Que desafios um Ministério do Idoso teria de enfrentar no Brasil?

Principais pontos

  • Reeleito, Lula estuda criar para o próximo mandato uma pasta dedicada à população idosa, que já reúne 35,2 milhões de brasileiros e representa quase 17% dos habitantes do país.
  • Saúde, renda, solidão, moradia e cuidados de longa duração estão entre as questões que envolvem os mais velhos.
  • Pesquisas revelam dificuldades dos brasileiros 60+ para preservar a autonomia, trabalhar com proteção social e receber assistência quando surgem limitações físicas e cognitivas.
Pesquisa aponta que, entre as pessoas idosas com dificuldades para realizar atividades básicas, apenas 37,9% recebiam ajuda.
Pesquisa aponta que, entre as pessoas idosas com dificuldades para realizar atividades básicas, apenas 37,9% recebiam ajuda.
Source: Unsplash/ Danie Franco

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estuda criar um Ministério do Idoso em seu quarto mandato, que começa em janeiro de 2027. O plano, ainda em discussão preliminar, surge diante de uma transformação demográfica que exige respostas cada vez mais complexas do poder público. O Brasil já tem 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, equivalente a 16,6% da população, segundo dados de 2025. São 13 milhões a mais do que em 2012.

A proposta ganhou força depois da mobilização de eleitores idosos no segundo turno, no domingo, 25. Dois dias depois, durante a comemoração de seus 81 anos, Lula recordou de vídeos de pessoas com dificuldades de locomoção que chegaram às urnas carregadas por filhos e netos, em cadeiras de rodas e até em macas. “Sinceramente, acho que foi a imagem mais forte e humana que já vi em uma eleição”, afirmou. O voto é facultativo para brasileiros acima de 70 anos, grupo que foi alvo de mobilização durante a campanha.

A criação de uma nova pasta – ou de uma secretaria – exigiria definir estrutura, orçamento e competências, além de coordenar políticas hoje distribuídas entre diferentes órgãos federais, estados e municípios. A tarefa vai muito além dos debates sobre Previdência e atendimento médico. Doenças crônicas, perda de autonomia, aposentadorias insuficientes, solidão, moradias inadequadas e necessidade de cuidados permanentes são alguns dos desafios de uma sociedade que envelhece rapidamente.

Um país que envelhece em ritmo acelerado

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em abril deste ano, mostra que a participação das pessoas com 60 anos ou mais passou de 11,3% da população em 2012 para 16,6% em 2025. No mesmo período, diminuiu a proporção de brasileiros com menos de 40 anos.

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O Brasil ocupa a sexta posição mundial em número absoluto de pessoas com 65 anos ou mais, segundo estimativas da ONU. Com aproximadamente 24,4 milhões de habitantes nessa faixa etária (mais velha do que a adotada pelo IBGE), o país fica atrás de China, Índia, Estados Unidos, Japão e Rússia.

É importante ressaltar que o envelhecimento não ocorre de maneira uniforme. Sudeste e Sul concentram as maiores proporções de pessoas idosas, com 18,1% da população de cada região. Norte e Nordeste, por sua vez, apresentam estruturas etárias relativamente mais jovens.

As mulheres têm maior presença nas faixas etárias avançadas. Essa diferença também influencia as condições de vida, a renda e a composição dos domicílios, especialmente entre pessoas viúvas e aquelas que moram sozinhas.

O desafio é atender uma população muito heterogênea. Parte dos brasileiros com 60 anos ou mais trabalha, pratica atividades físicas e mantém plena independência. Outra parcela convive com doenças incapacitantes, dificuldades financeiras e dependência de familiares para atividades básicas. Entre os mais velhos, especialmente acima de 80 anos, crescem as necessidades de assistência contínua.

Saúde e autonomia: o desafio de viver mais e melhor

O Brasil dispõe de uma vantagem estrutural importante em comparação a outros países: o Sistema Único de Saúde (SUS). O desafio está em assegurar que esse direito se traduza em atendimento oportuno, acompanhamento de doenças crônicas, acesso a especialistas, exames, medicamentos e serviços de reabilitação.

Os resultados da terceira etapa do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), apresentados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em maio deste ano, mostram a dimensão das limitações funcionais. Segundo a pesquisa, 20,4% das pessoas idosas têm dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica do cotidiano, como tomar banho, vestir-se, alimentar-se, usar o banheiro ou levantar da cama.

Essas limitações podem resultar de doenças crônicas, problemas de mobilidade, fragilidade física ou comprometimento cognitivo. A necessidade de acompanhamento cresce quando diferentes condições de saúde se acumulam, exigindo atendimento coordenado entre profissionais e serviços.

Para quem utiliza a saúde suplementar, há ainda o peso financeiro dos planos privados. Em 2026, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autorizou reajuste anual máximo de 5,11% nos planos individuais e familiares regulamentados, para contratos com aniversário entre maio de 2026 e abril de 2027. Os contratos coletivos seguem regras diferentes e não estão sujeitos ao mesmo teto. Nos contratos regulamentados pelas regras atuais de faixa etária, a última mudança ocorre aos 59 anos, mas os reajustes anuais continuam.

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O custo da cobertura privada pode comprometer uma parcela significativa da aposentadoria, justamente numa fase da vida em que aumentam as necessidades de acompanhamento médico. A questão envolve tanto a capacidade de manter o plano quanto a disponibilidade de atendimento adequado pelo SUS.

Trabalho e renda: envelhecer não significa parar de trabalhar

O número de brasileiros com 60 anos ou mais que continuam trabalhando cresceu 53% entre 2016 e 2025, passando de 5,7 milhões para quase 8,8 milhões. No fim de 2025, aproximadamente uma em cada quatro pessoas dessa faixa etária estava ocupada, segundo levantamento da Nexus divulgado em junho de 2026.

O crescimento da ocupação foi mais rápido que o da própria população idosa, que aumentou 37% no período. Entretanto, mais da metade dos trabalhadores com 60 anos ou mais estava na informalidade, sem as mesmas garantias oferecidas pelo emprego formal.

Os dados do IBGE também apresentam diferenças importantes entre homens e mulheres. Em 2024, a taxa de ocupação das pessoas idosas era de 34,2% entre os homens e 16,7% entre as mulheres. Entre os ocupados, 43,3% trabalhavam por conta própria.

A permanência no mercado pode representar uma escolha, associada à disposição para continuar profissionalmente ativo. Mas também pode refletir a necessidade de complementar aposentadorias e pensões diante das despesas com alimentação, moradia, medicamentos e assistência à saúde.

A discriminação por idade acrescenta dificuldades à procura de emprego e à recolocação profissional. O desafio das políticas públicas é conciliar oportunidades de trabalho, qualificação e proteção social, sem transformar a necessidade de renda em obrigação de trabalhar indefinidamente.

Isolamento: uma população que também vive cada vez mais sozinha

A mudança na composição das famílias é outro desafio. Em 2025, 19,7% dos domicílios brasileiros tinham apenas um morador, ante 12,2% em 2012, segundo o IBGE. Entre todas as pessoas que viviam sozinhas, 41,2% tinham 60 anos ou mais.

A diferença entre homens e mulheres é expressiva. Entre as mulheres que moravam sozinhas, 56,5% tinham pelo menos 60 anos. Entre os homens nessa condição, a participação das pessoas idosas era de 28,6%.

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Morar sozinho não significa necessariamente viver em solidão. Muitas pessoas preservam sua independência, mantêm relações sociais e contam com familiares e amigos. O risco aumenta quando a vida solitária se combina com limitações físicas, dificuldades financeiras, viuvez, afastamento familiar ou ausência de redes de apoio.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Epidemiologia, com dados do ELSI-Brasil, identificou associação entre vínculos familiares e menores níveis de solidão. A presença de cônjuge e as relações com filhos foram fatores relevantes, embora a pesquisa tenha utilizado informações coletadas entre 2019 e 2021. Os pesquisadores recomendaram maior atenção dos serviços públicos às pessoas com redes familiares reduzidas.

A criação de espaços de convivência, atividades culturais, práticas físicas e redes comunitárias pode contribuir para prevenir o isolamento e preservar a saúde mental.

Cuidados de longa duração: famílias sobrecarregadas e falta de assistência

A perda de autonomia pode transformar a rotina de toda uma família. Pessoas com dificuldades para caminhar, tomar banho, alimentar-se ou administrar medicamentos frequentemente dependem de parentes ou cuidadores profissionais. A situação se torna ainda mais complexa quando surgem perda auditiva, limitações graves de movimento e alterações cognitivas ou comportamentais associadas a demências, como a doença de Alzheimer.

A pesquisa ELSI-Brasil, de maio deste ano, identificou uma lacuna importante: entre as pessoas idosas com dificuldades para realizar atividades básicas, apenas 37,9% recebiam ajuda. Entre os cuidadores, somente 5,8% haviam recebido algum treinamento para exercer a função.

O cuidado exige conhecimentos que muitas famílias não possuem. É preciso lidar com dificuldades de comunicação, riscos de quedas, alterações de memória, episódios de agitação, desorientação e resistência a atividades cotidianas. Sem orientação profissional, essas situações podem comprometer a segurança da pessoa idosa e a saúde física e emocional de quem cuida.

A responsabilidade recai frequentemente sobre mulheres, que precisam conciliar trabalho, filhos e assistência a pais, mães ou outros familiares. Quando o cuidado domiciliar se torna inviável, surgem novas dificuldades: encontrar instituições de longa permanência com atendimento adequado, pagar mensalidades ou conseguir vagas em serviços públicos e filantrópicos.

O Brasil já possui uma Política Nacional de Cuidados, instituída em dezembro de 2024 e regulamentada em 2025. O Plano Brasil que Cuida prevê 79 ações e R$ 24,9 bilhões em recursos até 2027. Entre as medidas estão a capacitação de cuidadores, a ampliação dos serviços de assistência e iniciativas para ajudar familiares a conciliar o trabalho remunerado com os cuidados de pessoas dependentes. A proposta é reduzir a sobrecarga das famílias, especialmente das mulheres, que assumem a maior parte dessas responsabilidades. A implementação das ações é gradual e envolve diferentes esferas de governo.

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A criação de um Ministério do Idoso teria, portanto, de considerar políticas já existentes e enfrentar o desafio de ampliar o atendimento domiciliar, a formação de cuidadores, os centros de convivência e os serviços especializados para pessoas dependentes.

Desigualdade social: diferentes maneiras de envelhecer

As desigualdades acumuladas ao longo da vida continuam presentes depois dos 60 anos. Renda, raça, escolaridade, gênero e local de moradia influenciam o acesso à assistência médica, à alimentação adequada, a atividades de lazer e às condições necessárias para preservar a autonomia.

Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, mostram que as desigualdades também se manifestam entre as pessoas idosas que continuam trabalhando. O rendimento médio das mulheres ocupadas nessa faixa etária era 33,2% inferior ao dos homens, enquanto o das pessoas pretas ou pardas ficava 48,7% abaixo do registrado entre as brancas.

Essas diferenças têm consequências diretas sobre a possibilidade de contratar cuidadores, manter planos de saúde, adaptar a residência ou pagar por serviços não disponíveis na rede pública.

A desigualdade também tem dimensão territorial. Pessoas que vivem em regiões com menor oferta de especialistas, serviços de reabilitação, transporte acessível e assistência social enfrentam obstáculos adicionais, mesmo quando possuem alguma renda.

Para uma política nacional, o desafio não é apenas ampliar a oferta de serviços, mas garantir que eles cheguem às populações mais vulneráveis e não se concentrem nos municípios com maior capacidade financeira e administrativa.

Moradia: casas e cidades precisam se adaptar

Envelhecer com autonomia também depende das condições da residência e do entorno. Escadas, banheiros sem barras de apoio, pisos escorregadios, ausência de elevadores e calçadas irregulares podem transformar atividades simples em situações de risco.

A pesquisa ELSI-Brasil trouxe um dado expressivo: 42,7% das pessoas idosas que vivem em áreas urbanas têm medo de cair por causa de defeitos em calçadas, passeios e vias públicas próximas de suas casas. Entre as mulheres, o percentual chega a 50,5%. Para pessoas com 80 anos ou mais, alcança 63,1%.

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O medo de cair pode reduzir as saídas de casa, limitar atividades físicas, dificultar consultas médicas e contribuir para o isolamento social.

Dentro das residências, adaptações simples podem aumentar a segurança, mas nem sempre são financeiramente acessíveis. A questão é particularmente delicada para quem vive sozinho, paga aluguel ou depende de aposentadoria de baixo valor.

A expansão da população idosa também aumenta a necessidade de alternativas habitacionais. Moradias assistidas, residenciais com serviços compartilhados e programas de adaptação de imóveis podem permitir que pessoas com limitações moderadas mantenham sua independência por mais tempo.

A política habitacional, portanto, passa a integrar a discussão sobre envelhecimento. Não basta oferecer um teto: é necessário garantir condições para que as pessoas continuem vivendo com segurança e acesso aos serviços de que precisam.

O que outros países estão fazendo

O Japão, um dos países mais envelhecidos do mundo, desenvolveu um sistema nacional de cuidados de longa duração que combina assistência domiciliar, serviços comunitários, reabilitação e atendimento especializado. A proposta é permitir que as pessoas permaneçam em suas comunidades mesmo quando precisam de apoio frequente. A Dinamarca, por sua vez, colocou em vigor em julho de 2025 uma reforma da assistência às pessoas idosas, priorizando atendimento domiciliar integrado, reabilitação e maior continuidade dos profissionais responsáveis pelos cuidados.

Nos Países Baixos, a ampliação dos cuidados em casa tem produzido mudanças importantes. Pesquisa divulgada em setembro de 2026 pelo instituto público RIVM mostrou que o número de pessoas idosas que recebiam cuidados de longa duração em suas residências passou de 34 mil, em 2018, para 78 mil em 2024. Essas experiências não eliminam os problemas de financiamento, escassez de profissionais e sobrecarga familiar, mas oferecem referências para integrar saúde, assistência e moradia, respeitadas as diferenças entre os sistemas de proteção social.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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