Autorregulação da IA nos EUA dá ‘carta branca’ a big techs, alerta especialista

Principais pontos

• Governo Trump, OpenAI, Meta, Anthropic, Google, Nvidia e X firmaram acordo em que as empresas vão definir controles internos e auditorias externas.

• Referência em estudos sobre tecnologia e sociedade no Brasil, Sérgio Amadeu critica o modelo dá às próprias companhias as decisões sobre o desenvolvimento da IA e aponta riscos à saúde pública e à democracia.

• Relatório internacional também alerta para manipulação de informações e ataques cibernéticos.

Aplicativos de IA.
Até que ponto o auditor externo pago pela empresa fará críticas que vão criar descontentamento do conselho de acionistas das empresas, questiona Sérgio Amadeu.
Source: Unsplash/ Salvador Rios

O anúncio do governo dos Estados Unidos e de big techs da Inteligência Artificial (IA) de criar uma autorregulação voluntária com controles de segurança para o desenvolvimento da tecnologia, após encontro realizado na terça-feira, 29, representa uma “carta branca” para a indústria do setor com riscos para a saúde pública e para a democracia dos países.

Essa é a avaliação do sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autor de obras sobre tecnologias digitais. “O que o Trump fez foi entregar completamente e de modo irresponsável o controle democrático do desenvolvimento da IA para a própria corporação que a desenvolve. Isso é um risco gigantesco”, avaliou.

Dentre as medidas anunciadas no acordo firmado na Casa Branca, feito com a OpenAI, Meta, Anthropic, Google, Nvidia e X, está a implementação de “controles internos” para monitorar os modelos de IA para “garantir que seus modelos não invadam ou acessem sistemas técnicos de maneiras não intencionais”.

“Isso já é feito. Todo o processo de treinamento de IA requer um controle robusto. O monitoramento interno já é feito. Tudo isso não agrega nada de importante para regulamentar e controlar usos e desenvolvimentos indevidos do aprendizado de máquina e do aprendizado profundo”, completou Amadeu.

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Outra medida é o estabelecimento de parceria com um auditor ou avaliador externo independente para que as companhias verifiquem se os controles e os sistemas de monitoramento estão funcionando adequadamente. O professor da UFABC contesta essa proposta. “Até que ponto esse auditor externo pago pela própria empresa vai fazer críticas e sugestões que vão criar descontentamento do conselho de acionistas das empresas?”, questionou.

Benefícios frágeis

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais para atuação em IA, destacou à Agência Brasil que o acordo voluntário das IAs pode criar benefícios reais.

Porém, alerta que o compromisso pode ser abandonado quando as proteções se tornarem comercialmente prejudiciais.

Arpini cita o exemplo da Moratória da Soja na Amazônia, que foi um acordo voluntário que envolveu empresas do setor para não plantar soja na Amazônia e evitar o desmatamento do bioma. “Isso deu certo por 20 anos, de forma voluntária, até que mudou o ambiente político e econômico e as empresas que faziam parte saíram do acordo e a moratória morreu”, disse.

(Em agosto deste ano, porém, o STF reconheceu a validade da Moratória da Soja.)

Saúde Pública

Amadeu destaca que a IA traz riscos ambientais (devido ao alto consumo de energia e água), de violação de privacidade (devido à capacidade de vigilância em massa de populações), assim como riscos à democracia e à saúde pública.

Ele explica que várias pesquisas realizadas na indústria farmacêutica, em parceria com big techs por meio de modelos de IA, podem envolver riscos para a saúde da população e, por isso, precisam de regulação do Estado.

“Sabemos que, quando o uso de IA fica sob controle apenas de investidores, isso traz um risco gigantesco para experimentos e ações que coloquem em risco a saúde pública”, comentou.

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Entre os riscos, o especialista cita a possibilidade de o uso da IA levar as pessoas a tomar medicamentos por conta própria ou mesmo fazer diagnósticos com uso da máquina.

“Quando nós estamos tratando de fenômenos ligados à saúde pública e que incluam a parceria de grandes big techs com indústrias químicas e de fármacos, é um risco muito grande e, portanto, precisa de uma regulamentação estatal democrática”, concluiu.

Temor social

O governo Trump tem rejeitado impor limites ao desenvolvimento da IA, mesmo diante de pedidos da própria indústria e pressão social interna.

Pesquisa de opinião realizada pela Ipsos e Reuters revelou que 73% da população dos EUA acreditam que as empresas de IA não tomam medidas suficientes para impedir os danos da tecnologia para a sociedade e 39% acreditam que a IA está tendo um impacto negativo na sociedade.

Um dos riscos apontados é que os sistemas banalizem ataques cibernéticos por meio da invasão de sistemas de outras empresas e instituições. Outros riscos associados à IA são os impactos sobre o mercado de trabalho ou o uso “malicioso” da tecnologia por criminosos para aplicar golpes cibernéticos.

Democracia

A IA ainda pode ser usada para influenciar a opinião pública por meio da manipulação da informação que circula nas redes sociais, segundo o International AI Safety Report 2026, elaborado por 100 especialistas de mais de 30 países.

“Diversos estudos laboratoriais demonstraram que a interação com sistemas de IA pode levar a mudanças mensuráveis nas crenças das pessoas”, aponta o relatório.

Outro risco apontado é em relação ao desenvolvimento de armas químicas e biológicas.

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“Sistemas de IA de uso geral podem fornecer informações sobre o desenvolvimento de armas biológicas e químicas, incluindo detalhes sobre patógenos e instruções de laboratório de nível especializado”, diz o relatório internacional.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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