Fraude financeira e queda do presidente: o escândalo do Banco Ueno no Paraguai

Principais pontos

  • O presidente paraguaio Santiago Peña renunciou após perder apoio político diante do escândalo do banco, que deixou 2,9 milhões de clientes sem acesso às contas, levou à renúncia do presidente do Banco Central e gerou pedidos de impeachment.  
  • Ligado anteriormente a Peña, o banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo dinheiro da Previdência Social. Oito dirigentes foram detidos e 27 pessoas passaram a responder a acusações.
  • O escândalo, comparado ao caso do Banco Master no Brasil, atinge um país que se tornou destino de milhares de brasileiros e revive a memória das crises bancárias dos anos 1990.
A crise deflagrada pelo Banco Ueno levou Santiago Peña a renunciar à presidência nesta quinta-feira (3).
A crise deflagrada pelo Banco Ueno levou Santiago Peña a renunciar à presidência nesta quinta-feira (3).
Source: ANADOLU/ AFP - Klebher Vasquez

Com 2,9 milhões de clientes prejudicados, banco foi fechado após descoberta de irregularidades financeiras. Crise levou à renúncia do presidente Santiago Peña, a primeira no país em 27 anos

Um banco digital que conquistou quase metade dos habitantes do Paraguai, recebeu centenas de milhões de dólares em recursos públicos e manteve vínculos com o presidente da República tornou-se o centro de um escândalo que derrubou o governo. Em apenas três dias, o fechamento do Banco Ueno deixou 2,9 milhões de clientes sem acesso às contas, levou dirigentes financeiros à prisão e culminou na renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (5).

O caso representa uma das mais graves crises bancárias enfrentadas pelo Paraguai nas últimas décadas. A instituição, que havia crescido rapidamente com serviços digitais, promoções e patrocínios esportivos, apresentava problemas de solvência e operações financeiras sob suspeita. Seu colapso também expôs as relações entre autoridades políticas, empresários e órgãos responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro. Ele tem sido comparado ao Banco Master.

Peña, economista que assumiu a presidência em agosto de 2023, anunciou a renúncia enquanto a Câmara dos Deputados discutia um pedido de impeachment apresentado por 35 parlamentares, entre oposicionistas e dissidentes do governista Partido Colorado. A pressão aumentou com os protestos de clientes e a perda de apoio dentro da própria legenda.

Em mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade nacional, a paz social e as instituições democráticas. Também defendeu que a recuperação do dinheiro dos depositantes fosse tratada como prioridade.

RECOMMENDED FOR YOU

Cinco estados e o DF terão votação para governador neste domingo, 25.

País vai às urnas em uma das eleições mais acirradas desde a redemocratização

A renúncia ainda depende de aceitação pelo Congresso. Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana, que também foi alvo de um pedido de impeachment, é o sucessor previsto para completar o mandato até agosto de 2028.

O que aconteceu com o Banco Ueno e qual é a ligação de Peña?

Controlado pelo Grupo Vázquez, o Ueno recebeu autorização para operar como banco em 2023, depois de atuar como financeira. Em pouco tempo, tornou-se uma das instituições mais populares do Paraguai, com milhões de correntistas atraídos pela facilidade de abertura de contas e por benefícios oferecidos aos clientes.

O crescimento, porém, foi acompanhado por operações que passaram a ser questionadas pelo Banco Central. A fiscalização identificou empréstimos a empresas ligadas aos controladores da instituição, documentação insuficiente e registros contábeis irregulares.

A revisão dos balanços revelou que o índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. Esse indicador mede a capacidade de um banco de absorver perdas e cumprir suas obrigações financeiras.

Em 3 de novembro, o BC anunciou a intervenção e o início do procedimento de resolução do Ueno. As operações foram suspensas, impedindo clientes de utilizar cartões, aplicativos, caixas eletrônicos e outros serviços.

Entre os recursos administrados pelo banco estavam aproximadamente US$ 850 milhões de instituições públicas. Desse total, cerca de US$ 355 milhões pertenciam ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por aposentadorias e benefícios de saúde. O Ueno também participava do pagamento de benefícios a aproximadamente 32 mil aposentados.

A ligação de Peña com a instituição agravou a crise. O presidente foi acionista do grupo controlador até março de 2025 e, ao assumir o governo, nomeou o economista Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central. Carvallo havia comandado a financeira Ueno antes de assumir o órgão responsável pela fiscalização bancária. Ele foi diretor do BC em 2015, substituindo Peña que, na ocasião, assumiu o ministério da Fazenda.

A nomeação de Carvallo chegou a provocar questionamentos sobre conflito de interesses. Em 2024, investimentos do IPS no Ueno já tinham gerado críticas de parlamentares. Em 2025, a instituição também foi alvo de advertências relacionadas às suas operações.

RECOMMENDED FOR YOU

Comprar uma casa, viajar pelo mundo, ajudar a família ou simplesmente deixar o dinheiro aplicado e viver dos rendimentos são opções para quem ganhar a próxima Mega-Sena.

Mega-Sena de R$ 230 milhões: quanto rende e o que é possível comprar com essa fortuna

Carvallo apresentou sua renúncia também no dia 3, a pedido de Peña, após o anúncio da intervenção. A investigação criminal levou à detenção de oito dirigentes e à apresentação de acusações contra 27 pessoas ligadas ao banco, entre elas Miguel Vázquez, um dos principais nomes do grupo controlador.

Os deputados que pediram o impeachment de Peña acusaram o presidente de conflito de interesses, favorecimento regulatório e responsabilidade por irregularidades envolvendo recursos previdenciários. Ele negou ter cometido irregularidades e defendeu a responsabilização judicial dos envolvidos.

Por que o escândalo é comparado ao caso do Banco Master?

O colapso do Ueno passou a ser comparado ao do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025. As duas instituições apresentaram crescimento acelerado, atraíram recursos de investidores e entidades previdenciárias e se tornaram alvo de investigações sobre operações financeiras.

No Brasil, o Master oferecia certificados de depósito bancário (CDBs) com rendimentos superiores aos praticados por muitas instituições concorrentes. Também recebeu aproximadamente R$ 1,9 bilhão de regimes previdenciários de estados e municípios.

No Paraguai, o Ueno conquistou clientes com serviços digitais, descontos e devolução de parte dos valores gastos em compras. Ao mesmo tempo, concentrou recursos de instituições públicas, incluindo aplicações da Previdência Social.

A dimensão relativa dos dois bancos ajuda a compreender o impacto dos escândalos. O Master representava aproximadamente 0,55% das captações do sistema bancário brasileiro, enquanto o Ueno concentrava cerca de 9,1% dos depósitos paraguaios.

As investigações e os mecanismos de intervenção são distintos, assim como as legislações dos dois países. A comparação está principalmente na rápida expansão das instituições, nas suspeitas sobre suas operações e na exposição de recursos previdenciários.

O que acontece com o dinheiro dos clientes?

O fechamento do Ueno não significa que todos os correntistas perderam definitivamente suas economias. O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que cobre valores de até 75 salários mínimos por depositante, equivalentes a aproximadamente 228 milhões de guaranis, ou R$ 211 mil.

RECOMMENDED FOR YOU

Brasileiro até poupa, mas a reserva acaba antes da crise, mostra pesquisa da Anbima

3 em cada 4 brasileiros não aguentariam seis meses sem renda, mostra relatório

Segundo as autoridades paraguaias, essa cobertura seria suficiente para proteger integralmente os depósitos de aproximadamente 97% dos clientes. Quem possui valores superiores ao limite depende dos procedimentos de recuperação dos ativos do banco.

O Banco Central iniciou medidas para devolver recursos aos depositantes e transferir contas e ativos viáveis para outras instituições. O órgão afirma que o problema do Ueno é isolado e não representa uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio.

Brasileiros também enfrentam incertezas

O Paraguai vive um movimento recorde de imigração brasileira. Em 2025, o país concedeu 23.526 autorizações de residência a cidadãos do Brasil, crescimento de 37,3% em relação ao ano anterior. Brasileiros representaram mais de 57% de todas as autorizações concedidas a estrangeiros, conforme levantamento da Direção Nacional de Migrações publicado pelo GSW Brasil.

A tendência continuou em 2026. Apenas no primeiro trimestre, 9.195 brasileiros obtiveram autorização para residir no Paraguai. Em 2020, haviam sido concedidas 10.039 autorizações durante o ano inteiro.

O interesse pelo país vizinho é impulsionado por impostos mais baixos, oportunidades de negócios, menor custo de vida e acesso a cursos universitários, especialmente Medicina. O regime tributário conhecido como Triple 10, com alíquotas de 10% para os principais impostos, é um dos atrativos para empreendedores.

Brasileiros estão entre os clientes que tiveram dinheiro bloqueado após a intervenção no Ueno. O problema atinge famílias que mantêm filhos estudando Medicina no Paraguai e comerciantes da região de fronteira, especialmente em Ciudad del Este, onde o banco era amplamente utilizado em pagamentos eletrônicos. As restrições dificultam o pagamento de despesas cotidianas, como aluguel, mensalidades universitárias e fornecedores.

Os brasileiros que mantêm depósitos no Ueno estão sujeitos às mesmas regras de garantia aplicadas aos clientes paraguaios. Ainda não há um levantamento público que identifique quantos foram diretamente prejudicados.

Paraguai revive crises bancárias dos anos 1990

O fechamento do Ueno trouxe de volta a memória das crises financeiras que atingiram o Paraguai entre 1995 e 2003, período em que o país enfrentou cinco episódios de instabilidade bancária.

RECOMMENDED FOR YOU

Os indicadores mostram os reajustes nominais (o percentual de aumento acertado entre trabalhadores e empregadores) e os reais, que descontam a inflação.

BC cria indicador para mostrar se reajustes salariais superam a inflação

A primeira grande onda começou em 1995, quando problemas de gestão, operações irregulares e insuficiência de capital provocaram intervenções e falências de bancos e financeiras. A crise se prolongou pelos anos seguintes, acompanhada por recessão e perda de confiança no sistema financeiro.

Estudos do Ministério da Economia paraguaio estimam que as três primeiras crises custaram ao setor público aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que representa o conjunto de bens e serviços produzidos no país.

O episódio atual envolve uma instituição com milhões de contas digitais e uma parcela expressiva de recursos públicos. Embora seja uma das crises bancárias mais graves das últimas décadas, ainda não é possível determinar se as perdas econômicas superarão as registradas nos anos 1990.

As crises políticas que marcaram o país

A renúncia de Santiago Peña é a primeira de um presidente paraguaio em 27 anos. A anterior ocorreu em março de 1999, quando Raúl Cubas deixou o governo após o assassinato do vice-presidente Luis María Argaña e uma onda de protestos conhecida como Março Paraguaio.

A crise provocou confrontos violentos, deixou mortos e feridos e levou o Congresso a iniciar um processo de impeachment contra Cubas, que estava no cargo havia apenas sete meses.

O episódio ocorreu dez anos depois do fim da ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai de 1954 a 1989. A transição democrática foi marcada por disputas entre grupos políticos, especialmente dentro do Partido Colorado, que havia sustentado o regime autoritário.

Em junho de 2012, outra crise interrompeu um mandato presidencial. Fernando Lugo, eleito em 2008 e responsável por encerrar mais de seis décadas de domínio colorado na Presidência, foi destituído pelo Congresso.

O impeachment ocorreu após um confronto entre policiais e camponeses em Curuguaty, que deixou 17 mortos. O processo foi concluído em menos de dois dias, provocando críticas internacionais pela rapidez do julgamento e pelas limitações impostas à defesa. O Paraguai acabou temporariamente suspenso do Mercosul.

RECOMMENDED FOR YOU

Mulheres lideraram as estatísticas de empregos formais em setembro. Brasil abriu 121,3 mil vagas, com mais da metade ocupadas por elas.

Mulheres lideram criação de empregos formais em setembro, mas geração de vagas desacelera

No caso de Peña, a perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado acelerou a crise. O ex-presidente Horacio Cartes, dirigente da legenda, retirou seu respaldo ao governo em meio ao avanço das iniciativas de impeachment.

Cronologia: o escândalo do Banco Ueno

2023 — Expansão do banco e chegada de Peña ao poder

O Ueno recebe autorização para operar como banco. Santiago Peña assume a Presidência em agosto e nomeia Carlos Carvallo, ex-dirigente da financeira Ueno, para comandar o Banco Central.

Outubro de 2024 — Questionamentos sobre recursos previdenciários

Investimentos do Instituto de Previdência Social no Ueno provocam questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses. Peña rejeita as acusações.

Março de 2025 — Peña deixa o grupo controlador

O presidente encerra sua participação acionária no Grupo Vázquez, proprietário do banco.

2025 e outubro de 2026 — Alertas e pressão política

RECOMMENDED FOR YOU

Logo da Meta e do Threads, que pertence à empresa

Big Techs descumpriram ao menos 568 vezes regras eleitorais no dia das eleições, diz estudo

Operações do Ueno passam a ser questionadas pela fiscalização. Parlamentares cobram explicações sobre a situação financeira da instituição e os recursos públicos nela aplicados.

2 e 3 de novembro de 2026 — Intervenção no Ueno

O Banco Central decide iniciar o procedimento de resolução do banco e anuncia a medida em 3 de novembro. Os serviços são interrompidos, Carlos Carvallo apresenta sua renúncia e a investigação criminal leva à detenção de dirigentes.

4 de novembro — Pedidos de impeachment

Um grupo de 35 deputados apresenta acusações contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. A Câmara convoca sessões extraordinárias para discutir os pedidos.

5 de novembro — Renúncia de Santiago Peña

O presidente perde apoio de integrantes do Partido Colorado e anuncia sua renúncia, enquanto o Congresso discute o impeachment.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

Se está acontecendo no Sul Global, está no nosso canal do WhatsApp.

Nós contamos as notícias que você precisa saber.

Inscreva-se agora
Ícone do banner do WhatsApp