Cem anos do tratado contra a escravidão: tráfico para trabalho forçado cresce 47%

Principais pontos

  • ONU aponta 50 milhões de pessoas em situação de escravidão moderna em 2021, entre trabalho e casamento forçados.
  • Exploração pelo trabalho gera US$ 236 bilhões em lucros ilegais por ano, segundo estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
  • Brasil resgatou 2.772 trabalhadores de condições análogas à escravidão em 2025; operação realizada em agosto deste ano encontrou outras 479 vítimas.
Trabalhador de carvoaria em condições análogas à escravidão resgatado pelo Ministério Público do Trabalho.
Trabalhador de carvoaria em condições análogas à escravidão resgatado pelo Ministério Público do Trabalho.
Source: Ministério Público do Trabalho - A foto foi editada por IA apenas para melhorar a resolução

Cem anos depois de países assumirem um compromisso internacional para combater a escravidão, milhões de pessoas ainda são submetidas a diferentes formas de exploração no mundo. A escravidão deixou de ser legal, mas não desapareceu. Trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado, exploração sexual e outras práticas mantêm pessoas privadas de liberdade e de direitos.

Ao marcar, na sexta-feira, 25, o centenário da Convenção sobre a Escravatura, adotada em Genebra em 25 de setembro de 1926, especialistas em direitos humanos das Nações Unidas afirmaram que a promessa feita há um século continua sem ser cumprida. A Convenção foi um dos primeiros grandes instrumentos de cooperação internacional contra a escravidão e estabeleceu o compromisso dos países de buscar sua completa abolição.

Os números mais recentes sobre tráfico de pessoas mostram que uma das formas de exploração vem avançando. Entre 2019 e 2022, o número de vítimas de tráfico para trabalho forçado – em casos identificados oficialmente – aumentou 47% no mundo, segundo o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Em 2022, o trabalho forçado respondeu por 42% das vítimas de tráfico identificadas, superando a exploração sexual, que representou 36%. O levantamento considera informações de 129 países, que concentram 61% da população mundial. Dados preliminares referentes a 2023 indicavam que a tendência persistia.

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Os números dizem respeito às vítimas que chegaram ao conhecimento das autoridades e, portanto, não representam a quantidade total de pessoas submetidas a essas situações. O caráter clandestino e coercitivo dessas práticas dificulta medir a dimensão real do problema.

No mundo: 50 milhões em situação de escravidão moderna

A última estimativa global abrangente disponível ajuda a dimensionar esse universo. Levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e da organização especializada Walk Free calculou que 50 milhões de pessoas viviam em situação de escravidão moderna em 2021.

Desse total, 28 milhões estavam submetidas a trabalho forçado e 22 milhões a casamento forçado. Eram 10 milhões de pessoas a mais do que na estimativa realizada cinco anos antes — o equivalente a quase uma em cada 150 pessoas no mundo.

A expressão "escravidão moderna" reúne diferentes formas de exploração nas quais um indivíduo não consegue recusar ou abandonar uma situação por causa de ameaças, violência, coerção, engano ou abuso de poder. Além do trabalho e do casamento forçados – que é incluído no conceito pelo fato de a pessoa não ter a possibilidade de recusar ou deixar a união –, estão associadas a esse universo práticas como servidão por dívida e determinadas situações de tráfico de pessoas.

Somente no trabalho forçado, a estimativa apontava 27,6 milhões de vítimas em 2021. Cerca de 17,3 milhões eram exploradas por agentes privados em diferentes setores da economia, 6,3 milhões estavam submetidas à exploração sexual comercial forçada e 3,9 milhões ao trabalho forçado imposto pelo Estado.

As crianças representavam 3,3 milhões das vítimas. Trabalhadores migrantes, por sua vez, apresentavam risco três vezes maior de serem submetidos a trabalho forçado do que trabalhadores que não haviam migrado.

Exploração movimenta bilhões de dólares

A permanência do trabalho forçado também tem uma dimensão econômica. A OIT estima que a exploração na economia privada gere US$ 236 bilhões em lucros ilegais por ano.

O valor é US$ 64 bilhões, ou 37%, maior que a estimativa de uma década antes. Em média, são quase US$ 10 mil em lucro ilegal por vítima a cada ano. Segundo a OIT, esse dinheiro representa, em grande parte, recursos retirados dos trabalhadores e de suas famílias e apropriados por quem os explora.

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A exploração sexual comercial forçada, embora corresponda a uma parcela menor das vítimas de trabalho forçado na economia privada, concentra 73% dos lucros ilegais estimados.

Ao lembrar os cem anos da Convenção, os especialistas da ONU destacaram que as formas contemporâneas de escravidão atingem de maneira desproporcional pessoas expostas à pobreza, discriminação, conflitos armados, deslocamentos e migrações, além dos efeitos das mudanças climáticas e da marginalização.

A organização também chama atenção para a permanência de formas tradicionais de escravidão em algumas regiões e para os efeitos históricos da escravização de africanos e do colonialismo sobre populações afrodescendentes e povos indígenas. A impunidade é apontada como um dos fatores que permitem a continuidade das violações.

Brasil resgatou 2.772 trabalhadores em 2025

No Brasil, a escravidão contemporânea aparece nas estatísticas principalmente por meio dos resgates de pessoas submetidas a condições análogas à escravidão.

Em 2025, 2.772 trabalhadores foram resgatados nessas condições no país, em 1.594 ações de fiscalização. Mais de R$ 9 milhões em verbas trabalhistas e rescisórias foram assegurados às vítimas.

Pela primeira vez, a maioria dos trabalhadores resgatados estava em atividades urbanas: 68% do total. A construção civil teve peso importante nesse resultado, com 601 pessoas encontradas em obras de alvenaria e 186 na construção de edifícios.

Entre os resgatados em 2025, 86% eram homens, 83% se declararam pretos ou pardos e 65% moravam na região Nordeste.

A legislação brasileira não estabelece que uma pessoa esteja acorrentada ou fisicamente impedida de deixar o local para que seja caracterizada uma situação de trabalho em condição análoga à de escravo. A definição abrange trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrição da liberdade do trabalhador, inclusive em razão de dívida.

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Desde 1995, quando o Brasil reconheceu oficialmente perante as Nações Unidas a persistência de formas contemporâneas de escravidão em seu território e estruturou as ações de fiscalização para combatê-las, 70.271 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão. O número foi informado pela Inspeção do Trabalho à Repórter Brasil e divulgado no início do mês. O total é atualizado à medida que novas operações são realizadas.

Os casos encontrados ao longo dessas três décadas mostram que o problema não está restrito a um único setor nem apenas ao meio rural. Há registros em atividades como pecuária, cultivo de soja, algodão, café, frutas, batata e cebola, produção de carvão, mineração, construção civil, oficinas de costura e trabalho doméstico. Historicamente, a pecuária bovina é a atividade econômica com maior número de flagrantes desde 1995.

Operação encontrou 479 vítimas em agosto

Os dados de 2026 mostram que essas situações continuam sendo encontradas tanto no campo quanto nas cidades. Somente na Operação Resgate VI, realizada em agosto passado, 479 trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão em 231 ações de fiscalização pelo país.

Entre eles estavam 75 mulheres, 13 crianças e adolescentes e 66 migrantes. As vítimas estrangeiras eram provenientes de Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau.

Dos 479 trabalhadores resgatados, 292 estavam no meio rural, 178 em atividades urbanas e nove no trabalho doméstico. A construção apareceu com o maior número de vítimas, 85, seguida pelo cultivo de café, com 53, de cebola, com 47, e de batata, com 44. Minas Gerais concentrou 208 resgates e São Paulo, 58.

Um dos casos encontrados na operação ocorreu na capital paulista. Uma trabalhadora doméstica de 51 anos foi resgatada de uma casa na Zona Leste depois de passar aproximadamente quatro décadas trabalhando para a mesma família. Segundo a fiscalização, ela começou a realizar serviços domésticos por volta dos 11. Nunca teve registro formal de emprego e não recebia salário regularmente.

Um século depois da adoção da Convenção sobre a Escravatura, a transformação dessas formas de exploração ajuda a explicar por que a ONU considera que a promessa feita em 1926 permanece incompleta.

Para os especialistas das Nações Unidas, o centenário deve servir não apenas para lembrar a abolição legal da escravidão, mas para cobrar medidas contra suas formas contemporâneas. Entre elas estão maior responsabilização dos exploradores, proteção e acesso à Justiça para vítimas e sobreviventes e políticas que enfrentem as condições que tornam determinados grupos mais vulneráveis. "Todo ser humano nasce livre e igual em dignidade e direitos", afirmaram os especialistas ao lembrar o princípio consolidado pelo sistema internacional de direitos humanos.

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Casos de trabalho análogo à escravidão podem ser denunciados de forma anônima pelo Sistema Ipê, plataforma do Ministério do Trabalho e Emprego desenvolvida em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). As denúncias são encaminhadas aos órgãos responsáveis pela apuração. Também é possível buscar orientação e denunciar pelo Disque 100, canal do governo federal destinado a violações de direitos humanos.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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