Por que a vitória de Lula assustou o mercado e qual o tamanho do desafio fiscal

Principais pontos

  • Vitória de Lula gerou forte reação negativa nos mercados, com tombo na Bolsa e alta do dólar ante o temor fiscal.
  • O endividamento de 82,9% do PIB e os juros elevados desafiam o governo por um esforço bilionário de corte de gastos.
  • O governador reeleito Rafael Fonteles (PT) é o favorito para a Fazenda.
Presidente Lula durante a comemoração de seu aniversário, dois dias após ser reeleito presidente da República.
Presidente Lula durante a comemoração de seu aniversário, dois dias após ser reeleito presidente da República.
Source: MATEUS BONOMI / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP

A virada de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno sobre Flávio Bolsonaro (PL) provocou uma forte ressaca no mercado financeiro já no primeiro pregão útil. Na segunda-feira, 26, a Bolsa brasileira sofreu um tombo de 13,88% e precisou acionar o circuit breaker (mecanismo de suspensão das negociações não visto desde o auge da pandemia, em 2020), enquanto o dólar saltou para R$ 5,40. 

A turbulência continuou nos dias seguintes, refletindo o desfazimento de posições de investidores que haviam se alinhado à candidatura de Flávio Bolsonaro.

A reação do mercado mostra uma desconfiança em relação à condução econômica de Lula. Historicamente, investidores enxergam na agenda do PT uma predisposição ao aumento do gasto público e ao uso de estatais e bancos públicos para induzir a economia -- fórmula que gera receio de descontrole fiscal e inflação. 

Para o economista e sociólogo César Bergo, professor de mercado financeiro da UnB (Universidade de Brasíli), o mau humor dos investidores decorre, em parte, do trabalho de convencimento feito pela campanha de Flávio Bolsonaro, que havia prometido a setores do mercado um “tesouraço” nos gastos da União.

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“No global, soa como música para o mercado você falar em privatização, redução de ministérios, redução dos gastos públicos. A proposta do Flávio estava muito calcada nisso. E o mercado tem uma preocupação muito forte com a questão da política econômica voltada aos gastos públicos. Esse governo do Lula mostrou que não era o que o mercado gostaria”, afirmou, em entrevista ao Nexo.

Quando o resultado das urnas frustrou quem apostava em um choque liberal, a debandada de ativos derrubou a Bolsa e elevou o câmbio, renovando o temor de que a inflação volte a subir e force o Banco Central a prolongar o ciclo de juros altos.

Dilema fiscal

A principal preocupação dos investidores é a trajetória das contas públicas. Dados do Banco Central mostram que a dívida bruta atingiu 82,9% do PIB em agosto (R$ 11,1 trilhões), salto que reduz a margem de manobra do Tesouro. A conta fica ainda mais pesada quando se analisa o custo do passivo: nos 12 meses encerrados em agosto, os gastos com juros nominais somaram R$ 1,18 trilhão (8,86% do PIB). Somado ao déficit primário de R$ 82,1 bilhões (0,62%), o déficit nominal do setor público acumulou R$ 1,26 trilhão (9,48% do PIB).

Com os dados fiscais pressionando as expectativas do setor privado, estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI) indicam que estabilizar a relação entre a dívida e o PIB -- em um cenário que ainda considere um déficit de 1% em 2027 -- exigirá a construção de um superávit primário próximo de 2%, o que representa um esforço fiscal equivalente a R$ 450 bilhões e expõe o impasse entre agentes financeiros que exigem mecanismos para travar despesas obrigatórias e o governo eleito, focado em preservar a margem do Orçamento destinada a programas sociais e investimentos públicos.

À Folha de S. Paulo, Adriana Dupita, economista-chefe adjunta para mercados emergentes da Bloomberg Economics, disse apostar em um período conturbado pela frente e apontou que o grande nó será "conduzir o orçamento público a um superávit grande o suficiente para estabilizar a dívida pública do país, que é alta e crescente", em meio às promessas feitas durante a campanha, a uma base de eleitores dividida e a um Congresso potencialmente hostil.

A apreensão dos investidores ganha força na comparação entre as diferentes fases das gestões petistas. Enquanto o início do primeiro governo Lula ficou marcado pela entrega de superávits primários e pelo cumprimento rigoroso de metas, os anos seguintes abriram espaço para a expansão contínua de despesas que culminou no desajuste das contas na gestão Dilma Rousseff. A Faria Lima cobra clareza sobre qual dessas diretrizes vai guiar o quarto mandato.

Os postulantes à Fazenda

A escolha dos nomes para o comando da economia passa a ser o principal termômetro observado pelos investidores nos primeiros dias de transição, com as atenções voltadas para o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que desponta como o nome mais cotado para a Fazenda.

Formado em Matemática, com mestrado concluído aos 21 anos e histórico de medalhista em olimpíadas internacionais, Fonteles é visto por parte do mercado e por aliados políticos como um perfil diferenciado que combinaria ortodoxia e trânsito político. À frente da Secretaria da Fazenda do Piauí e por dois mandatos no comando do Comsefaz, o piauiense implementou regras de contenção de despesas no estado, o que lhe rendeu a reputação de gestor focado em responsabilidade fiscal, mantendo ao mesmo tempo uma taxa alta de investimentos.

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Rafael Fonteles (PI), de camisa branca, é o favorito de Lula para o Ministério da Fazenda.
Rafael Fonteles (PI), de camisa branca, é o favorito de Lula para o Ministério da Fazenda.
Source: Evaristo Sa / AFP

Nos bastidores, aliados avaliam que uma eventual convocação direta do Planalto tornaria irrecusável a ida de Fonteles para Brasília.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o governador reeleito afirmou que não tratou de cargos ou da política econômica do próximo mandato com o presidente e declarou que espera tomar posse no governo estadual, embora tenha prometido, em nome de Lula, que o quarto mandato do petista será "ousado" para melhorar a vida da população, mas sem abrir mão da responsabilidade fiscal.

Outros nomes correm por fora para o comando da pasta. O vice-presidente Geraldo Alckmin permanece no radar como uma alternativa política de peso e com bom trânsito no mercado, enquanto nomes como Dario Durigan, atual chefe da pasta, e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, também são cogitados.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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