Como a vitória de Espriella ressoa na América Latina

Principais pontos

  • O advogado Abelardo de la Espriella venceu uma eleição acirrada contra Iván Cepeda, interrompendo o ciclo da esquerda de Gustavo Petro e consolidando o comando da direita em sete dos dez países sul-americanos
  • Impulsionado pelo desgaste do governo atual com a segurança e a economia, Espriella — apelidado de "El Tigre" — projetou-se com um discurso midiático e populista focado no combate rígido ao narcotráfico, assemelhando-se a líderes como Javier Milei
  • A mudança geopolítica cria um corredor estratégico alinhado a Donald Trump, fortalecendo a influência norte-americana na região e deixando o governo de esquerda de Lula diplomaticamente isolado no continente
 Abelardo de la Espriella
Abelardo de la Espriella
Source: Reprodução/ redes sociais

A vitória de Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais da Colômbia no último domingo, 21, levou a direita ao comando de sete das 10 nações da América do Sul. Filiado ao Movimento de Salvação Nacional, o advogado de 47 anos tomará posse no cargo em 7 de agosto.

A exemplo do que ocorreu em países vizinhos, Espriella venceu uma eleição acirrada — foram menos de 250 mil votos de vantagem sobre Iván Cepeda, seu adversário no segundo turno — e interrompeu o ciclo da esquerda no poder, com o presidente Gustavo Petro.

Neste texto, o Global South World Brasil explica a mudança de rumos na política colombiana e analisa como ela ressoa na bússola ideológica do continente.

novo-mapa-politico-da-america-do-sul

Abre alas para a ‘nova direita’

Natural de Bogotá, pai de quatro filhos e fortemente ligado às raízes folclóricas colombianas, Espriella construiu carreira como advogado de causas complexas e midiáticas antes de ingressar na política. Na carreira jurídica, ganhou reconhecimento popular e enriqueceu.

A mudança de rumos foi gestada pelo atentado contra o jornalista e então pré-candidato Miguel Uribe Turbay, alvo de dois tiros na cabeça em Bogotá em junho de 2025 — ele faleceu após mais de dois meses de internação.

O atentado reforçou a percepção popular de aumento da violência e desgastou Petro. Na contramão do clamor pelo endurecimento do combate ao narcotráfico, o mandatário de esquerda apostou em um plano de “paz total”, desmobilizando iniciativas de enfrentamento às facções e promovendo tentativas de negociação. Os números revelam o fracasso: aumento de 3,7% nos homicídios dolosos em 2025 na comparação com 2022, primeiro ano do governo.

Mesmo com índices econômicos positivos — crescimento de 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2025, patamar similar ao brasileiro —, a insegurança somou-se à percepção de piora no poder de compra — parcialmente explicada pela elevada taxa de juros, de 11,25% ao ano atualmente — para criar um cenário propício à alternância de poder.

Diante do esgotamento de personagens tradicionais da direita local, majoritariamente ligados a Álvaro Uribe, presidente de 2002 a 2010, o caldo tornaria na ascensão de uma liderança antissistema. Conhecido nas redes sociais como ‘El Tigre’ — apelido que nasceu de uma frase de Uribe, que disse em 2024 que a Colômbia precisava de um “tigre” no poder —, Espriella se projetou após o atentado contra Turbay prometendo endurecer o combate ao narcotráfico e romper com o domínio tradicional das instituições locais.

Do pano de fundo à cartilha, o roteiro é similar aos que levaram, nos últimos anos, Javier Milei, de 55 anos, e José Antonio Kast, de 60, a imporem derrotas à esquerda, respectivamente, na Argentina e no Chile. A eleição colombiana consolida a nova fase da direita latina.

É como avalia Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Trata-se de uma vertente de líderes radicais, de matriz midiática e populista. Uma direita que não se confunde com o conservadorismo tradicional de Uribe”, disse ao GSW Brasil.

“Milei introduziu a estética do ‘rockstar’ libertário, Bukele o modelo do millenial tecnocrático autoritário. Espriella representa um advogado ostentador e influenciador digital, ‘El Tigre’. A principal interseção desses três fenômenos é a espetacularização como resposta aos anseios da população”, concluiu.

Brasil isolado e Trump mais influente

Na fronteira ao Sul dos colombianos, o Brasil, maior país do continente em tanto demográfica quanto economicamente, segue governado por Luiz Inácio Lula da Silva, 79 anos, principal liderança de esquerda do continente.

O mandatário chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez em 2003, mesmo período em que uma série de vitórias eleitorais tornava a esquerda majoritária no continente — a chamada “onda rosa”, que também levou ao poder personagens como Cristina Kirchner, na Argentina, e Evo Morales, na Bolívia. O quadro é oposto ao atual, em que somente os brasileiros, uruguaios — com Yamandú Orsi — e venezuelanos — com Delcy Rodríguez — são governados por este espectro político.

A minoria progressista é vista com bons olhos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que do alto de seus 77 anos é reverenciado pelos líderes da renovação da direita latina. Defensor declarado do expansionismo americano, o chefe da Casa Branca chamou de “grande vitória” a eleição de Espriella e compartilhou, nas redes sociais, um artigo que aponta oito vitórias suas na América Latina.

Para Tomaz Paoliello,  vice-coordenador do mestrado em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), a troca de poder na Colômbia marca um ponto na “reaproximação da região com os EUA” e tem potencial para reforçar as perspectivas de influência americana na política do continente — incluindo o Brasil.

“O efeito geopolítico mais imediato é a criação de um corredor estratégico de alinhamento a Washington na América do Sul, isolando a diplomacia do governo Lula — baseada no multilateralismo — na região”, acrescentou Regiane Bressan.

Mesmo após sinais de entendimento de ambos os lados, Lula e Trump tornaram claras suas diferenças nos últimos meses. O petista afinou o discurso da soberania e, em reação à postura insubmissa do homólogo, o republicano impôs novas tarifas sobre produtos comercializados pelo Brasil — sua munição econômica na cruzada contra governantes que não se alinham automaticamente às pretensões da Casa Branca. Em janeiro de 2026, sinais mais claros foram enviados ao continente com o rapto e deposição de Nicolás Maduro, ex-chefe do regime autoritário da Venezuela.

Paoliello ponderou, contudo, que a leitura do movimento deve superar as fronteiras continentais. “É importante compreender as ‘ondas’ políticas com cuidado. Vivemos um momento de adesão crescente a ideias e lideranças de direita que não se restringe à América Latina, bem como de crise das democracias liberais”, disse ao GSW Brasil.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.