Na ONU, Lula se equilibra entre defesa do multilateralismo e discurso de candidato

Principais pontos

  • Petista discursou na abertura da Assembleia Geral, em Nova York, antecedendo fala do presidente dos EUA, Donald Trump.
  • Lula estabeleceu divergências em relação ao americano ao defender entidades multilaterais e pregar resoluções diplomáticas que não gerem conflitos militares.
  • Às vésperas de disputar a reeleição, presidente ainda falou contra bets, defendeu o fim da escala 6x1 e afirmou que pleito será entre 'democracia e negacionismo', em recado a Flávio Bolsonaro.
O presidente Lula (PT) discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2026
O presidente Lula (PT) discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2026
Source: AFP

Ao fazer o discurso de abertura dos debates da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça-feira, 22, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alternou a defesa do multilateralismo, que o opõe ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e outras lideranças da direita global, com pautas da campanha eleitoral brasileira, em que vê sua reeleição ameaçada pelo avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas. 

Ainda no início do discurso, o petista afirmou que este é o "momento mais crítico" nas Nações Unidas. "A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis –- os que não têm exército, nem arsenais –- nunca foi tão pequena", afirmou.

A tônica de defesa hegemônica e unilateral de cada nação, que tem Trump à frente, ganhou força na medida em que conflitos militares entre Irã, EUA e Israel e Ucrânia e Rússia prosseguem sem sinais de recrudescimento. Lula ponderou que, no ano de 2025, o mundo registrou o "maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra". Ao discursar em seguida, vale registrar, Trump sugeriu a possibilidade de "aniquilar" o Irã.

Em contraposição às principais lideranças da direita global, refratárias a acordos e entidades multilaterais, o brasileiro afirmou que a OMC (Organização Mundial do Comércio) "respira por aparelhos", refutou a necessidade de porta-aviões vigiando os oceanos e relatou ter entregado pessoalmente ao mandatário americano uma proposta que defende a cooperação como melhor forma de combater o crime -- a Casa Branca atribuiu ao enfrentamento do narcotráfico a invasão à Venezuela que culminou na captura de Nicolás Maduro.

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A duas semanas de disputar a reeleição nas urnas, o petista reservou boa fatia do discurso às bandeiras entoadas na campanha em que tem Flávio Bolsonaro como principal oponente. O palanque nova-iorquino é essencial em um contexto de acirramento da disputa: na última edição do Datafolha, presidente e senador empataram tecnicamente nos cenários de primeiro e segundo turnos.

Pressionado pela direita neste campo, Lula afirmou que, durante muitos anos, o "crime se aproveitou da falta de coordenação" das autoridades no país, mas isso mudou. "Em 2005, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil. Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime", disse.

A exemplo do que levou à propaganda eleitoral nesta semana, o mandatário afirmou que o Brasil "não vai tolerar" o modelo de negócio dos sites de aposta -- as chamadas bets --, ao qual atribuiu responsabilidade pelo endividamento e destruição de lares. Em outra bandeira de campanha, defendeu o fim da escala 6x1 para dar ao trabalhador "tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família".

Por fim, em recado mais claro ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar por tentar um golpe de Estado, afirmou que "mudar não é retroceder" e que, em 4 de outubro, os brasileiros irão "entre democracia e negacionismo" e "se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão".

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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