Flávio Bolsonaro é alvo de três inquéritos no STF – saiba quais são
Principais pontos
- A Polícia Federal investiga se o senador, que fugiu para os EUA, é sócio oculto de empresa de apostas ligada ao advogado Willer Tomaz, suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
- Outro inquérito apura a negociação de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar "Dark Horse", filme sobre Jair Bolsonaro, e o destino desse dinheiro.
- O filho “01” já se livrou de outras investigações e chegou a ter a ajuda do pai; quando era presidente, Jair Bolsonaro interferiu na PF.

Depois de ter viajado às escondidas para os Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) pensou em fazer uma entrevista coletiva para explicar os motivos de sua viagem, que passou por Argentina e Equador. Mas mudou de ideia e resolveu divulgar uma carta, de teor golpista, alegando fraude nas eleições.
O senador deixou o território brasileiro em meio a medidas judiciais que determinavam a entrega de seus passaportes e o impediam de viajar ao exterior.
Por trás da fuga está uma situação jurídica que se tornou mais delicada com a derrota eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no dia 25 de outubro. Flávio é alvo de três investigações criminais no Supremo Tribunal Federal (STF), duas delas envolvendo suspeitas de crimes financeiros. Se tivesse sido eleito presidente, teria proteção constitucional temporária contra a responsabilização por fatos anteriores ao mandato e sem relação com o exercício da Presidência.
Os procedimentos apuram possíveis irregularidades no financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, suspeitas de lavagem de dinheiro em negócios ligados a bets e uma publicação investigada por calúnia contra Lula nas redes sociais. O primeiro inquérito tem como relator o ministro André Mendonça. Os outros dois são relatados por Alexandre de Moraes, que atendeu pedido da Polícia Federal (PF) para reter os passaportes de Flávio e proibir sua saída do país.
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“Dark Horse” e o dinheiro do Banco Master
O Inquérito 5070, autuado no STF em 6 de agosto de 2026, está sob relatoria do ministro André Mendonça. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento de "Dark Horse”.
A apuração envolve negociações entre Flávio e Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mensagens e áudios examinados pelos investigadores apontam que o senador procurou o empresário para obter recursos destinados à produção cinematográfica.
Documentos apresentados à Justiça mencionam negociações de valores entre US$ 24 milhões e US$ 26,8 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 134 milhões na época. Pelo teor dos áudios, os pagamentos foram parciais. Esses valores integram as alegações examinadas na investigação e não representam, por si, comprovação de transferências ou da destinação do dinheiro.
A Polícia Federal também apura a participação de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, e do advogado Paulo Calixto, amigo do ex-deputado, na estruturação financeira do projeto.
Uma das hipóteses investigadas é que parte dos recursos associados ao filme tenha sido usada para cobrir despesas de Eduardo nos Estados Unidos.
Em 22 de julho, André Mendonça autorizou a inclusão formal de Flávio na investigação. A decisão tornou-se pública em setembro. A PF prossegue com diligências para esclarecer a origem, o percurso e os beneficiários finais dos recursos negociados.
Flávio reconheceu as tratativas com Vorcaro, mas negou irregularidades. Sustenta que buscava financiamento privado para “Dark Horse”. A produtora Goup Entertainment, responsável pelo filme, reconheceu repasses e afirmou que os valores foram declarados à Justiça.
Bets, Willer Tomaz e suspeitas de lavagem de dinheiro
A PF investiga se Flávio Bolsonaro é sócio oculto de uma bet ligada ao advogado Willer Tomaz, seu amigo, e se empresas controladas por ele foram utilizadas para ocultar a origem, a movimentação ou os beneficiários de recursos, em possíveis crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A investigação começou na Justiça Federal do Rio Grande do Sul e chegou ao STF, onde está sob relatoria de Alexandre de Moraes.
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Um dos principais indícios é a identificação de Flávio como "usuário master" de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Willer registrada em Portugal, no Santander. Essa condição permitiria gerenciar operações financeiras. Documentos examinados pela PF indicam que a exclusão do nome do senador foi solicitada em maio de 2025. A PF também investiga sua possível participação na BestBet, casa de apostas ligada ao advogado.
Outra empresa ligada a Willer, a Cathedral Holding, pagou passagens aéreas para viagens de Flávio e de sua família à Europa. A investigação examina ainda movimentações de aproximadamente R$ 130 milhões, entre março e maio de 2025, em contas relacionadas ao advogado.
Parte dos elementos foi encontrada no celular de Willer, apreendido durante a Operação Sem Desconto, estabelecida em abril de 2025 para apurar fraudes contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O aparelho continha documentos pessoais de Flávio, registros de encontros e comunicações entre os dois. O senador não é apontado como investigado pelas fraudes previdenciárias.
Em outubro, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores de Willer, a quebra de seus sigilos bancário, fiscal e cambial, o cancelamento de seus passaportes e a suspensão das atividades de suas empresas. Também ordenou a investigação dos correntistas da Alcazar Holdings. O bloqueio não atingiu Flávio.
A defesa do senador afirma que a relação com Willer era apenas de amizade e nega negócios em comum. O advogado sustenta que suas empresas e participações são lícitas e declaradas à Receita Federal.
Calúnia contra Lula
O Inquérito 5045 foi autuado no STF em 22 de abril de 2026 e está sob relatoria de Alexandre de Moraes. A investigação apura suspeita de calúnia contra o presidente Lula.
O caso teve origem em uma publicação feita por Flávio no X, em 3 de janeiro, no contexto da operação militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro.
Na postagem, o senador associou Lula a crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. A Polícia Federal examinou o conteúdo e concluiu, em junho, que havia indícios concretos de calúnia.
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Flávio não prestou depoimento presencial e encaminhou esclarecimentos por escrito. Sua defesa negou a prática de crime e contestou a interpretação dada à publicação.
Jair Bolsonaro interferiu na PF; o filho ficou livre de investigações
As investigações atuais contrastam com o período em que Jair Bolsonaro ocupava a presidência e pressionou por mudanças no comando da PF, responsável por apurações que atingiam Flávio Bolsonaro.
Em abril de 2020, o então presidente demitiu Maurício Valeixo da direção-geral da PF, contrariando o ministro da Justiça, Sergio Moro, que deixou o governo e denunciou tentativas de interferência política na corporação. Bolsonaro também pressionou pela substituição do superintendente da PF no Rio de Janeiro, onde tramitavam investigações envolvendo Flávio.
A Polícia Federal fluminense investigava suspeitas de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral relacionadas à declaração de bens do senador. A corporação também havia produzido elementos que deram origem à investigação das rachadinhas, envolvendo suspeitas de desvio de salários de funcionários do antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.
Em reunião ministerial gravada em 22 de abril de 2020, Bolsonaro associou mudanças na estrutura de segurança e investigação à proteção de familiares e aliados. Segundo declarações de Moro à época, o presidente queria substituir dirigentes da PF e obter acesso a informações de investigações. Depois da saída do ministro, o comando da superintendência do Rio foi trocado.
A pressão sobre órgãos federais também apareceu no caso das rachadinhas. Em agosto de 2020, Bolsonaro reuniu no Palácio do Planalto o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, o ministro Augusto Heleno e advogadas de Flávio para discutir formas de contestar a investigação. A PF identificou posteriormente iniciativas de monitoramento de auditores da Receita Federal associados ao caso.
O Ministério Público do Rio de Janeiro chegou a denunciar Flávio e outros investigados por suspeitas relacionadas ao esquema das rachadinhas. Entretanto, decisões do Superior Tribunal de Justiça e do STF anularam provas importantes, e a denúncia foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do Rio em maio de 2022, sem julgamento das acusações.
A suspeita de interferência de Jair Bolsonaro na PF foi investigada no Inquérito 4831. Em 2022, a PF concluiu não haver provas suficientes de ingerência criminosa. Em outubro de 2025, porém, o STF reabriu a investigação a pedido da Procuradoria-Geral da República, que considerou necessário aprofundar a apuração sobre o possível uso da estrutura do Estado para obter informações sigilosas e interferir em casos envolvendo familiares e aliados do ex-presidente.
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O que acontece com os inquéritos agora
As três investigações contra Flávio permanecem em diferentes estágios. No caso de "Dark Horse", a Polícia Federal ainda examina a origem e a destinação dos recursos. No inquérito das bets, as diligências financeiras avançaram e já resultaram em medidas cautelares. Na investigação por calúnia, a PF apontou indícios de crime, mas ainda não houve condenação.
Com a derrota presidencial, Flávio não terá a proteção constitucional temporária aplicável ao presidente da República por atos anteriores e estranhos ao mandato. Seu mandato no Senado termina em fevereiro de 2027, quando deixará de ocupar um cargo eletivo. A permanência de cada investigação no STF dependerá das regras de competência e da relação dos fatos apurados com o exercício de suas funções parlamentares.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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