3 em cada 4 brasileiros não aguentariam seis meses sem renda, mostra relatório
Principais pontos
- 74% dos brasileiros não conseguiriam cobrir suas despesas por mais de seis meses com o que têm guardado, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima.
- Quase um terço da população (31%) não tem qualquer reserva de emergência; entre os brasileiros com 65 anos ou mais, a fatia chega a quase metade.
- O contador e educador financeiro André Charone recomenda uma reserva de pelo menos seis meses de despesas essenciais, começando por metas de R$ 500 a R$ 1 mil.

74% dos brasileiros não têm reserva para seis meses, expondo famílias a endividamento rápido
Três em cada quatro brasileiros não teriam dinheiro guardado suficiente para atravessar mais de seis meses sem renda. É o que mostra a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) com o Datafolha, que ouviu 5.832 pessoas com 16 anos ou mais em novembro de 2025 e foi divulgada em abril.
Pela primeira vez, o levantamento perguntou sobre reserva de emergência. 69% disseram ter algum dinheiro guardado, mas para 43% ele acabaria em até seis meses, e cerca de 20% teriam fôlego para no máximo um mês. Outros 31% não têm qualquer reserva, e apenas 26% se manteriam por mais de seis meses.
Para André Charone, contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA) e autor do livro A Verdade sobre o Dinheiro, o dado revela uma vulnerabilidade que vai além de quem não poupa nada.
"Existe uma diferença enorme entre ter algum dinheiro guardado e possuir uma reserva de emergência de verdade. Muitas pessoas até conseguem economizar alguma coisa, mas esse dinheiro não seria suficiente para sustentar a família durante uma situação mais grave, como a perda de um emprego ou uma doença que impeça temporariamente o trabalho", afirma.
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Quem está mais exposto
A fragilidade se concentra entre os não investidores, que são 64% da população: 42% deles não têm reserva, contra 11% entre quem investe. Por idade, os Boomers (65 anos ou mais) são os mais vulneráveis, com quase metade sem nenhum dinheiro guardado. A Geração Z é a que mais tem reserva, mas para 57% dos jovens ela duraria menos de seis meses.
O orçamento apertado agrava o quadro. Cerca de um terço dos brasileiros gasta mais do que ganha, índice que chega a 47% na classe DE. Nesse grupo, 41% não têm reserva e 45% têm dívidas em atraso, contra 29% na população em geral.
Sem proteção, o imprevisto costuma ser coberto com cartão de crédito, cheque especial ou empréstimo.
"Imagine uma família que depende de uma renda mensal de R$ 4 mil. Se essa renda desaparece de uma hora para outra, mas as contas continuam chegando, o que acontece? Sem dinheiro guardado, a primeira alternativa costuma ser recorrer ao crédito. E é justamente nesse momento de fragilidade que os juros podem transformar um problema temporário em uma dívida que levará anos para ser resolvida", diz Charone.
Entre os que não guardam dinheiro de forma alguma, 82% citam condições financeiras desfavoráveis como motivo, ante 75% em 2021.
"Não podemos ignorar a realidade de milhões de brasileiros que precisam utilizar praticamente toda a renda para pagar despesas básicas. Para essas famílias, guardar dinheiro é realmente difícil. Mas também existem pessoas que, mesmo tendo uma renda confortável, acabam aumentando seus gastos na mesma proporção dos ganhos e permanecem sem nenhuma segurança financeira", pondera o especialista.
Quanto guardar e por onde começar
A referência indicada por Charone é uma reserva de pelo menos seis meses das despesas essenciais: R$ 18 mil para uma família que gasta R$ 3 mil por mês com moradia, alimentação, contas e transporte, por exemplo. Autônomos e profissionais com renda variável podem precisar de até 12 meses. "Não existe um valor único que sirva para todo mundo", diz.
Para quem parte do zero, a orientação é começar com metas de R$ 500 ou R$ 1 mil e, depois, juntar o equivalente a um mês de gastos. O dinheiro deve ficar separado do usado no dia a dia, em aplicações de baixo risco e boa liquidez, como CDBs com liquidez diária e o Tesouro Selic.
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O especialista também alerta para não misturar a reserva com planos de consumo. "Viagem, troca de carro e compra de celular precisam ter planejamentos próprios. A reserva de emergência não é uma poupança para realizar desejos, mas uma proteção para enfrentar necessidades inesperadas", afirma.
"Uma reserva de emergência é como um extintor de incêndio: você espera nunca precisar utilizar, mas, quando surge um problema, fica extremamente agradecido por ter um. O melhor momento para começar a construir essa proteção é antes de a emergência acontecer", conclui Charone.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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