Óculos com câmera enfrentam reação crescente por riscos à privacidade

Principais pontos

  • Meta apresenta seu primeiro Ray-Ban inteligente sem câmera em momento de intensificação das investigações e restrições a dispositivos capazes de fazer gravações discretas.
  • França investiga suspeita de assédio sexual com uso de óculos inteligentes; Austrália amplia restrições; Noruega discute regras mais duras; e tribunais do Reino Unido e dos Estados Unidos já barram os aparelhos.
  • Pressão atinge um mercado dominado pela Meta, responsável por cerca de 84% dos smart glasses distribuídos globalmente no primeiro semestre deste ano.
Mark Zuckerberg fala de novos modelos de smart glasses no Meta Connect.
Mark Zuckerberg fala de novos modelos de smart glasses no Meta Connect.
Source: Reprodução/ Facebook - Mark Zuckerberg

Cinco anos depois de colocar câmeras em uma armação Ray-Ban, Mark Zuckerberg, o dono da Meta, subiu ao palco de seu principal evento do ano para apresentar ao mundo um modelo de óculos inteligente que tira esse componente do dispositivo – funcionalidade que tem colocado a big tech contra a parede.

Anunciado no Meta Connect, na quarta-feira, 23, o Ray-Ban Meta Audio tem outro atributo como principal elemento: sua capacidade de ouvir e acionar a IA pelo recurso de áudio. Esse é o primeiro smart glass da parceria entre as duas marcas que não fotografa nem filma.

“Sem câmeras, isso abre muitas novas possibilidades de design”, disse Zuckerberg ao apresentar a novidade. Segundo ele, a retirada desse componente permitiu criar armações mais leves e finas e aumentar a duração da bateria.

Privacidade, porém, não apareceu entre as razões mencionadas pelo executivo para a mudança.

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O novo dispositivo surge em um momento crítico para o mercado de smart glasses com câmeras. Investigações, propostas de regulamentação e proibições vêm se intensificando em diferentes países. O ponto comum é a capacidade de fotografar ou filmar a partir de uma armação que pouco se diferencia, à primeira vista, de óculos convencionais.

A Meta não relacionou o desenvolvimento do modelo sem câmera a essa reação e afirma que o produto vinha sendo preparado havia anos. Na prática, porém, passa a oferecer uma alternativa que preserva inteligência artificial, música, chamadas e comandos por voz sem incorporar o recurso que está no centro da controvérsia.

E há muito dinheiro em jogo. “Há quase 2 bilhões de pessoas no mundo que usam óculos hoje”, declarou Zuckerberg no Connect. A big tech acredita que, nos próximos anos, a maioria desses óculos será substituída ou atualizada por produtos equipados com inteligência artificial.

A companhia já parte de uma posição dominante. A Meta respondeu por cerca de 84% da distribuição mundial de smart glasses no primeiro semestre de 2026, segundo a Counterpoint Research, empresa internacional especializada em pesquisas sobre o mercado de tecnologia e dispositivos eletrônicos. O mercado global cresceu 212% em relação ao mesmo período de 2025.

Os primeiros óculos da parceria entre Meta e EssilorLuxottica, controladora da Ray-Ban, chegaram ao mercado em setembro de 2021. Chamados Ray-Ban Stories, já tinham duas câmeras de 5 megapixels, além de microfones e alto-falantes. Custavam a partir de US$ 299.

Desde então, a tecnologia ganhou inteligência artificial e conquistou milhões de consumidores. Mais de 7 milhões de óculos com IA da parceria foram vendidos em 2025. A Meta apresenta o Ray-Ban Meta como o óculos com inteligência artificial mais vendido do mundo.

É justamente a câmera, porém, que começa a impor um desafio à ambição de transformar esses dispositivos em um objeto tão cotidiano quanto os óculos convencionais.

França investiga suspeita de assédio sexual

Na França, o debate deixou o campo das preocupações teóricas. Em 18 de setembro, veio a público que o Ministério Público de Paris abriu uma investigação criminal sobre suspeita de assédio sexual envolvendo smart glasses.

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A apuração ocorre depois que mulheres foram filmadas nas ruas sem consentimento e os vídeos publicados na internet. A promotoria não revelou a marca dos aparelhos envolvidos. A unidade responsável por crimes cibernéticos também testou smart glasses para entender que tipos de infração podem ser cometidos com a tecnologia.

A Comissão Nacional de Informática e Liberdades (CNIL), autoridade francesa de proteção de dados, também recebeu denúncias relacionadas ao uso dos dispositivos no ambiente de trabalho. Empresas passaram a procurar o órgão para saber se podem impedir funcionários de utilizá-los.

A dificuldade está em algo aparentemente simples: saber quando alguém está gravando.

Os Ray-Ban Meta equipados com câmera possuem uma pequena luz de LED que se acende quando fotos ou vídeos estão sendo registrados. A Meta afirma que o indicador foi desenvolvido para alertar quem está ao redor e que não pode ser desativado.

Para a CNIL, entretanto, os smart glasses criam desafios para informar adequadamente as pessoas de que estão sendo filmadas e, quando necessário, obter seu consentimento.

Com um celular, o gesto de levantar o aparelho e apontar a câmera costuma tornar perceptível que uma fotografia ou um vídeo pode estar sendo feito. Com os óculos, basta olhar.

Na Alemanha, a discussão também chegou às autoridades. Em agosto, uma organização de defesa de direitos apresentou uma queixa criminal contra a Meta, a EssilorLuxottica e empresas envolvidas na comercialização dos aparelhos, argumentando que a tecnologia pode permitir gravações clandestinas e violar regras de privacidade. Autoridades iniciaram uma análise preliminar do caso.

Austrália leva restrições a piscinas, escolas e prédios públicos

Na Austrália, as restrições começaram a alcançar situações bastante concretas do cotidiano.  Em agosto, Brisbane proibiu gravações sem consentimento feitas com dispositivos equipados com câmera em suas 21 piscinas públicas. A regra alcança smart glasses, celulares e câmeras de ação.

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ANPD

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Outros governos locais adotaram medidas semelhantes. Em Sydney, as regras atingem instalações municipais, como piscinas, enquanto diferentes conselhos passaram a restringir os aparelhos em espaços como vestiários, creches, academias e parques infantis.

Na terça-feira, 22, o governo da Austrália Ocidental anunciou uma medida mais ampla: smart glasses serão proibidos em todas as escolas públicas do estado a partir do quarto período letivo deste ano. A regra alcança alunos, funcionários, pais, responsáveis e prestadores de serviço e vale também para excursões e atividades esportivas.

O debate chegou ainda ao governo federal. Em 17 de setembro, a ministra da Função Pública, Katy Gallagher, pediu que o serviço público avaliasse regras para os smart glasses nos locais de trabalho administrados pela Commonwealth, inclusive a possibilidade de proibi-los por questões de privacidade e segurança.

Isso não significa uma proibição nacional nem impedir a venda ou a importação dos aparelhos. O que está sendo discutido no nível federal é seu uso em determinados ambientes governamentais.

Noruega discute regras mais duras

Na Noruega, o governo decidiu antecipar a discussão sobre os limites da tecnologia. Em 25 de agosto, a ministra da Digitalização e Administração Pública, Karianne Tung, defendeu uma regulamentação mais rígida para smart glasses e anunciou a criação de um grupo de especialistas para analisar como o país deve lidar com esses dispositivos.

Entre as questões colocadas pelo governo está a possibilidade de impedir funções de reconhecimento facial de outras pessoas em espaços públicos. A ministra também pediu que instituições públicas e empresas privadas avaliem regras para o uso dos aparelhos em seus próprios ambientes.

A preocupação norueguesa vai além de um caso específico de abuso: envolve o que pode acontecer quando câmeras, microfones e sistemas de inteligência artificial passam a acompanhar continuamente o ponto de vista do usuário.

Reino Unido e Estados Unidos fecham algumas portas

No Reino Unido, não existe uma proibição nacional dos smart glasses, mas as restrições começaram a se espalhar por ambientes nos quais gravações representam um problema especial.

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Tribunais da Inglaterra e do País de Gales proibiram os aparelhos, enquanto teatros, cinemas, restaurantes, pubs e clubes privados passaram a estabelecer regras próprias.

Nos Estados Unidos, a Justiça do Estado de Nova York anunciou em 14 de julho a proibição dos smart glasses em suas instalações. A medida, em vigor desde 20 de julho, alcança óculos com câmera, microfone, computador ou outra tecnologia capaz de fazer gravações de áudio ou vídeo.

São medidas de alcance diferente, adotadas por instituições distintas. Mas todas partem de uma dificuldade criada pelo mesmo desenho do produto: uma câmera instalada em um objeto que normalmente não desperta a reação provocada por alguém apontando um celular.

Meta aposta com e sem câmera

No Connect, ficou claro que a Meta não está abandonando as câmeras. Ao mesmo tempo em que Zuckerberg apresentou o Ray-Ban Meta Audio sem esse recurso, a companhia lançou a terceira geração do Ray-Ban Meta. O novo modelo possui câmera de 12 megapixels, grava vídeos em 3K e mantém o LED destinado a indicar quando fotos ou vídeos estão sendo registrados.

O preço também separa as duas propostas. O Ray-Ban Meta Audio, que chega ao mercado em 13 de outubro, parte de US$ 349. O Ray-Ban Meta Gen 3 custa a partir de US$ 449.

A estratégia coloca lado a lado dois caminhos. Um deles preserva a capacidade dos óculos de enxergar, registrar e, com ajuda da IA, interpretar o ambiente. O outro mantém inteligência artificial e áudio, mas abre mão da visão. Zuckerberg, ao apresentar o RayBan Meta Audio, focou nas possibilidades de design abertas pela retirada da câmera.

Zuckerberg apresentou o Ray-Ban Meta Audio, que não tem câmera.
Zuckerberg apresentou o Ray-Ban Meta Audio, que não tem câmera.
Source: Reprodução/ Facebook - Mark Zuckerberg

Pressão em outras frentes

A discussão sobre os smart glasses ocorre quando a Meta enfrenta questões regulatórias em outros campos que vão custar um bom dinheiro para a companhia. Em agosto, um tribunal do Novo México, nos Estados Unidos, determinou que a empresa pagasse US$ 567 milhões para um fundo destinado à saúde mental de adolescentes e promovesse mudanças em suas plataformas para proteger usuários jovens.

Em março, um júri já havia determinado o pagamento de US$ 375 milhões no mesmo processo, relacionado a acusações sobre a segurança de crianças e adolescentes no Facebook e no Instagram. A Meta contesta as decisões e anunciou recurso.

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O que mais a Meta apresentou no Connect

O Meta Connect demonstrou que os óculos ocupam uma posição central nessa estratégia. Além do Ray-Ban Meta Audio e da terceira geração do Ray-Ban Meta, a companhia apresentou o Meta VR Glasses, aparelho de realidade virtual de aproximadamente 100 gramas, com formato muito mais próximo ao de óculos do que dos tradicionais headsets. O lançamento comercial está previsto para 2027.

A big tech também anunciou a integração do Muse, seu agente pessoal de inteligência artificial, aos óculos e ampliou a variedade de armações, lentes e modelos. Até o fim deste ano, pretende oferecer mais de 100 opções entre Ray-Ban, Oakley e Meta Glasses.

A expansão geográfica também continua. A companhia anunciou novos mercados e informou que os Meta Glasses chegarão em breve ao Brasil.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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