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Brasileiras se destacam em prêmio da ONU de empreendedorismo
Principais pontos
- O Brasil teve quatro das 12 finalistas do Empretec Women in Business Awards 2026, prêmio de empreendedorismo feminino da ONU, e foi o país com mais representantes na disputa.
- Adriana Fernandes, da Mátrika Special Foods, venceu na categoria Inovação, com uma empresa especializada em alimentos para pessoas com alergias e restrições alimentares.
- Entre as finalistas, Andreyna Silva criou uma plataforma que conecta costureiras a empresas de moda, inspirada por um calote sofrido pela mãe; ela é integrante da comunidade Direito de Ser, do GSW Brasil no WhatsApp.

O Brasil foi destaque do Empretec Women in Business Awards 2026, prêmio de empreendedorismo feminino promovido pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). O país teve o maior número de finalistas nesta edição, que anunciou as ganhadoras na segunda-feira, 26. Entre elas está uma brasileira.
A nona edição do Empretec Women aconteceu durante o 9º Fórum Mundial de Investimentos (WIF 2026), em Doha, no Catar. Quatro das 12 finalistas eram do Brasil, um salto em relação à edição anterior, realizada em 2023, quando o país teve uma representante.
Criada em 2008, a premiação da UNCTAD reconhece empreendedoras nas categorias Liderança, Sustentabilidade, Inovação e Tecnologia.
As brasileiras finalistas são: Adriana Fernandes, da Mátrika Special Foods, especializada em alimentos para pessoas com alergias e restrições alimentares; Silvana Louro, da Equal Moda Inclusiva, que desenvolve roupas adaptadas para pessoas com deficiência; Paula Dalla Vecchia, da Zeit, startup de inteligência artificial aplicada ao agronegócio; e Andreyna Silva, da Coostura Hub, plataforma que conecta costureiras e pequenas oficinas a empresas de moda. Andreyna é integrante da comunidade “Direito de Ser” do GSW Brasil no WhatsApp, que trata de empreendedorismo e direitos da mulher.
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Adriana foi uma das vencedoras na categoria Inovação, ao lado de Aisha Albinali, do Catar, cofundadora da Wafir, empresa de tecnologia financeira. As outras premiadas são Sandra Letio, de Uganda, do Pelere Group, que atua com pequenos agricultores, em Liderança; Paula Gianserra, da Argentina, da Reforest Latam, em Sustentabilidade; e Biobele Oyibo, da Nigéria, da Earlybean, plataforma de educação e inclusão financeira para jovens, em Tecnologia.
Ao todo, foram 12 finalistas. Elas foram escolhidas entre 52 empreendedoras indicadas por centros do programa Empretec, iniciativa da ONU voltada à formação e ao desenvolvimento empresarial. No Brasil, ele é executado pelo Sebrae.
Conheça as histórias de cada uma das empreendedoras brasileiras indicadas ao prêmio, incluindo a vencedora da categoria Innovation.
Paula Dalla Vecchia — Zeit Artificial Intelligence Solutions. Categoria: Tecnologia
Fundadora e diretora de operações e pesquisa e desenvolvimento da Zeit, startup especializada em IA aplicada ao agronegócio. A empresa desenvolve equipamentos portáteis que permitem realizar análises diretamente no campo, dispensando o envio de amostras a laboratórios. A tecnologia avalia, entre outros parâmetros, a qualidade de grãos, farelo de soja e leite, os níveis de potássio nas folhas, a silagem e os bioinsumos. Os resultados ficam disponíveis em poucos minutos, sem necessidade de conexão à internet ou utilização de reagentes químicos.
Em operação desde 2020, a Zeit busca tornar as análises mais rápidas, acessíveis e econômicas, inclusive para pequenos produtores rurais. Entre os avanços da empresa estão a criação de uma parceria empresarial com o Genesis Group, denominada Nira, e o lançamento do equipamento Zeit K, que teve toda a produção inicial vendida no primeiro mês.
Silvana Louro — Equal Moda Inclusiva. Categoria: Inovação
Fundadora e diretora-presidente da Equal Moda Inclusiva, marca que desenvolve roupas adaptadas para pessoas com deficiência. O negócio nasceu de pesquisas e da criação de um uniforme para atletas paralímpicos e evoluiu para uma proposta que busca aproximar a moda convencional da adaptada. Atualmente, todas as peças são produzidas em duas versões, permitindo que pessoas com e sem deficiência utilizem os mesmos modelos. As roupas também contam com etiquetas em braile certificadas pelo Instituto Benjamin Constant.
A empresa ampliou sua presença no mercado por meio de uma parceria com a Reserva, que levou a linha Adapte+Equal a mais de 130 lojas em todo o Brasil. Além da atividade comercial, Silvana desenvolveu iniciativas de inclusão e capacitação. Em parceria com a ONU Mulheres e o Instituto Lojas Renner, a Equal ofereceu formação a 160 mulheres com deficiência, abordando moda, autoestima e beleza. O trabalho combina desenvolvimento de produtos acessíveis com oportunidades de participação e valorização de pessoas com deficiência.
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Adriana Fernandes — Mátrika Special Foods. Categoria: Inovação. É uma das vencedoras.
Diretora-presidente da Mátrika Special Foods, empresa fundada em 2015, em São Paulo, especializada na produção de alimentos para pessoas com alergias alimentares e intolerância ao glúten. A companhia desenvolveu uma linha de refeições ultracongeladas, pães, bolos e salgados sem glúten e sem os principais grupos de ingredientes responsáveis por alergias alimentares. A produção segue processos de rastreabilidade e controle de qualidade, destinados a oferecer segurança a consumidores que precisam seguir dietas restritivas.
Com mais de 100 produtos em seu portfólio, a Mátrika atende hospitais, laboratórios, escolas, companhias aéreas internacionais e mais de 5 mil clientes individuais. Desde 2019, a empresa conta com o apoio da M. Dias Branco, maior fabricante de massas e biscoitos do Brasil. Com uma equipe de 18 profissionais, o negócio procura conciliar segurança alimentar, variedade e inclusão. Sua proposta é sintetizada pelo lema: “Incluímos pessoas excluindo ingredientes”.
Andreyna Silva — Coostura Hub. Categoria: Tecnologia
Fundadora da Coostura, plataforma digital criada para conectar costureiras autônomas e pequenas oficinas de confecção a empresas de moda que terceirizam sua produção. A iniciativa procura enfrentar problemas de informalidade, falta de transparência e dificuldade de acesso a oportunidades de trabalho no setor. Pela plataforma, profissionais podem criar gratuitamente seus perfis, enquanto as empresas contratam uma assinatura para localizar prestadores de serviços de acordo com a região, o tipo de peça produzida e os equipamentos disponíveis.
A Coostura oferece ferramentas de comunicação, avaliações mútuas e acompanhamento da produção, buscando dar mais segurança às relações comerciais. Nos primeiros seis meses de funcionamento, a plataforma reuniu mais de 200 costureiras cadastradas em sete estados brasileiros. Andreyna desenvolveu o negócio com apoio de uma bolsa do Empretec e de recursos do programa Mulheres+Tec. Sua trajetória também inclui o Prêmio de Empreendedorismo Gustav Salinger e reconhecimento no Fashion Revolution Forum, iniciativas ligadas ao empreendedorismo e à transformação da indústria da moda.
Plataforma criada após um calote

Andreyna Silva contou sua história e a de seu projeto para o GSW Brasil. A criadora da Coostura cresceu nos fundos de uma oficina em Blumenau (SC) e lançou a startup para dar segurança a mulheres como sua mãe.
O projeto nasceu de uma bolsa. Ao vencer uma feira de inovação universitária, Andreyna ganhou uma vaga no Empretec, curso de formação de empreendedores com metodologia da ONU. Apenas as mulheres que passaram pelo programa podem concorrer ao prêmio.
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Em 2025, o Sebrae avisou pelo WhatsApp que as inscrições para o Empretec Women in Business Awards estavam abertas. O formulário pedia a trajetória das candidatas, o efeito do Empretec na vida e o impacto do negócio.
A primeira triagem ficou a cargo do Sebrae Nacional e, meses depois, Andreyna recebeu uma carta que dizia que estava entre as seis brasileiras enviadas à avaliação global da ONU.
A cerimônia estava prevista para novembro de 2025, no Vietnã, mas como o mês terminou sem notícias, ela concluiu que não tinha sido escolhida. Mais tarde, porém, ela descobriria que o evento havia sido adiado em um ano e transferido para o Catar.
Há cerca de duas semanas, um contato da ONU pediu fotos dela para divulgar as finalistas. Nem a gerente nacional do Sebrae soube explicar o motivo e a confirmação só veio com o anúncio oficial.
"Sinto que é a oportunidade da minha vida. Ainda parece mentira pensar que o negócio que criei no meu quarto chegou nesse nível de credibilidade", conta.
Nos fundos da oficina
Até os 10 anos, Andreyna morou nos fundos da oficina onde a mãe trabalhava. "Minha mãe foi mãe solo e a única forma dela poder me sustentar era trabalhar com costura, o pagamento dela era basicamente a gente ter onde morar", lembra.
Na adolescência, depois de um período morando de favor com parentes no Rio de Janeiro, as duas voltaram para Blumenau. Em 2020, a família vivia da pensão deixada pelo pai, após a mãe perder o emprego durante a pandemia, e da bolsa de estágio de Andreyna, que cursava moda como bolsista integral na Universidade de Blumenau (FURB).
Em 2023, ela começou o mestrado em administração com bolsa da Capes, com a intenção de seguir carreira como professora e pesquisadora. No início daquele ano, a mãe decidiu abrir a própria facção de costura, nome dado no Sul às oficinas que recebem das marcas as peças cortadas para montar, revisar e devolver. Normalmente, quem contrata define o preço, o padrão de qualidade e o prazo de pagamento, quase sempre sem contrato formal.
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Como a bolsa exigia dedicação exclusiva, Andreyna não podia ter emprego, então ajudava a mãe no contraturno, cuidava da contabilidade e buscava clientes. A maior parte das encomendas, porém, chegava por grupos de Facebook: só os três principais do Vale do Itajaí, polo têxtil catarinense, somavam 40 mil participantes. Neles também atuavam atravessadores, que fecham o serviço com a marca e repassam a produção para as costureiras.
Foi com um deles que a mãe aceitou costurar 2 mil camisetas a R$ 1 cada, em cerca de 15 dias. "O que aconteceu foi que ela produziu essas 2000 camisetas, entregou as peças e o cara bloqueou ela de tudo, sem pagar", diz Andreyna.
Poucos dias depois do calote, coincidentemente, encerravam-se as inscrições da feira de inovação da FURB e, inspirada pelo calote, Andreyna decidiu inscrever a proposta de uma plataforma que mapeasse as oficinas da região e as conectasse a fornecedores verificados.
"O prêmio era R$ 2000, exatamente o valor que a gente tinha perdido uns 15 dias antes com o cara, e que era o valor do nosso aluguel na época", conta.
O mecanismo por trás da Coostura
Hoje, após ter ficado em primeiro lugar e iniciado o projeto, a Coostura reúne cerca de 800 oficinas, com aproximadamente mil costureiras, em 22 estados, a maioria em Santa Catarina. Do lado da demanda, há 167 confecções, marcas e indústrias cadastradas. Na época da inscrição no prêmio, eram 200 costureiras em sete estados, número citado no anúncio da ONU.
As costureiras não pagam nada: se cadastram, montam um perfil com suas habilidades, experiência, maquinário, fotos e portfólio e conversam com os fornecedores por um chat. A plataforma também não cobra comissão sobre os serviços, a receita vem da assinatura paga pelas empresas.
A empresa publica um pedido como faria em um grupo de Facebook, informando a quantidade, orçamento, prazo, cidade e as máquinas necessárias. As oficinas que atendem aos critérios recebem um aviso pelo WhatsApp e podem negociar diretamente com eles.
Para evitar calotes, é feita uma triagem antes do cadastro. A equipe confere os documentos de costureiras e fornecedores e verifica se a empresa consta em alguma lista de trabalho escravo ou tem pendências trabalhistas. Inclusive, ao assinar o termo de uso, a empresa se compromete a pagar o valor combinado, sob pena de ação judicial.
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Coostura Play: formação pelo WhatsApp
O próximo passo é a criação da Coostura Play, uma escola digital gratuita para quem já costura, financiada por um segundo edital que Andreyna ganhou em julho deste ano. De acordo com ela, a falta de mão de obra qualificada agrava muito a escassez de costureiras, já que grande parte delas aprenderam o ofício com outras mulheres e nunca receberam um certificado.
O curso tem como objetivo abordar empreendedorismo, educação financeira, oratória e atendimento ao cliente; manutenção e configuração de máquinas, uso de acessórios e controle de qualidade; e bem-estar, saúde mental e ergonomia.
A primeira turma deve começar em novembro, com todo o conteúdo podendo ser acessado pelo celular. No piloto, as costureiras já cadastradas na plataforma serão selecionadas por um edital e terão até 10 semanas para concluir o curso. Ao final, receberão um certificado e um selo de destaque na plataforma.
A escalada no negócio
Depois de vencer a feira da FURB, no final de 2023, Andreyna passou meses operando com uma planilha e ligações, fazendo o contato direto entre as costureiras e as empresas. Em um ano, enquanto trabalhava como estrategista de marketing, dava aulas em duas instituições e escrevia a dissertação de mestrado, ela viu a empresa ser premiada no Prêmio Gustav Salinger de Empreendedorismo, em Blumenau, e no fórum Fashion Revolution, em São Paulo.
Em 2025, a Coostura deixou de ser MEI e passou a ser uma microempresa. A startup foi eleita a melhor do programa de aceleração Audaces Lab, da maior empresa de tecnologia para moda das Américas, e foi convidada para a Febratex, feira têxtil em que voltou a expor em 2026.
Neste ano, também ganhou o prêmio Impactos Criativos, do World Creativity Day, na categoria Tecnologia. A empresa também participa do Startup SC, programa de aceleração do Sebrae, e está incubada no Sebrae Hub.
O que vem depois de Doha
Na pesquisa de mestrado, Andreyna identificou o mesmo modelo de terceirização dos serviços de costura em países vizinhos, então o plano é levar a Coostura para fora do Brasil, contemplando costureiras do Paraguai, por exemplo.
Ela também quer que a plataforma reúna todas as etapas da cadeia da moda, do estampador ao motorista. "Somos uma startup de impacto social, para mim o impacto vem antes do lucro", afirma.
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Para Andreyna, disputar a premiação é uma forma de dar mais visibilidade à profissão. "As costureiras sustentam toda a cadeia da moda nacional, que está na mão dessas mulheres que são terceirizadas”, relembra.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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