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Projeto que transforma histórias de alunos das periferias em literatura ganha Prêmio Jabuti
Principais pontos
- Iniciativa da Unifesp une geografia, literatura e educação para valorizar experiências de estudantes da educação de jovens e adultos de São Paulo. Ganha prêmio da categoria Incentivo à Leitura: Projeto.
- Em Cartovivências nas Periferias da Cidade, cerca de 80 estudantes de três escolas públicas transformaram suas histórias de vida em mapas e textos literários, reunidos em um livro com 61 minicontos.
- No Jabuti, Ruy Castro recebe prêmio Livro do Ano com “Trincheira tropical”, a escritora Lygia Bojunga é Personalidade Literária e Pedro Pacífico, o Bookster, vence na inédita categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital.

As histórias de vida de estudantes das periferias de São Paulo, transformadas em mapas e textos literários, levaram um projeto educacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) a obter reconhecimento no prestigiado Prêmio Jabuti. O Cartovivências nas Periferias da Cidade venceu na categoria Incentivo à Leitura – Projeto, do eixo Inovação, na 68ª edição da premiação, realizada na noite desta terça-feira (27).
Coordenada pelo geógrafo e professor Ricardo Barbosa da Silva, do Instituto das Cidades da Unifesp, no campus Zona Leste, a iniciativa combina geografia, literatura e educação para estimular a leitura, a escrita e a reflexão crítica sobre os lugares onde vivem os estudantes. A proposta também valoriza experiências de moradores de regiões periféricas que nem sempre encontram espaço nas narrativas tradicionais sobre a cidade.
O nome Cartovivências reúne as ideias de cartografia e vivências. O projeto parte de uma proposta simples: os mapas podem representar não apenas ruas, bairros e distâncias, mas também as histórias, memórias e experiências das pessoas que habitam esses territórios.
Para isso, utiliza a cartografia social, uma forma de produzir mapas com a participação dos próprios moradores. Em vez de apenas reproduzir informações geográficas convencionais, os participantes identificam lugares importantes em suas vidas, trajetos cotidianos, dificuldades de deslocamento e desigualdades que percebem no espaço urbano.
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Essa abordagem é combinada à escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo, que relaciona a produção literária às experiências vividas, especialmente pela população negra. A partir dessa combinação, os estudantes são incentivados a contar suas histórias e transformá-las em textos literários.
A metodologia permite trabalhar, dentro de uma mesma atividade educativa, questões como racismo, segregação urbana, mobilidade, desigualdades sociais e pertencimento. Também procura mostrar que produzir mapas e escrever literatura não são atividades restritas a especialistas ou escritores profissionais.
Como surgiu o projeto premiado
O Cartovivências nasceu de atividades do curso de Geografia da Unifesp, articulando a formação universitária ao trabalho com comunidades das periferias. A iniciativa teve experiências anteriores em Cidade Tiradentes, em 2022, com crianças e adolescentes de um coletivo de skate e cidadania, e em Ermelino Matarazzo, em 2023, com crianças e jovens atendidos por um espaço de atividades educacionais e culturais.
Em abril de 2025, o projeto ganhou uma nova etapa, envolvendo cerca de 80 estudantes de três unidades do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja), da prefeitura de São Paulo: Ermelino Matarazzo, na Zona Leste; Lélia Gonzalez, em Parelheiros, na Zona Sul; e Perus, na Zona Noroeste.
As oficinas foram divididas em três momentos. No primeiro, chamado de história de vida, os estudantes participaram de rodas de conversa para compartilhar lembranças, experiências e relatos sobre os bairros onde moram, os lugares que frequentam e as dificuldades que encontram para acessar outras regiões da cidade.
Na segunda etapa, denominada vidas no mapa, essas experiências foram representadas por meio da cartografia social. Os participantes passaram a localizar espacialmente suas histórias, relacionando os acontecimentos de suas vidas aos territórios em que ocorreram.
Por fim, na oficina vidas escritas, foram convidados a transformar as narrativas em textos literários. O processo incluiu atividades de reescrita, acompanhadas pelos professores das unidades do Cieja.
Metodologia inspirada em Paulo Freire
A metodologia também se inspira na concepção de educação de Paulo Freire, que defendia a construção do conhecimento por meio do diálogo e da troca de experiências, em lugar de uma relação em que apenas o professor transmite informações aos alunos.
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Na proposta acadêmica elaborada por Ricardo Barbosa da Silva, a articulação entre universidade e escola pública também permite reconhecer as periferias como espaços de produção de conhecimento. O trabalho busca estimular a cidadania territorial, conceito relacionado à compreensão dos direitos, das desigualdades e das possibilidades de participação dos moradores na vida da cidade.
O resultado das oficinas foi o livro “Nas bordas: histórias de vida no mapa da escrita”, que reúne 61 minicontos produzidos pelos participantes. A obra foi publicada de forma independente, em novembro de 2025, pelo selo Perrengue, do grupo de pesquisa Rede Mobilidade Periferias, vinculado à Unifesp.

Além do livro, a proposta acadêmica previa a elaboração de um material didático digital para apresentar a metodologia e permitir que a experiência fosse reproduzida por outros educadores e instituições.
Em seu perfil no Instagram, Ricardo dedicou a conquista “às mulheres negras e nordestinas, aos jovens das quebradas, aos imigrantes e refugiados que transformam suas vivências em histórias e saberes cotidianos sobre as cidades”.
No Jabuti, Ruy Castro conquista o Livro do Ano
O principal reconhecimento da 68ª edição do Jabuti foi concedido ao escritor e jornalista Ruy Castro, vencedor do Livro do Ano com “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, publicado pela Companhia das Letras.
Na obra, o autor reconstitui o Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, mostrando como os acontecimentos na Europa repercutiram na vida da cidade. O livro acompanha as disputas políticas durante a ditadura de Getúlio Vargas e a mobilização pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
A publicação também venceu na categoria Biografia e Reportagem. Pelo prêmio de Livro do Ano, Ruy Castro recebeu R$ 70 mil, além da estatueta e de uma viagem para participar de uma feira internacional do livro em 2027.
A cerimônia também homenageou a escritora Lygia Bojunga, escolhida como Personalidade Literária de 2026, no ano em que seu livro “A bolsa amarela” completa 50 anos.
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Esta edição teve a estreia da categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital, vencida por Pedro Pacífico, criador do Bookster, canal dedicado à divulgação de livros e à formação de comunidades de leitores nas redes sociais.
Criado em 1958 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Prêmio Jabuti reconhece obras literárias, trabalhos editoriais e iniciativas de incentivo à leitura. Nesta edição, foram registradas 4.675 inscrições nas outras 22 categorias, distribuídas pelos eixos Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Os vencedores de cada categoria receberam uma estatueta e R$ 5 mil.
Confira todos os vencedores do Prêmio Jabuti 2026
Livro do Ano
- “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro — Companhia das Letras.
Literatura
- Conto: “Massaranduba”, de Abáz — Senac Rio.
- Crônica: “Viagem no país da crônica”, de Humberto Werneck — Tinta-da-china Brasil.
- Escritor Estreante – Poesia: “História a que ninguém deu nome”, de Juliana Cajives — Mormaço Editorial.
- Escritor Estreante – Romance: “Pitangas verdes”, de Mariana Lobato Botter — Labrador.
- Histórias em Quadrinhos: “Ouroboros”, de Luckas Iohanathan — Comix Zone.
- Infantil: “A letra”, de Leo Cunha e Raquel Matsushita — Maralto.
- Juvenil: “A única da sala”, de Tathyana Viana — FTD.
- Poesia: “Boris e Marina”, de Alberto Martins — Companhia das Letras.
- Romance de Entretenimento: “Cartografia para caminhos incertos”, de Ian Fraser — Intrínseca.
- Romance Literário: “Meridiana”, de Eliana Alves Cruz — Companhia das Letras.
Não Ficção
- Artes: “Abdias, intérprete do Brasil: textos sobre raça e cultura brasileira de 1940 a 1990”, organizado por Tulio Custódio — Todavia.
- Biografia e Reportagem: “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro — Companhia das Letras.
- Economia Criativa: “A (r)evolução das habilidades para o futuro do trabalho na era da inteligência artificial”, de Martha Gabriel — Senac São Paulo.
- Educação: “Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade”, de Manuel Alves de Sousa Junior — Schreiben.
- Negócios: “Não se esqueça!: 50 memorandos sobre gestão e liderança com propósito, comprometimento e proatividade”, de Mario Sergio Cortella — Record.
- Saúde e Bem-Estar: “A paixão pela mentira: a família e as tiranias”, de Paulo Schiller — Todavia.
Produção Editorial
- Capa: “Frans Krajcberg”, capa de Alles Blau Studio — Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand).
- Ilustração: “Guernica: a arte em busca da paz”, ilustrações de Vinicius Sabbato — Via Lúdica.
- Projeto Gráfico: “Dobra”, projeto de Raul Loureiro — Cosac.
- Tradução: “O cavaleiro de bronze e outros contos e versos”, tradução de Rubens Figueiredo — Penguin-Companhia das Letras.
Inovação
- Incentivo à Leitura – Projeto: Cartovivências nas Periferias da Cidade, de Ricardo Barbosa da Silva.
- Livro Brasileiro Publicado no Exterior: “Os substitutos” — Companhia das Letras e Métailié.
- Incentivo à Leitura – Cultura Digital: Bookster, de Pedro Pacífico.
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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