"El Tigre": o outsider que encerrou o experimento de esquerda na Colômbia
Principais pontos
- Abelardo de la Espriella, advogado de 47 anos, derrotou o senador Iván Cepeda – candidato de Gustavo Petro – no segundo turno
- Advogado de 47 anos e estreante na política, ganhou tração após o assassinato do jornalista Miguel Uribe Turbay, fundando um movimento que juntou 4,8 milhões de assinaturas
- Defende modelo linha-dura na segurança e agenda econômica liberal

A vitória de Abelardo de la Espriella por menos de 250 mil votos interrompe a breve experiência colombiana de ser governada pela esquerda. O advogado de 47 anos, filiado ao Movimento de Salvação Nacional e estreante em cargos públicos derrotou o senador Iván Cepeda – candidato de Gustavo Petro – no segundo turno deste domingo, 21. A posse está marcada para 7 de agosto.
No discurso logo após a contagem preliminar dos votos, o ultraliberal adotou tom mais comedido do que o habitual e prometeu respeitar a Carta de 1991, afastando a ideia de uma nova Assembleia Constituinte.
“Serei o presidente de todos os colombianos. Vou governar para todos. Esta será a pátria de todos os colombianos, de todas as religiões, a pátria de todas as comunidades ancestrais, de todos os jovens, avós, agricultores, empreendedores. Uma pátria de todos, para todos”, disse, diante de milhares de apoiadores em Barranquilla.
A transição é que não deve ser pacífica. Iván Cepeda e Gustavo Petro já anunciaram que vão contestar o resultado em cerca de 33 mil urnas durante o escrutínio oficializado pelos juízes eleitorais, apontando supostas inconsistências na contagem rápida de domingo e alegando "ingerência estrangeira" no pleito.
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Da candidatura relâmpago à Casa de Nariño
Abelardo Gabriel de la Espriella Otero nasceu em Bogotá em 31 de julho de 1978, mas cresceu em Montería, no Caribe colombiano. É casado com Ana Lucía Pineda Aruachan, com quem tem quatro filhos: Lucía, Salvador, Filippo e Francesca. Fora dos tribunais e dos palanques, cultiva seu lado artístico cantando vallenato, a música folclórica tradicional da região caribenha.
Antes de se lançar à presidência, construiu carreira como advogado de causas consideradas complexas. Defendeu desde figuras do entretenimento e do futebol até nomes ligados ao paramilitarismo, escândalos financeiros (como o esquema de pirâmide DMG) e o empresário e ex-ministro da Indústria e da Produção Nacional da Venezuela Alex Saab, apontado como operador financeiro de Nicolás Maduro.
Embora adote o discurso de “defensor da pátria”, De la Espriella tem uma trajetória marcada pelo trânsito internacional: possui três cidadanias (colombiana, italiana e americana), viveu em Miami e é filiado ao Partido Republicano nos Estados Unidos. Declarava-se ateu até 2020, quando se converteu ao cristianismo após uma perda familiar, transformando os valores cristãos em um dos pilares de sua retórica.
A entrada na política foi gestada pelo atentado contra o jornalista e então pré-candidato Miguel Uribe Turbay, alvo de dois tiros na cabeça em Bogotá em 7 de junho de 2025. Ele faleceu após mais de dois meses de internação.
O crime gerou um forte clamor público por segurança. Aproveitando a onda de indignação, De la Espriella fundou o movimento Defensores de la Patria e, com o apoio do Movimento de Salvação Nacional, lançou uma campanha que reuniu 4,8 milhões de assinaturas para registrar sua candidatura independente.
O lançamento oficial da campanha ocorreu em novembro de 2025, em uma casa de shows lotada em Bogotá. O projeto, que inicialmente enfrentou a fragmentação do espectro conservador, ganhou força definitiva com a escolha do vice: José Manuel Restrepo. Ex-ministro da Economia de Iván Duque, Restrepo trouxe respeitabilidade técnica à chapa e acalmou o mercado financeiro.
Cartilha da nova direita
A imagem de outsider foi o principal capital eleitoral de De la Espriella. A estratégia tem parentesco direto com a de outros líderes da nova direita latino-americana. O apelido "El Tigre" nasceu de uma frase do ex-presidente Álvaro Uribe, que disse em 2024 que a Colômbia precisava de "um tigre" no poder – uma analogia ao leão de Javier Milei na Argentina e à águia de Donald Trump nos Estados Unidos.
Em comícios, ele encerra os discursos levando a mão ao cenho e gritando "Firme pela pátria!", gesto militar repetido por apoiadores.
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Uma das maiores forças visuais da campanha foi a apropriação da camisa amarela da seleção colombiana de futebol como uniforme não oficial. Apoiadores foram às urnas vestindo peças com os nomes de ídolos como James Rodríguez e Luis Díaz.
O fenômeno guarda um paralelo direto com a direita brasileira, que transformou a camisa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em seu principal símbolo de identidade política e nacionalismo estético nas ruas.
De la Espriella ancora seu programa de governo em uma agenda de segurança pública de linha-dura. Entre as principais medidas estão uma ofensiva militar contra o crime organizado, a construção de dez megaprisões, a erradicação química de plantações de coca, o bombardeio de acampamentos de grupos armados e a autorização para derrubar aviões e embarcações suspeitos de transportar drogas.
Na economia, o candidato prometeu reduzir o tamanho do Estado, cortar impostos corporativos e retomar de forma agressiva a exploração de petróleo, gás e mineração.
O novo mapa sul-americano
A vitória de De la Espriella consolida uma mudança na geopolítica da América do Sul. A região, que há poucos anos vivia uma "nova onda rosa" de governos de esquerda, agora testemunha o avanço de uma direita reformulada.
Com o atual cenário, a direita governará seis países na América do Sul: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Paraguai.
À esquerda estão cinco países: Brasil, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.
Já o Peru tem apuração em curso entre o candidato de esquerda Roberto Sánchez e a rival de direita Keiko Fujimori, que lidera a disputa.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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