O que a volta dos Fujimori diz sobre a instabilidade crônica do Peru

Principais pontos

  • Keiko Fujimori foi eleita presidente do Peru no segundo turno, com vitória apertadíssima
  • A eleição marca a volta dos Fujimori ao poder 13 anos após a queda de Alberto Fujimori e reforça a guinada à direita na América do Sul,
  • Fujimori assumirá um país com grave instabilidade política, Congresso fragmentado e e forte contestação da oposição
Keiko Fujimori, presidente eleita do Peru
Keiko Fujimori, presidente eleita do Peru
Source: Reprodução - Redes sociais

Keiko Fujimori é a presidente eleita do Peru. O resultado saiu na madrugada de quarta-feira (24), depois de dezessete dias de apuração de um segundo turno decidido por menos de 43 mil votos. É a quarta vez que ela disputa a presidência. As três primeiras, perdeu.

Com 99,85% das urnas contadas, Fujimori tinha 9.206.241 votos, 50,11% dos válidos. Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú, ficou com 9.162.855, 49,82%. Na contagem, a vantagem trocou de mãos mais de uma vez e, em alguns momentos, os dois candidatos chegaram a ficar separados por poucas centenas de votos.

Sánchez não reconhece o resultado e alega fraude, e seu partido pediu à Justiça eleitoral a anulação dos votos vindos do exterior – que historicamente favorecem Fujimori e tiveram peso decisivo nesta eleição. O Júri Nacional de Eleições (JNE) rejeitou o pedido. A proclamação oficial do resultado deve ocorrer em julho. A posse está prevista para o dia 28.

Quarta tentativa, primeira sem o pai

Keiko Sofía Fujimori Higuchi nasceu em Lima em 1975, filha de Alberto Fujimori e Susana Higuchi. Assumiu o papel de primeira-dama em 1994, aos 19 anos, depois da separação dos pais. Formou-se em administração de empresas na Universidade de Boston e fez mestrado na Columbia, em Nova York. Entrou na política em 2006, eleita deputada com mais de 600 mil votos, recorde para uma mulher na época. Fundou o Força Popular em 2009 e preside o partido desde 2013.

Esta é sua quarta candidatura à presidência, a primeira desde a morte do pai, em 2024. Perdeu os três segundos turnos anteriores: para Ollanta Humala em 2011, para Pedro Pablo Kuczynski em 2016, para Pedro Castillo em 2021. Nas duas últimas derrotas, não reconheceu o resultado.

Sua trajetória também carrega processos judiciais. Foi investigada no chamado caso "Cócteles", por suposto financiamento ilegal de campanha ligado à Odebrecht, recursos que teriam sido destinados às campanhas de 2011 e 2016. Ficou presa preventivamente por cerca de 17 meses entre 2018 e 2020. A Justiça peruana anulou o processo em 2025.

O peso do nome

Alberto Fujimori governou o Peru de 1990 a 2000. Em 1992, deu um autogolpe: fechou o Congresso e interveio no Judiciário, sob a justificativa de combater o terrorismo do Sendero Luminoso e a crise econômica. Renunciou em 2000 para evitar um impeachment e fugiu para o Japão.

Foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade, entre eles as execuções extrajudiciais dos casos Barrios Altos e La Cantuta, e seu governo é responsabilizado pela esterilização forçada de milhares de mulheres indígenas e camponesas. Cumpriu 16 anos de pena antes de receber indulto humanitário. Morreu em 2024.

Keiko construiu parte de sua carreira em torno da memória desse período, sobretudo do combate ao terrorismo, ao mesmo tempo em que, em diferentes momentos, reconheceu publicamente os crimes cometidos pelo pai. O slogan de campanha desta eleição, "volta à ordem", repete o gesto.

Um país que não consegue manter presidente

O Peru chega a essa eleição depois de nove presidentes em dez anos, nenhum deles capaz de completar o mandato. O mais recente, Pedro Castillo, foi deposto e condenado por tentativa de golpe depois de tentar fechar o Congresso unilateralmente em 2022.

A votação também expôs uma fratura geográfica que não se resume ao eixo direita-esquerda. Fujimori venceu nos grandes centros urbanos da costa, com força em Lima. Sánchez teve maioria nas regiões andinas, no sul e na Amazônia, áreas que historicamente acusam o centralismo de Lima de abandono.

No Congresso bicameral, restabelecido neste pleito após mais de três décadas, o Força Popular é a maior bancada, mas está longe da maioria absoluta. Nenhum partido sozinho controla a Câmara de Deputados ou o Senado. 

Keiko vai precisar negociar com legendas menores como Renovação Popular, Partido do Bom Governo, Partido Cívico Obras e Ahora Nação para aprovar leis e manter o gabinete em pé – um desafio que já derrubou presidentes peruanos antes dela.

A direita avança na América do Sul

O Peru se junta a um movimento que já havia se confirmado na Colômbia, onde o outsider de direita Abelardo de la Espriella venceu Iván Cepeda, candidato apoiado por Gustavo Petro, em 21 de junho, também por margem estreita e também sob contestação da oposição derrotada. Sete países sul-americanos passam a ser governados pela direita: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru. À esquerda restam Brasil, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Para a cientista política Thaís Pavez, diretora da Estratégia Latina Consultoria, o momento atual mostra uma reversão da onda progressista que tomou a região nos anos 2000. 

"Naquele momento, dentro da própria economia global, havia um boom de commodities, e os partidos de esquerda aproveitaram para fazer um programa de gestão dos problemas sociais profundos que décadas de neoliberalismo, implementado nos anos 80 e 90, tinham criado. Foi o caso do Brasil, da Argentina, do Chile, e assim por diante", explica.

Essa onda perdeu força quando a crise econômica chegou à região, em 2012. "Torna muito difícil para esses governos cumprir a promessa de mobilidade social, de acesso ao consumo, de crescimento dos programas de transferência de renda. As economias latino-americanas começam a ter muita dificuldade de crescer, e começa um longo período de recessão, de 2012 a 2022, mais ou menos", diz Pavez.

O resultado, segundo ela, foi uma onda de protestos que recolocou em cena governos fora do espectro tradicional. O Chile teve o seu em 2019. A Colômbia, no meio da pandemia, quando o governo de direita tentou implementar uma reforma tributária que mexia nos impostos da classe média e dos trabalhadores. O Brasil, em 2013. 

Para Pavez, esse ciclo de protestos abriu caminho para governos “fora do mainstream” dos anos 90 e início dos anos 2000, casos de Gabriel Boric no Chile e de Gustavo Petro na Colômbia. Sobre o Peru, ela nota que as manifestações que embalaram o atual ciclo eleitoral "já vinham acontecendo havia muito tempo, e têm também um conteúdo bastante antissistema."

Pedro Dallari, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP, lê o momento por um ângulo complementar ao de Pavez: o de uma crise de legitimidade acumulada ao longo de décadas. 

"Há uma crise de legitimidade do poder político na América Latina que resulta da insatisfação popular com a falta de resposta mais efetiva dos governos liberais e social-democratas que se revezaram nos países da região desde a redemocratização, nas duas últimas décadas do século XX, até as duas primeiras décadas deste século, um período de cerca de 40 anos", afirma.

Para Dallari, embora a democracia tenha sido preservada na região, com exceções de Venezuela, Nicarágua e Cuba, não resolveu seus problemas estruturais. 

"O quadro geral de profunda desigualdade e vulnerabilidade social que caracteriza a região não foi modificado, havendo uma piora significativa em algumas áreas, como a segurança pública. Isso está dando margem à emergência de alternativas com propostas de extrema-direita para enfrentar o imobilismo das elites governantes", diz.

O professor da USP também aponta que essa guinada não segue um molde único. "Esse padrão encontra especificidades em cada país da região. Na Argentina, no Chile e na Colômbia, venceram outsiders. Na Bolívia e no Peru, políticos de corte mais tradicional. Mas sempre com a mesma retórica salvacionista", observa. 

A distinção ajuda a posicionar Keiko não como uma outsider nos moldes de Javier Milei ou de Abelardo de la Espriella, mas como representante de uma direita de tradição política e dinástica, com o mesmo discurso de salvação nacional.

A contestação eleitoral também virou padrão regional. Tanto Sánchez no Peru quanto Cepeda e Petro na Colômbia alegaram fraude sem apresentar provas concretas até agora. O comportamento não é exclusividade sul-americana: no Brasil, apoiadores de Jair Bolsonaro contestaram o resultado de 2022, e já levantavam suspeitas sobre o sistema eleitoral mesmo depois da vitória dele em 2018.

Para Dallari, esse cenário de contestação recorrente é sintoma da incapacidade das forças democráticas de entregar resultados. "Se as forças comprometidas com a democracia não se submeterem a compromissos mais efetivos com a eficiência e a accountability, a própria democracia correrá risco", afirma.

O que esperar do governo Fujimori

Keiko assume um país fragmentado, com Executivo historicamente fraco diante do Congresso e sem maioria parlamentar própria. A confirmação oficial do resultado pelo JNE ainda está pendente, mas a margem já é considerada irreversível pelas próprias autoridades eleitorais. 

A posse, prevista para 28 de julho, deve marcar o início de um mandato sob vigilância redobrada; tanto da oposição, que não reconhece o resultado, quanto de quem acompanha de fora os rumos da guinada conservadora na América do Sul.

O nome Fujimori volta ao Palácio de Pizarro treze anos depois da queda de Alberto. A diferença é o ponto de partida. Alberto  chegou com maioria parlamentar e usou o Congresso fechado como instrumento de poder, enquanto a herdeira terá um Congresso sem maioria, fragmentado em pelo menos seis bancadas e vai precisar negociar.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.