, latinos e muçulmanos a cargos inéditos

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, nesta terça-feira (3) levaram ao poder representantes com trajetórias inéditas na política americana. Keisha Lance Bottoms será a primeira mulher negra a governar um estado do país, a Georgia, e Deb Haaland será a primeira mulher indígena a ocupar o mesmo cargo, governando o Novo México. No Senado, dois destaques: Peggy Flanagan como primeira mulher indígena eleita para a casa e Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano escolhido no voto.

A lista inclui ainda latinos, pessoas da comunidade LGBTQ+ e mulheres que romperam barreiras históricas. Grande parte dessas vitórias integra a chamada "onda azul", expressão usada para descrever o avanço eleitoral do partido Democrata, identificado com essa cor, que conquistou o controle das duas Casas do Congresso e impôs uma derrota política ao presidente Donald Trump, do partido Republicano.

Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato - ou midterms - acontecem dois anos depois da eleição presidencial. Desta vez, os americanos votaram para renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e os governos de 36 estados. Embora a votação tenha ocorrido oficialmente em 3 de novembro, muitos eleitores já tinham votado antecipadamente, presencialmente ou pelo correio.

Como cada estado possui regras próprias para receber, conferir e contabilizar os votos, a apuração não termina necessariamente na noite eleitoral. Os vencedores anunciados pelos veículos de imprensa são definidos com base nos votos apurados e em projeções, enquanto a certificação oficial depende da conclusão dos procedimentos eleitorais estaduais, que podem levar dias ou semanas.

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A onda democrata atingiu inclusive estados considerados redutos republicanos. No Senado, o partido conquistou cadeiras no Texas, Kansas e Carolina do Sul, além de obter vitórias em Ohio, Iowa e Carolina do Norte. Na Câmara, ganhou mais de duas dezenas de distritos anteriormente controlados pelos republicanos.

Integrante do povo Laguna Pueblo, Deb Haaland será a primeira mulher indígena a governar um estado norte-americano. Foi eleita governadora do Novo México.
Integrante do povo Laguna Pueblo, Deb Haaland será a primeira mulher indígena a governar um estado norte-americano. Foi eleita governadora do Novo México.
Source: Reprodução/ Instagram - thedemocrats

A partir de janeiro de 2027, Trump perderá a maioria parlamentar que sustentava sua agenda no Congresso. Com o controle da Câmara e do Senado, os democratas poderão abrir investigações sobre os abusos atribuídos ao Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), questionar as deportações em massa, fiscalizar os gastos e a atuação dos agentes federais e impor obstáculos às políticas migratórias do governo. Também poderão investigar os impactos dos tarifaços sobre a economia americana, pressionar por mudanças na política comercial, bloquear projetos e barrar nomeações para cargos estratégicos, inclusive para a Suprema Corte. A derrota eleitoral ameaça, assim, a capacidade de Trump de avançar com algumas das principais medidas de seu segundo mandato. O presidente, entretanto, manterá o poder de veto sobre leis aprovadas pelo Legislativo.

O custo de vida, a inflação e os efeitos econômicos da guerra contra o Irã estiveram entre os principais fatores de insatisfação dos eleitores. Em pesquisa realizada durante a votação, 70% dos entrevistados afirmaram desejar que o Congresso estabelecesse mais limites ao poder presidencial. Às vésperas da eleição, a aprovação do governo Trump havia caído para 31%, o menor índice de seus dois mandatos, segundo pesquisa Reuters/Ipsos de 19 de outubro. No levantamento mais recente, de 2 de novembro, apenas 32% dos americanos aprovavam seu governo.

Frente ao resultado preliminar das eleições, Trump reagiu inicialmente pelas redes sociais, atribuindo a derrota republicana à ausência de seu nome nas cédulas. Em entrevistas posteriores, reconheceu que a alta dos combustíveis pode ter prejudicado seu partido e afirmou estar disposto a negociar com os democratas, embora tenha descartado concessões em determinadas áreas da política migratória.

Deputada estadual de origem latina, Gina Hinojosa derrotou o republicano Greg Abbott. Será a primeira mulher latina a governar o Texas.
Deputada estadual de origem latina, Gina Hinojosa derrotou o republicano Greg Abbott. Será a primeira mulher latina a governar o Texas.
Source: Reprodução/ Instagram - ginafortexas

“Pela primeira vez...”

Apesar da predominância democrata, as conquistas históricas de representatividade não ficaram restritas ao partido. Os republicanos também elegeram candidatos que romperam barreiras raciais e de gênero, mostrando que as mudanças no perfil dos governantes americanos ultrapassam a divisão partidária.

Governadores

Keisha Lance Bottoms — Geórgia | Democrata

Ex-prefeita de Atlanta, entre 2018 e 2022, e ex-assessora do presidente Joe Biden, tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora na história do país. Derrotou o empresário republicano Rick Jackson e encerrou uma sequência de 83 governadores brancos e homens na história da Geórgia, estado profundamente marcado pela segregação racial e pelas lutas por direitos civis.

Deb Haaland — Novo México | Democrata

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Integrante do povo indígena Laguna Pueblo, será a primeira mulher indígena a governar um estado norte-americano. Deb já havia feito história em 2018, quando se tornou uma das primeiras indígenas eleitas para a Câmara dos Representantes. Em 2021, foi a primeira indígena a assumir um ministério federal, ao comandar o Departamento do Interior durante o governo Biden.

Gina Hinojosa — Texas | Democrata

Deputada estadual de origem latina, derrotou o republicano Greg Abbott, que tentava conquistar seu quarto mandato. Será a primeira mulher latina a governar o Texas, segundo estado mais populoso dos EUA. Sua vitória também encerra mais de três décadas de domínio republicano no governo estadual.

Xavier Becerra — Califórnia | Democrata

Filho de imigrantes mexicanos, foi procurador-geral da Califórnia e secretário de Saúde e Serviços Humanos no governo Biden. Será o primeiro latino eleito governador do estado. O último governador de origem latina havia sido Romualdo Pacheco, que assumiu o cargo por sucessão em 1875, há mais de 150 anos.

David Crowley — Wisconsin | Democrata

Ex-deputado estadual e dirigente do condado de Milwaukee, tornou-se o primeiro negro eleito governador de Wisconsin. Antes de disputar o governo estadual, construiu sua carreira política em Milwaukee, cidade marcada por profundas desigualdades raciais e econômicas.

Byron Donalds — Flórida | Republicano

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Deputado federal e aliado de Donald Trump, tornou-se o primeiro negro eleito governador da Flórida. Conservador, recebeu o apoio do presidente durante a campanha e sucederá Ron DeSantis, impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Sua eleição foi uma das conquistas republicanas em uma noite marcada pelo avanço democrata.

Marsha Blackburn — Tennessee | Republicano

Senadora desde 2019 e integrante da ala conservadora do Partido Republicano, será a primeira mulher a governar o Tennessee. Marsha já havia sido a primeira mulher eleita para o Senado pelo estado e agora alcança outro marco na política local.

Médico epidemiologista e ex-diretor de Saúde de Detroit, Abdul El-Sayed será o primeiro muçulmano eleito para o Senado. Ele venceu em Michigan.
Médico epidemiologista e ex-diretor de Saúde de Detroit, Abdul El-Sayed será o primeiro muçulmano eleito para o Senado. Ele venceu em Michigan.
Source: Reprodução / Instagram - abdulelsayed

Senadores que ampliam a diversidade no Congresso

Peggy Flanagan — Minnesota | Democrata

Integrante da comunidade indígena White Earth Ojibwe, será a primeira mulher indígena eleita para o Senado dos Estados Unidos. Antes da eleição, ocupava o cargo de vice-governadora de Minnesota, onde desenvolveu políticas voltadas à infância, às famílias e às comunidades indígenas. Derrotou a republicana Michele Tafoya, ex-repórter esportiva.

Abdul El-Sayed — Michigan | Democrata

Médico epidemiologista e ex-diretor de Saúde de Detroit, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado americano. Filho de imigrante egípcio, construiu sua carreira na saúde pública e defende a ampliação do acesso aos serviços médicos. Derrotou o republicano Mike Rogers em uma campanha na qual sua religião também foi alvo de ataques políticos.

Chris Pappas — New Hampshire | Democrata

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Deputado federal desde 2019, será o primeiro homem assumidamente gay a ocupar uma cadeira no Senado dos Estados Unidos. Pappas, que é casado com o advogado Vann Bentley, derrotou o ex-senador republicano John E. Sununu. Sua eleição amplia a presença LGBTQ+ na Casa, que recebeu sua primeira senadora assumidamente lésbica, Tammy Baldwin, em 2013.

Juliana Stratton — Illinois | Democrata

Advogada negra e vice-governadora de Illinois, conquistou a cadeira deixada pelo democrata Dick Durbin. Com sua eleição, Illinois será o primeiro estado representado simultaneamente por duas mulheres não brancas no Senado, já que a outra cadeira pertence a Tammy Duckworth, de ascendência tailandesa.

O democrata Chris Pappas, deputado federal desde 2019, será o primeiro homem assumidamente gay a ocupar uma cadeira no Senado. Foi eleito por New Hampshire.
O democrata Chris Pappas, deputado federal desde 2019, será o primeiro homem assumidamente gay a ocupar uma cadeira no Senado. Foi eleito por New Hampshire.
Source: Reprodução / Instagram - pappasfornh

Novos representantes também fazem história no Legislativo

As eleições de meio de mandato também levaram novos representantes à Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e aos legislativos estaduais. Entre os eleitos estão a primeira mulher indígena a representar Nova York no Congresso, a primeira mulher da geração Z a chegar à Câmara federal e o primeiro brasileiro eleito para o Legislativo da Flórida.

Deputados federais

Claire Valdez — Nova York | Democrata

Integrante do povo indígena Ysleta del Sur Pueblo, tornou-se a primeira mulher indígena eleita para representar Nova York na Câmara dos Representantes. De orientação progressista e ligada ao movimento sindical, conquistou uma cadeira pelo 7º distrito do estado.

Melat Kiros — Colorado | Democrata

Nascida na Etiópia, migrou aos 11 meses para os EUA com a família. Advogada de 29 anos, ela se tornou a primeira mulher da geração Z eleita para o Congresso norte-americano. Conquistou a cadeira pelo 1º distrito, que inclui Denver, depois de derrotar nas primárias democratas Diana DeGette, deputada havia quase 30 anos.

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Adam Hamawy — Nova Jersey | Democrata

Médico e veterano do Exército norteamericano, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para representar Nova Jersey no Congresso. Cirurgião especializado em reconstrução plástica, participou de missões médicas em zonas de conflito, incluindo a Faixa de Gaza.

Jeremy Moss — Michigan | Democrata

Senador estadual e defensor dos direitos LGBTQ+, tornou-se o primeiro homem assumidamente gay eleito deputado federal por Michigan. Conquistou a cadeira pelo 11º distrito, após construir sua carreira política no Legislativo estadual.

Denise Powell — Nebraska | Democrata

Tornou-se a primeira pessoa de origem latina eleita para representar Nebraska no Congresso americano. Venceu a disputa pelo 2º distrito, que inclui Omaha, principal cidade do estado.

Legislativos estaduais

Bentley Hudgins — Geórgia | Democrata

Eleito deputado estadual pelo Distrito 90, tornou-se o primeiro parlamentar estadual abertamente transgênero e não binário da Geórgia. Sua vitória ocorre em um estado onde os direitos das pessoas trans têm sido objeto de disputas legislativas.

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Aber Kawas — Nova York | Democrata

Filha de refugiados palestinos e organizadora comunitária, tornou-se a primeira mulher palestina muçulmana eleita para o Legislativo estadual de Nova York. Conquistou uma cadeira no Senado estadual, ampliando a representação de americanos de origem árabe e muçulmana na política local.

Felipe Sousa-Lazaballet — Flórida | Democrata

Nascido em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, chegou aos Estados Unidos aos 14 anos e passou 15 anos sem documentação migratória regular. Naturalizado americano em 2021, foi eleito deputado estadual pelo Distrito 42, na região de Orlando. Tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar uma cadeira no Legislativo da Flórida, estado que adotou medidas rígidas de controle da imigração.

Com esses resultados, as eleições de 2026 combinam dois movimentos: a mudança no equilíbrio político nacional e a chegada de representantes com trajetórias inéditas a posições de poder. Em um país que completa 250 anos de independência, o resultado evidencia transformações na composição de instituições historicamente dominadas por homens brancos, mesmo que os partidos continuem profundamente divididos sobre as políticas que esses representantes deverão implementar.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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