Trump ameaça na ONU usar ‘poderio militar’ na América Latina

Principais pontos

  • Em discurso na abertura da Assembleia Geral, em NY, o presidente norte-americano afirma que o regime de Cuba “cairá” e cita a operação na Venezuela como demonstração do poder dos Estados Unidos.
  • Trump diz que vai “aniquilar” o regime do Irã caso não haja acordo e reafirma que o país não poderá ter uma arma nuclear.
  • O mandatário falou também sobre a ampliação da presença militar norte-americana na Groenlândia e defendeu substituir o termo “inteligência artificial” por “superinteligência”.
Donald Trump faz discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU.
Donald Trump faz discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU.
Source: Divulgação/ ONU / Loey Felipe

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu nesta terça-feira, 22, diante da 81ª Assembleia Geral da ONU que está disposto a utilizar o “poderio militar sem igual” do país para assegurar seus interesses na América Latina.

Tais interesses passam por uma mudança de regime em Cuba, onde o governo comunista “cairá”, afirmou, e também por uma batalha sem trégua contra os cartéis de drogas, que seriam o “Estado Islâmico” da região, acrescentou Trump.

“Os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças contra a América ganhem terreno em nenhum lugar do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, utilizaremos nosso poderio militar sem igual para assegurar os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos”, disse.

“Os cartéis são o EI [grupo jihadista Estado Islâmico] do hemisfério” e, assim como os combatentes do EI, “deveriam ser executados, exilados ou detidos”, ressaltou o republicano.

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O presidente chamou esses grupos de “organizações terroristas” em fevereiro do ano passado e, meses depois, iniciou uma campanha de ataques militares contra supostas embarcações usadas pelo narcotráfico, primeiro no Caribe e depois no Pacífico, com mais de 200 mortes até agora.

Trump defendeu esses ataques, apesar das críticas de organismos internacionais e de alguns governos da região. “Ninguém acreditava que fosse possível”, afirmou.

O poderio militar norte-americano não tem comparação, comentou o presidente. “Nossas ações na Venezuela são prova disso”, acrescentou.

Entre os presentes no grande salão da Assembleia Geral estava a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, com quem estava previsto um breve encontro com Trump na própria terça-feira.

Forças norte-americanas capturaram e retiraram do país, em janeiro, o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, em uma audaciosa operação noturna.

Trump, que criou uma aliança regional de segurança, o Escudo das Américas, com governos conservadores aliados na América Latina, afirmou em várias ocasiões que agora é “a vez de Cuba”.

“Cuba cairá”, advertiu o presidente na tribuna da ONU.

“O comunismo nunca chegará aos Estados Unidos, mas a liberdade chegará a Cuba”, disse.

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“O regime comunista está sob forte pressão, a maior que já enfrentou”, afirmou, em referência ao bloqueio de petróleo e às sanções contra o regime.

Pouco antes do discurso de Trump, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, havia criticado os “inimigos da democracia” que, em sua avaliação, tentam interferir na região.

“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a testemunhar a ingerência estrangeira nos processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência para incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos constitui um gesto anacrônico”, declarou Lula, que busca a reeleição nas eleições, cujo primeiro turno acontece em 4 de outubro.

Irã, Groenlândia e IA

Outros temas de política externa e segurança entraram no discurso de Trump – que durou 37 minutos, mais que o dobro dos 15 minutos recomendados pela ONU para cada representante. Um deles foi o conflito com o Irã, a ampliação da presença militar norte-americana na Groenlândia e a “superinteligência”, como prefere chamar a inteligência artificial.

Acordo com o Irã – Trump voltou a afirmar que não permitirá que o país tenha uma arma nuclear e fez uma ameaça direta ao regime iraniano. Depois de dizer que os Estados Unidos deram ao país oportunidades para negociar, apresentou duas alternativas: “Será feito um acordo com o Irã que permita que eles reconstruam e criem um país muito maior do que jamais foi antes, talvez um dos maiores do Oriente Médio ou até do mundo? Ou eu aniquilo a República Islâmica, e faço isso rapidamente, sem lhes dar a chance de matar e destruir pessoas e países novamente?” O presidente norte-americano disse, porém, acreditar que um acordo será alcançado após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. “A única coisa que importa é que o Irã nunca terá uma arma nuclear.”

Petróleo da Venezuela – O mandatário destacou que Estados Unidos e Venezuela assinaram no mês passado “o maior acordo de petróleo da história”, envolvendo 65 bilhões de barris, e afiançou que o negócio beneficiará “enormemente” os dois países. Ao falar do acordo, relacionou diretamente o negócio ao resultado da intervenção norte-americana em território venezuelano. “Quando se somam Estados Unidos e Venezuela, temos mais de 60% do petróleo do mundo. Então, talvez seja o maior acordo. Foi uma guerra, mas talvez seja o maior acordo já feito. Ao vencedor pertencem os despojos”, declarou.

Presença na Groenlândia – Trump falou da ampliação permanente da presença militar dos Estados Unidos na Groenlândia por meio de um acordo com a Dinamarca e o governo groenlandês. O pacto mantém a soberania dinamarquesa sobre o território, mas amplia os direitos militares norte-americanos e prevê duas novas instalações, além da base que já mantêm na ilha. “Teremos capacidade total para fazer o que for necessário para defender o continente norte-americano, e também a Europa e outros lugares”, assegurou. Ele afirmou ainda que nenhum adversário dos EUA poderá estabelecer presença militar ou realizar investimentos considerados sensíveis na Groenlândia sem autorização de Washington.

Superinteligência x IA – O presidente norte-americano afirmou que o governo passará a adotar o termo “superinteligência” em vez de “inteligência artificial” por acreditar que a palavra “artificial” faz a tecnologia parecer falsa. “Não é falsa. Na verdade, é incrível. Mas temos de ter cuidado”, afirmou. “A partir de agora, todos os documentos dos Estados Unidos e, espero, do mundo serão alterados para usar o termo muito mais preciso: ‘super’, em vez de ‘artificial’.” Ele salientou que os Estados Unidos não pretendem frear o desenvolvimento da tecnologia e disse que o país está à frente da China nessa área.

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