O futuro da educação no Brasil
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Falta de professores se espalha pelo mundo e acende alerta para os próximos anos
Principais pontos
- Escassez já afeta a maioria dos sistemas educacionais analisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e se concentra nas áreas de matemática e ciências e em escolas de regiões remotas e desfavorecidas.
- Além das vagas abertas, países recorrem a profissionais sem qualificação completa; eles já representam 9,1% dos professores dos ensinos primário e secundário na média reportada no relatório anual da entidade.
- O Brasil tem professores mais jovens que a média da OCDE, registra menor percepção de valorização da carreira e dispõe de menos recursos por aluno que as nações mais ricas.

Encontrar professores qualificados para todas as salas de aula está se tornando um desafio para sistemas educacionais de diferentes partes do mundo. O problema não aparece apenas na existência de vagas que ninguém consegue preencher. Há escolas recorrendo a profissionais que ainda não atendem a todas as exigências de formação, regiões nas quais a dificuldade de contratação é muito maior que a média nacional e disciplinas em que a disputa por trabalhadores qualificados se tornou particularmente intensa.
Esse é o cenário traçado pelo “Education at a Glance 2026”, relatório anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que neste ano colocou a escassez de professores no centro de sua análise. O estudo reúne dados dos 38 integrantes da entidade e de países como Brasil, Argentina, China, Índia, Indonésia e África do Sul.
A primeira dificuldade é medir o tamanho do problema. Nos 20 sistemas educacionais com informações disponíveis, menos de 4% dos postos de professor dos ensinos primário e secundário estavam oficialmente vagos em 2024/2025. Em muitos países, a proporção ficava abaixo de 1%.
Os números são aparentemente pequenos, porém, escondem situações muito diferentes dentro de um mesmo país. A falta de professores pode estar concentrada em uma disciplina, uma cidade, uma região rural ou uma escola que atende alunos socialmente mais vulneráveis. Por isso, a OCDE considera que olhar apenas para o total de vagas abertas subestima a pressão enfrentada pelas escolas.
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Na Letônia, por exemplo, 3,9% dos postos no ensino secundário estavam vagos, ante 1,9% no primário. No Chile, as proporções eram de 3,6% e 2,6%, respectivamente. Na Romênia, 3,3% das vagas do secundário estavam sem professor, mais que o dobro dos 1,5% registrados no primário.
A dificuldade aumenta justamente nas áreas que exigem formação especializada. Entre 16 países dos quais a OCDE obteve informações por disciplina, 11 relataram falta de professores plenamente qualificados tanto em matemática quanto em ciências naturais. Artes, estudos sociais e educação física apresentaram menos problemas de contratação.
A Estônia foi o único desses sistemas a informar escassez em todas as disciplinas e em todos os territórios analisados. Para essa comparação, a OCDE considera que existe escassez quando pelo menos 5% dos postos disponíveis ou das vagas anunciadas para determinada disciplina permanecem sem preenchimento.
Quando há professor, falta qualificação
As vagas abertas são apenas uma das faces do problema. Outra aparece quando as escolas conseguem colocar alguém diante dos alunos, mas precisam contratar profissionais que ainda não cumprem todos os requisitos nacionais para exercer a função.
Na média da OCDE, 9,1% dos professores dos ensinos primário e secundário não tinham qualificação completa em 2024/2025. A parcela superava 18% no Chile, Dinamarca, Estônia e Alemanha. Mais significativo ainda: entre 2017/2018 e 2024/2025, cerca de dois terços dos países com dados comparáveis registraram aumento da proporção desses profissionais.
A distribuição também é desigual dentro dos próprios países. No Chile, 77% dos estudantes do ensino primário e 69% dos alunos dos anos finais estudavam em escolas públicas nas quais mais de um em cada dez professores não tinha qualificação completa.
Em algumas regiões, a concentração é muito maior. Em Chañaral, no Chile, 40,2% dos docentes estavam nessa situação. Na região de Bruxelas pertencente à comunidade flamenga da Bélgica, eram 20,2%, e no distrito de Jerusalém, em Israel, 18,1%. Na Noruega, os percentuais mais elevados aparecem no norte do país e em áreas mais remotas, como Troms, com 11,1%, Finnmark, com 10,9%, e Nordland, com 10,5%.
É justamente essa concentração que torna a escassez difícil de enxergar nas médias nacionais. Um país pode ter poucos postos oficialmente vagos e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldade severa para colocar professores qualificados de determinadas matérias em determinadas escolas.
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Aposentadorias devem aumentar a pressão
O problema tende a ganhar uma nova dimensão à medida que os professores envelhecem. Um em cada quatro docentes do ensino secundário na OCDE já tem 55 anos ou mais, o que significa que uma parcela expressiva do quadro deverá deixar as salas de aula nos próximos anos.
Há um movimento demográfico na direção contrária: o número de crianças entre 5 e 14 anos deverá cair 9% entre 2024 e 2033 nos países da organização. Isso poderia sugerir que menos alunos resolveriam naturalmente parte da falta de professores.
A OCDE alerta que a conta não é tão simples. A queda da população escolar não ocorrerá de maneira uniforme, assim como a escassez atual não está distribuída igualmente. Uma região pode perder alunos e ficar com professores disponíveis, enquanto outra continua sem conseguir contratar profissionais de matemática ou ciências. O desafio, portanto, envolve também redistribuir recursos e planejar onde os docentes serão necessários.
Há ainda problemas que não aparecem na contagem de vagas. Na Áustria, 11% dos professores ficaram afastados por mais de dois meses durante o ano letivo de 2024/2025. Na Coreia do Sul, foram 9%. Licenças prolongadas podem criar dificuldades adicionais para escolas que já não encontram profissionais qualificados para substituições.
“Hoje, está cada vez mais difícil recrutar, reter e alocar professores qualificados onde eles são mais necessários”, afirmou o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann. De acordo com ele, os sistemas precisam se antecipar ao problema, manter os professores que já estão na profissão e ampliar a formação e a entrada de novos profissionais sem reduzir os padrões de qualidade.
Uma profissão satisfeita, mas pouco valorizada
A OCDE coloca a escassez de professores dentro de uma disputa maior por trabalhadores qualificados. Escolas precisam concorrer com outros setores por pessoas com formação elevada.
A remuneração é parte dessa equação. Nos países da organização, os professores recebem, em média, entre 87% e 95% do rendimento de outros trabalhadores com formação superior. Para quem está começando a carreira nos anos finais do ensino fundamental, a diferença é ainda maior: o salário inicial equivale, em média, a 61% do rendimento de trabalhadores com nível de escolaridade semelhante.
Mas dinheiro não explica tudo. Carga de trabalho, autonomia profissional, relação com a direção da escola, possibilidades de progressão na carreira e reconhecimento social também interferem na decisão de entrar ou permanecer no magistério.
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O contraste aparece nos próprios professores: 85% dizem estar satisfeitos com seu trabalho, mas somente 22% acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade.
Alguns países tentam ampliar o contingente disponível atraindo pessoas que já construíram uma carreira em outra área. Esses profissionais, definidos pela OCDE como aqueles que trabalharam pelo menos dez anos fora da educação antes de ingressar no magistério, representam 8% dos professores dos anos finais do ensino fundamental, em média.
A proporção passa de 16% na Austrália, Bulgária, Islândia, Holanda, Nova Zelândia e Estados Unidos, enquanto fica abaixo de 1% na Coreia do Sul, Japão, Arábia Saudita e Turquia. Para a OCDE, criar caminhos para a mudança de carreira pode ajudar a enfrentar a escassez, desde que a ampliação das formas de ingresso não implique redução das exigências de qualificação.
A organização também aponta tecnologia e inteligência artificial como instrumentos capazes de reduzir tarefas administrativas e liberar mais tempo para que professores se dediquem ao ensino e aos alunos.
Brasil tem professores mais jovens, mas carreira é menos valorizada
O relatório não apresenta para o Brasil uma taxa de vagas docentes não preenchidas comparável à disponível para países como Chile e Letônia. Os indicadores permitem, no entanto, identificar algumas diferenças importantes entre a situação brasileira e a média da OCDE.
Uma delas joga a favor do país diante da onda de aposentadorias esperada em diversas economias desenvolvidas. No Brasil, 15% dos professores do ensino secundário têm 55 anos ou mais, enquanto na média da OCDE são aproximadamente 25%. Cerca de 24% dos docentes brasileiros dessa etapa têm menos de 35 anos.
Por outro lado, a percepção de reconhecimento da carreira é particularmente baixa. Só 14,1% dos professores brasileiros consideram que sua profissão é valorizada pela sociedade, diante de 21,7% na média da OCDE.
As diferenças aparecem também nas condições de trabalho. No Brasil, 63,5% dos professores têm vínculo permanente, ante 80,7% na média da organização. Outros 18,7% têm contrato por prazo determinado superior a um ano e 17,8%, contratos de um ano ou menos.
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A satisfação também fica abaixo da média. Entre os professores brasileiros, 44,3% dizem estar satisfeitos com suas condições de emprego, sem considerar o salário, contra 68,4% na OCDE. Quando a pergunta é especificamente sobre a remuneração, a satisfação cai para 22,3% no Brasil, ante 38,7% na média da organização.
Menos recursos por aluno
As diferenças entre os sistemas educacionais aparecem também no dinheiro disponível para atender cada estudante.
Em 2023, os países da OCDE gastaram, em média, US$ 13.639 por aluno do ensino primário. Nos anos finais do ensino fundamental, o valor chegou a US$ 15.305. Os números são convertidos pela paridade do poder de compra (PPC), que leva em consideração as diferenças de preços entre os países e torna a comparação mais próxima do poder de compra real dos recursos.
A distância entre os países é grande. No primário, a maior parte das economias da OCDE gasta entre US$ 10 mil e US$ 17 mil por estudante. Islândia, Luxemburgo e Noruega superam US$ 19 mil. Na outra ponta, Colômbia e Turquia ficam abaixo de US$ 5 mil.
Considerando conjuntamente os ensinos primário, secundário e pós-secundário não superior em instituições públicas, o investimento dos governos da OCDE é de US$ 13.859 por aluno, em média. Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Suíça ultrapassam US$ 20 mil. Luxemburgo chega a US$ 34.515.
O Brasil está muito abaixo desses valores. Isso não significa, porém, que o país simplesmente destine uma parcela pequena de sua economia à educação. Em 2023, o aporte governamental brasileiro do ensino primário ao superior correspondia a cerca de 4,4% do PIB, enquanto a média comparável da OCDE ficava próxima de 3,9%.
A aparente contradição se explica pelo tamanho da economia e pelo número de estudantes entre os quais os recursos precisam ser divididos. Países de renda mais alta podem transformar uma parcela semelhante — ou até menor — de seu PIB em um volume muito maior de dinheiro por aluno.
Essa diferença importa para a discussão sobre professores. Na média da OCDE, 66% das despesas das instituições educacionais, do ensino primário ao superior, são destinadas à remuneração de profissionais. A própria organização relaciona os recursos disponíveis para pessoal à capacidade dos sistemas de tornar o magistério atraente e enfrentar a escassez.
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O desafio, portanto, não se limita a encontrar pessoas para ocupar vagas. Envolve formar professores, conseguir levá-los às escolas e disciplinas em que são mais necessários e oferecer condições para que permaneçam na carreira. E, com um quarto dos docentes do ensino secundário da OCDE já acima dos 55 anos, essa necessidade tende a se tornar mais urgente antes mesmo que a próxima geração de alunos chegue às salas de aula.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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