Após seis meses de guerra, Irã e EUA travam disputa de resistência e pressão econômica

Principais pontos

  • Regime iraniano sobreviveu aos ataques, mas o país enfrenta forte deterioração econômica.
  • O Estreito de Ormuz segue no centro da guerra, pressionando o petróleo, o comércio e as relações dos EUA com os países do Golfo.
  • Trump aposta em sanções para forçar Teerã a ceder, enquanto uma saída diplomática de curto prazo ainda parece distante.
Imagem aérea do Estreito de Ormuz
Imagem aérea do Estreito de Ormuz
Source: Nasa/Divulgação

Seis meses depois do ataque conjunto que causou a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o regime no país continua de pé. E os Estados Unidos ainda não conseguiram transformar a superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Ao longo do tempo, o conflito passou por momentos de queda e alta de intensidade. Houve cessar-fogos e um memorando de entendimento em junho, mas nenhum deles produziu uma paz definitiva; agora, com o Estreito de Ormuz praticamente fechado e Washington ampliando as sanções, a guerra entra em uma fase em que a pressão econômica substitui a expectativa de uma vitória bélica rápida.

Para Leandro Consentino, professor de Relações Internacionais do Insper, o conflito também mudou o cálculo político de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, principalmente o de Trump.

Na quarta-feira, 26, Irã e Omã firmaram um acordo para criar um corredor marítimo temporário no Estreito de Ormuz, que visa liberar a passagem de embarcações comerciais pelas águas iranianas e omanenses.

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É importante estabelecer, porém, que o anúncio ainda não representa uma reabertura plena da rota. À Reuters, uma fonte iraniana afirmou que os detalhes do acordo seguem sendo negociados, enquanto autoridades dos dois países falavam em estabelecer uma passagem temporária e retirar minas da região. O entendimento também prevê uma discussão sobre a administração futura da via e sobre a divisão das receitas entre Irã e Omã.

Isso importa porque Ormuz ainda é o principal instrumento de pressão de Teerã e, ao mesmo tempo, o maior entrave econômico que a guerra gestou. Antes do conflito, cerca de um quinto do petróleo e do gás liquefeito transportados por via marítima no mundo passava pelo estreito. Desde fevereiro, o movimento de navios despencou e, apesar de períodos de recuperação durante as tréguas, os fluxos continuam muito abaixo do nível anterior à guerra.

Segundo dados da Kpler, empresa de inteligência especializada no rastreamento do comércio mundial de commodities, as importações asiáticas de petróleo do Oriente Médio em agosto ficaram cerca de 14% abaixo da média dos três meses anteriores ao conflito.

Há cerca de 6 mil marítimos presos na região do Golfo, segundo estimativas divulgadas nas últimas semanas, enquanto companhias de navegação continuam evitando ou reduzindo operações pelo estreito. A Agência Internacional de Energia afirma que a interrupção das exportações do Golfo e os preços mais altos de combustíveis já estão afetando a demanda mundial por petróleo e as cadeias internacionais de abastecimento.

A escalada até aqui

O ataque de 28 de fevereiro não veio do nada. Em junho de 2025, oito meses antes do início da atual guerra, Israel lançou uma campanha contra instalações nucleares e militares iranianas. O conflito, conhecido como Guerra dos 12 Dias, terminou em 24 de junho, depois que os Estados Unidos atacaram três instalações nucleares iranianas. A trégua não resolveu a questão central: o programa nuclear iraniano continuou sendo o principal ponto de disputa entre Teerã, Washington e Jerusalém.

Meses depois, as negociações não produziram um acordo e Estados Unidos e Israel decidiram atacar novamente. Em 28 de fevereiro de 2026, os dois países lançaram operações simultâneas contra o Irã, batizadas de Roaring Lion por Israel e Epic Fury pelos Estados Unidos. Khamenei foi morto no primeiro dia, junto com outros integrantes da cúpula iraniana, e os ataques atingiram instalações militares e nucleares. O objetivo americano e israelense incluía reduzir a capacidade militar e nuclear iraniana e, segundo autoridades dos dois países, produzir uma mudança política em Teerã.

Em abril, Estados Unidos e Irã aceitaram um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão. Em junho, os dois lados chegaram a um novo memorando, que previa o fim das operações militares, a retirada progressiva do bloqueio naval americano, a retomada do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz e negociações para um acordo definitivo em até 60 dias. O prazo passou sem um tratado de paz.

Dentro do Irã, a guerra se sobrepôs a uma crise política e econômica que já vinha de antes. Os protestos iniciados no fim de dezembro de 2025, depois da forte desvalorização do rial e do agravamento da crise econômica, foram reprimidos pelo governo. Organizações de direitos humanos registraram milhares de mortos, mas o número exato permanece objeto de disputa porque houve apagões de internet e dificuldade de verificação independente.

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O que não aconteceu foi justamente o que Washington e Israel pareciam esperar: a morte de Khamenei, a destruição de parte importante da estrutura militar iraniana e a pressão econômica não produziram o colapso do regime. O Irã continuou funcionando, reorganizou sua liderança e manteve capacidade de lançar mísseis e drones, ainda que tenha sofrido perdas militares muito grandes.

Ormuz, ponto de pressão permanente

É difícil entender a situação atual sem olhar para o Estreito de Ormuz. Por ali passava, antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás liquefeito transportados por via marítima no mundo. O fechamento da rota reduziu drasticamente os embarques do Golfo, obrigou produtores a procurar caminhos alternativos e levou países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos a acelerar projetos de oleodutos que permitem exportar petróleo sem depender integralmente do estreito.

O petróleo também passou a refletir essa incerteza. Houve momentos de disparada, mas os preços caíram durante a trégua de junho e voltaram a subir à medida que a situação se deteriorou. Em agosto, o Brent chegou a ser negociado perto dos US$ 90, e a Reuters calculava o preço cerca de 25% acima do nível anterior à guerra.

No Brasil, o efeito passa pelo petróleo, pelos derivados, pelo frete e pelo comércio exterior. O país é exportador líquido de petróleo, o que reduz parte do impacto externo, mas também importa derivados e está exposto à formação internacional dos preços. Do lado das exportações, a guerra também afetou o comércio com o Oriente Médio: em março, os embarques brasileiros de milho para o Irã despencaram, enquanto as exportações de frango para o país ficaram zeradas naquele mês.

Para Consentino, o impacto regional vai além do mercado de energia e envolve uma reorganização dos alinhamentos geopolíticos.

“Teve uma reorganização importante do ponto de vista geopolítico, apoios de lado a lado que talvez tenham se tornado mais importantes ou mais relevantes dentro disso.” 

A relação entre os Estados Unidos e os países do Golfo também ficou mais frágil, avalia o professor.

O cálculo político dos dois lados

Em Washington, a expectativa inicial de uma guerra relativamente curta deu lugar a uma disputa econômica prolongada, e o governo de Donald Trump passou a apostar cada vez mais em sanções para cortar as fontes de receita iranianas. 

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Em agosto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que os Estados Unidos preparavam o que chamou de as sanções mais duras já impostas ao Irã e disse explicitamente que a combinação entre bloqueio e pressão econômica levaria ao colapso do regime, uma aposta que, embora aumente a pressão sobre uma economia já devastada, também tem limites.

O Irã passou décadas aprendendo a operar sob sanções, o rial, moeda do país, atingiu novas mínimas e a inflação disparou, enquanto a China continua sendo um comprador fundamental do petróleo iraniano e Washington precisa decidir até onde está disposto a pressionar empresas e instituições chinesas para fechar as rotas de evasão.

É nesse ambiente que o cálculo político de Donald Trump também mudou. No início, uma vitória rápida poderia render dividendos eleitorais nas eleições parlamentares de novembro; seis meses depois, porém, a duração do conflito e seus efeitos sobre a economia tornaram o resultado menos previsível.

“Só que há outro lado, e por isso o cálculo é ambíguo: como o conflito se estendeu e não foi tão fácil quanto ele imaginava, isso também pode ter gerado um problema do ponto de vista econômico, agravado pela questão do petróleo, que pode acabar custando caro para ele nas eleições parlamentares”, analisa o professor do Insper.

Para Benjamin Netanyahu, diz Consentino, a lógica é diferente e está mais diretamente ligada à sobrevivência política do primeiro-ministro israelense.

Mas a mesma guerra que pode ajudar a sustentar um governo também pode se tornar um problema político conforme o custo aumenta. “E a medida que esse conflito se delonga, se desgasta e produz mais baixas, isso pode custar caro para ele também.”

Em Teerã, por outro lado, a sobrevivência do regime virou argumento de negociação. O governo iraniano pode dizer que os Estados Unidos conseguiram destruir instalações e matar integrantes da liderança, mas não conseguiram derrubar o sistema político. A questão agora é quanto cada lado está disposto a pagar para continuar sustentando essa posição: para os Estados Unidos, o custo é militar, econômico e político; para o Irã, é sobretudo econômico, além da destruição provocada pelos ataques e do isolamento internacional.

É nesse ponto que o Estreito de Ormuz volta ao centro da história. O corredor negociado com Omã pode ser um primeiro passo para reduzir a pressão sobre o comércio e permitir a retirada de milhares de marítimos, mas ainda não resolve a disputa entre Washington e Teerã sobre quem controla a passagem, quem garante a segurança dos navios e quais sanções serão suspensas.

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Seis meses depois, portanto, o resultado é menos uma vitória de um lado do que um impasse caro. Os Estados Unidos e Israel conseguiram atingir profundamente a estrutura militar iraniana e eliminaram Khamenei, mas não produziram a mudança de regime que estava entre seus objetivos; o Irã sobreviveu politicamente, mas está economicamente devastado e ainda tenta recuperar alguma capacidade de negociação.

Para Consentino, a relação entre Washington e Teerã deve continuar marcada por períodos de pressão e descompressão, sem uma mudança estrutural no curto prazo.

“As perspectivas são bastante complicadas. Vai persistir uma relação bastante conflituosa, de idas e vindas entre momentos de descompressão e de maior pressão, mas nada que seja construtivo no curto prazo.” 

A mudança, na avaliação dele, dependeria principalmente de alterações no cenário político americano e iraniano. “No geral, teremos períodos de bastante fragilidade nessa relação, que só tendem a mudar com a mudança de governo dos dois lados.”

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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