EUA dão mostra de como pretendem ampliar atuação na América Latina

Principais pontos

  • Em uma semana, governo Trump restringiu vistos de autoridades, apoiou operação na Bolívia e avançou no redirecionamento de US$ 52 milhões em ajuda militar para quatro países da região.
  • Ações reforçam prioridade dada por Washington à região, semanas depois do secretário de Estado Marco Rubio visitar Colômbia, Equador e Peru para estreitar a cooperação com governos aliados.
  • Às vésperas da eleição brasileira, revelação sobre verba americana para iniciativa contra o STF levou a AGU a pedir investigação.
O secretário de Estado Marco Rubio e o presidente Donald Trump em evento em Nova York
O secretário de Estado Marco Rubio e o presidente Donald Trump em evento em Nova York
Source: Chip Somodevilla/ Getty Images/ AFP

Os Estados Unidos deram nesta semana uma amostra de como pretendem ampliar sua atuação na América Latina para defender os interesses definidos pelo governo de Donald Trump. Em poucos dias, Washington impôs restrições de visto a autoridades latino-americanas, apoiou uma operação contra o procurador-geral da Bolívia, avançou no redirecionamento de milhões de dólares em ajuda militar para governos da região e se viu no centro de uma controvérsia sobre o financiamento de uma iniciativa voltada a questionar a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil.

O movimento ocorre enquanto Trump busca ampliar a coordenação regional por meio do Escudo das Américas, coalizão liderada pelos EUA que reúne 18 países da América Latina e do Caribe. O Brasil não participa do grupo.

Por aqui, os movimentos de Washington chamam atenção de Brasília. O primeiro turno da eleição presidencial ocorre no domingo, 4. Nesta semana, Trump afirmou duas vezes que acompanha a disputa “de perto”, enquanto o governo brasileiro pediu a investigação de um possível financiamento americano a organizações no país.

As medidas dos últimos dias também dão sequência a uma aproximação conduzida diretamente pelo secretário de Estado, Marco Rubio. Em setembro, ele visitou Colômbia, Equador e Peru – que integram o Escudo das Américas – para aprofundar a cooperação com os três governos, principalmente no combate ao narcotráfico e ao crime organizado.

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Os três países estão entre os atingidos pelas restrições de vistos anunciadas nesta segunda-feira, 28. Eles estão entre os beneficiários da mudança na destinação de recursos militares americanos.

Vistos como instrumento de pressão

Na segunda-feira, 28, o Departamento de Estado anunciou restrições de visto contra 27 autoridades, ex-autoridades e outras pessoas da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, além de seus familiares. A medida inclui tanto a revogação de vistos já concedidos quanto o impedimento de novas concessões.

Washington relacionou as restrições a acusações de corrupção, narcotráfico e ações que, segundo o governo americano, prejudicam o combate ao crime e enfraquecem instituições democráticas. Os quatro países têm atualmente governos próximos à administração Trump.

A maior parte dos atingidos é da Bolívia. Entre eles estava o procurador-geral Roger Mariaca, acusado pelos Estados Unidos de receber propina para facilitar atividades relacionadas ao narcotráfico e ajudar criminosos a escapar da Justiça.

Mariaca negou as acusações e afirmou que a medida representava pressão política. Ele também conduzia investigações que envolviam Fernando Cerimedo, estrategista político argentino que assessorou o presidente boliviano, Rodrigo Paz, e foi responsável pela estratégia digital da campanha presidencial de Javier Milei em 2023. Cerimedo diz ter trabalhado em campanhas de Jair Bolsonaro no Brasil. No país, tem vínculos com a família Bolsonaro.

Dois dias depois das restrições de visto dos Estados Unidos, Mariaca foi preso pelas autoridades bolivianas.

O governo da Bolívia o investiga por organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Outras 13 pessoas foram detidas. As acusações ainda estão sob investigação.

A operação foi conduzida pelas autoridades bolivianas, com cooperação de agências norte-americanas. Depois da prisão, Rubio elogiou o governo Paz pelas medidas contra o narcotráfico, a corrupção e o crime organizado.

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A sequência provocou uma crise política na Bolívia. Na quinta-feira, 2, o vice-presidente Edmand Lara, que rompeu politicamente com Paz, afirmou que estaria sendo preparado um processo para prendê-lo e disse temer pela própria vida. Lara vinha cobrando explicações sobre a prisão de Mariaca.

Dinheiro militar muda de destino

Outro movimento mostra a mudança de prioridades da política externa americana.

O governo Trump decidiu levar adiante o redirecionamento de US$ 52 milhões em ajuda militar originalmente destinada a países da Europa e do Oriente Médio para Panamá, Peru, Equador e Colômbia.

Os recursos tinham sido destinados a Eslováquia, Macedônia do Norte, Tunísia e Iraque. Parlamentares democratas tentaram bloquear a transferência, argumentando que as verbas foram aprovadas pelo Congresso para outros objetivos.

O Departamento de Estado defendeu a decisão afirmando que ela está de acordo com a prioridade concedida pelo governo Trump ao Hemisfério Ocidental e com sua estratégia de combate ao narcotráfico.

Os quatro países beneficiados pelos recursos participam do Escudo das Américas. Em setembro, 15 integrantes concordaram em adotar medidas coletivas contra 24 organizações que Washington classificou como “narcoterroristas”. Estão na lista PCC e CV.

Brasil entra no debate

Enquanto Washington ampliava suas ações na região, uma reportagem do jornal britânico The Guardian colocou o Brasil no centro de outra controvérsia.

O jornal revelou que o governo Trump redirecionou recursos do Fundo de Direitos Humanos e Democracia, do Departamento de Estado, para iniciativas alinhadas a pautas conservadoras em diferentes países.

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Entre elas está um projeto de US$ 1 milhão denominado “Combate ao lawfare e à censura no Brasil”, destinado a organizações da sociedade civil que questionam o que consideram excessos do Judiciário brasileiro e restrições à liberdade de expressão.

A reportagem aponta uma mudança mais ampla na utilização do fundo. Segundo o Guardian, mais de US$ 175 milhões foram redirecionados para iniciativas que refletem prioridades ideológicas do atual governo americano. Rubio teria atuado pessoalmente para superar bloqueios no Congresso a parte dos repasses.

A existência do projeto não comprova que o dinheiro tenha sido utilizado para financiar candidatos ou partidos brasileiros nem, por si só, que tenha ocorrido interferência na eleição.

Diante das informações, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal (MPF) que investiguem o caso e identifiquem eventuais responsáveis e organizações brasileiras que possam ter recebido recursos.

A preocupação com uma possível interferência americana também chegou ao Congresso dos Estados Unidos. Parlamentares democratas cobraram explicações do governo Trump e garantias de que Washington respeitaria a escolha dos eleitores brasileiros. O governo norte-americano nega que esteja tentando influenciar a votação.

Trump acompanha eleição “de perto”

É nesse ambiente que as declarações de Trump sobre o Brasil ganharam peso nesta semana.

Na quinta-feira, 1º, o presidente americano afirmou que a eleição brasileira é “muito importante” e disse que acompanha a disputa “muito de perto”.

Nesta sexta-feira, voltou ao assunto. Questionado se apoiaria Flávio Bolsonaro, não declarou apoio ao candidato e afirmou estar analisando a situação e acompanhando os acontecimentos.

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Também nesta sexta, os Estados Unidos suspenderam os serviços presenciais na embaixada em Brasília e nos consulados no país, alegando preocupações de segurança sem informar qual seria a ameaça. A Austrália também fechou sua embaixada em Brasília e orientou seus cidadãos a evitar instalações diplomáticas americanas.

Washington não relacionou oficialmente a suspensão dos serviços à eleição de domingo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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