Reação do Paraguai a fala de Lula sobre guerra amplia divisões na América do Sul
Principais pontos
- Em referência à Guerra da Tríplice Aliança, petista afirmou que 'Paraguai resolveu invadir o Brasil'.
- Declaração reacendeu debate sobre o conflito e foi repudiada por autoridades de diferentes espectros políticos no país vizinho.
- Críticas a Lula se somam às recentes tensões com a Argentina, ampliando os desafios diplomáticos do governo brasileiro em um cenário político cada vez mais adverso na América do Sul.

Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai provocou forte reação de autoridades do país vizinho e desencadeou um potencial novo atrito diplomático do governo brasileiro na região.
O petista afirmou, em 24 de julho:
"A gente gosta de paz, mas não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos"
A reação paraguaia
Desde então, políticos paraguaios de diferentes espectros políticos acusaram o mandatário brasileiro de apresentar uma versão simplificada da Guerra da Tríplice Aliança, desrespeitar as relações com o vizinho e reduzir a importância de um episódio que, para aquela nação, é considerada uma das maiores tragédias da história.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, afirmou que Lula tratou "com demasiada leveza" o episódio. Segundo LaTorres, o conflito resultou em perdas "devastadoras" e é um tema de grande sensibilidade no país.
Parlamentares da oposição local também se opuseram às declarações. O deputado Rubén Rubín afirmou que o petista tenta "distorcer a história", enquanto o senador e historiador Eduardo Nakayama lembrou que a campanha militar brasileira no Uruguai antecedeu a invasão paraguaia ao então Mato Grosso. A senadora Esperanza Martínez classificou a fala como reflexo de uma visão histórica marcada pelo "imperialismo".
O peso histórico da guerra
A Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai.
Embora haja consenso entre historiadores de que as forças paraguaias começaram as ações militares ao apreender um navio brasileiro e invadir a então província de Mato Grosso, as interpretações sobre as causas que motivaram o conflito variam conforme as fontes consultadas.
Parte da historiografia enfatiza a política expansionista do governo de Francisco Solano López; outros pesquisadores destaca o contexto geopolítico da região do Prata, incluindo disputas de influência entre os países vizinhos e a intervenção brasileira na guerra civil uruguaia. No geral, o entendimento é de que não houve uma única causa.
Lula cercado por atritos
A repercussão demonstra que, mais de 150 anos após o fim da guerra, o episódio ainda influencia as relações políticas e a memória histórica entre Brasil e Paraguai.
Embora os governos mantenham cooperação em áreas estratégicas, como energia, comércio e integração regional -- destaca-se a gestão dividida da Itaipu Binacional --, referências ao conflito costumam gerar reações imediatas em Assunção devido ao peso simbólico que a guerra ainda possui, em especial, para a sociedade paraguaia.
Até o momento, o governo brasileiro não emitiu esclarecimentos ou respostas às críticas dos políticos vizinhos. A depender da extensão da rusga, Lula pode se ver em meio a um novo atrito diplomático na América do Sul.
No último final de semana, o presidente da Argentina, Javier Milei, esteve em São Paulo para a convenção partidária que oficializou Flávio Bolsonaro (PL) como candidato à Presidência da República e, no evento, chamou o petista de "ladrão" e "presidiário" e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de "lixo careca".
Lula chamou as falas do homólogo de "patacoadas" e a Suprema Corte brasileira classificou a postura do argentino como "desrespeitosa". Milei, por sua vez, investiu no endurecimento de políticas anti-imigração com a justificativa de que Brasil, México e o Partido Democrata dos Estados Unidos patrocinam uma campanha contrária a seu país.
As condutas dos governos paraguaio e argentino reforçam o isolamento político que Lula passa a defrontar no continente, onde sete dos dez governantes se posicionam à direita e demonstram alinhamento ao presidente dos EUA, Donald Trump. Em sinal de qual será sua postura, o brasileiro não participou da posse de Keiko Fujimori no Peru e também não comparecerá à de Alberto de La Espriella na Colômbia.

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