Keiko Fujimori toma posse no Peru com lideranças da nova direita sul-americana e sem Lula
Principais pontos
- Keiko Fujimori toma posse como presidente do Peru nesta terça-feira, reunindo em Lima lideranças da nova direita sul-americana, entre elas Milei, Kast e o rei Felipe VI.
- Lula não vai à cerimônia e o Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira
- Com Congresso fragmentado e sem maioria própria, Keiko herda o desafio crônico de governabilidade que derrubou nove presidentes peruanos na última década.

Keiko Fujimori assume nesta terça-feira, 28, a presidência do Peru, em sessão solene no Congresso, em Lima. A cerimônia coincide com o feriado de independência do país e marca o retorno do sobrenome Fujimori ao Palácio de Pizarro, 26 anos depois da queda de Alberto Fujimori.
Filiada ao partido Fuerza Popular, Fujimori obteve 50,135% dos votos válidos, o equivalente a 9.223.396 votos, contra 49,865% e 9.173.755 votos do candidato de esquerda Roberto Sánchez, da coalizão Juntos pelo Peru.
Na véspera da posse, Keiko anunciou o núcleo do gabinete. Elmer Cuba assume a pasta da Economia, Carlos Espa comandará as relações Exteriores e Luis Galarreta, seu vice na chapa, é o primeiro-ministro. A faixa presidencial será passada por José María Balcázar Zelada, que ocupava o cargo de forma interina desde a destituição de José Jerí, em fevereiro.
Essa é a quarta candidatura da filha do ex-ditador do Peru à presidência e a primeira que termina em vitória. As outras três anteriores foram perdidas, para Ollanta Humala, Pedro Pablo Kuczynski e Pedro Castillo.
Encontro da nova direita latino-americana
A posse reúne uma lista extensa de chefes de Estado da direita regional. Confirmaram presença os presidentes Javier Milei, da Argentina, José Antonio Kast, do Chile, Daniel Noboa, do Equador, Santiago Peña, do Paraguai, José Raúl Mulino, do Panamá, Rodrigo Paz, da Bolívia, Yamandú Orsi, do Uruguai, e Nasry Asfura, de Honduras. O rei Felipe VI, da Espanha, também está em Lima.
Os Estados Unidos enviaram o vice-secretário de Estado Christopher Landau, indicado por Donald Trump. Já a China será representada pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Yin Hejun.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não irá a posse. O Planalto recebeu o convite, mas decidiu manter o presidente focado na agenda interna, a poucos meses da eleição de 2026. Em seu lugar, o chanceler Mauro Vieira representa o país.
A ausência confirma um isolamento de Lula que vem se desenhando há meses. Com Fujimori no poder e, em agosto, Abelardo de la Espriella vencendo na Colômbia, o Brasil passa a ser o único grande país da região governado pela esquerda.
O desafio da governabilidade
Keiko assume um Peru que trocou de presidente nove vezes em dez anos, sem que nenhum completasse o mandato. O Congresso bicameral, restabelecido neste pleito após mais de três décadas, está fragmentado. Embora o Força Popular tenha maior bancada, a legenda está longe da maioria absoluta.
A cientista política Thaís Pavez, da Estratégia Latina Consultoria, já havia descrito ao GSW Brasil o cenário regional que agora chega ao Peru. Segundo ela, o ciclo de protestos que atingiu a América do Sul na década passada abriu caminho para governos "fora do mainstream" dos anos 90 e 2000. Sobre o Peru, avaliou que as manifestações tinham "conteúdo bastante antissistema", num país onde a insatisfação já vinha de longe.
O desafio agora é de governabilidade. Alberto Fujimori chega ao poder com maioria parlamentar e fechou o Congresso para se manter nele. A filha assume em condição oposta, sem maioria, em um Legislativo dividido em pelo menos seis bancadas, e depende de acordos que já derrubaram presidentes antes dela.
Direita avança na América Latina
A guinada peruana repete o que já havia acontecido na Colômbia, onde o outsider de direita Abelardo de la Espriella venceu Iván Cepeda, candidato apoiado por Gustavo Petro, em 21 de junho, também por margem estreita e também sob contestação da oposição derrotada. Sete países sul-americanos passam a ser governados pela direita: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru. À esquerda restam Brasil, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.
Para a cientista política Thaís Pavez, diretora da Estratégia Latina Consultoria, o momento atual mostra uma reversão da onda progressista que tomou a região nos anos 2000.
"Naquele momento, dentro da própria economia global, havia um boom de commodities, e os partidos de esquerda aproveitaram para fazer um programa de gestão dos problemas sociais profundos que décadas de neoliberalismo, implementado nos anos 80 e 90, tinham criado. Foi o caso do Brasil, da Argentina, do Chile, e assim por diante", explica.
Essa onda perdeu força quando a crise econômica chegou à região, em 2012, dando início a um longo período de recessão que foi até 2022 e dificultou cumprir promessas de mobilidade social e consumo.
Pedro Dallari, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP, lê o momento por um ângulo complementar ao de Pavez – o de uma crise de legitimidade acumulada ao longo de décadas. "Há uma crise de legitimidade do poder político na América Latina que resulta da insatisfação popular com a falta de resposta mais efetiva dos governos liberais e social-democratas que se revezaram nos países da região desde a redemocratização", afirma.
"O quadro geral de profunda desigualdade e vulnerabilidade social que caracteriza a região não foi modificado, havendo uma piora significativa em algumas áreas, como a segurança pública. Isso está dando margem à emergência de alternativas com propostas de extrema-direita para enfrentar o imobilismo das elites governantes", diz.
Essa guinada, porém, não segue um molde único. Na Bolívia e no Peru venceram políticos de corte mais tradicional, ainda que com retórica salvacionista, enquanto Milei e Abelardo de la Espriella representam uma nova direita protagonizada por outsiders.
A contestação eleitoral também virou padrão regional. Tanto Sánchez no Peru quanto Cepeda e Petro na Colômbia alegaram fraude sem apresentar provas concretas até agora. Para Dallari, esse cenário de contestação recorrente é sintoma da incapacidade das forças democráticas de entregar resultados.
"Se as forças comprometidas com a democracia não se submeterem a compromissos mais efetivos com a eficiência e a accountability, a própria democracia correrá risco", afirma.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.