Ministério da Fazenda eleva projeção de inflação de 2026 para 5,1%, acima do teto da meta
Principais pontos
- Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica avaliou os efeitos inflacionários do o super El Niño nos preços dos alimentos e da energia no Brasil e na América Latina
- Incertezas geopolíticas, com o desdobramento da guerra entre o Irã e os Estados Unidos, segue no radar
- No Brasil, a atividade econômica segue em expansão, mas a projeção é de desaceleração do PIB no segundo trimestre de 2026

A Secretaria de Política Econômica, do Ministério da Fazenda, incorporou às projeções do Boletim Macrofiscal os efeitos das novas tarifas às importações de produtos brasileiros pelos Estados Unidos em seu Boletim Macrofiscal, divulgado nesta quarta-feira, dia 15.
Na avaliação do cenário externo, a SPE menciona as novas tarifas, os desdobramentos da guerra entre os Estados Unidos e o Irã, além dos efeitos do super El Niño, como riscos que podem pressionar a inflação de alimentos e de energia, especialmente nas regiões da América Latina e da Ásia. A secretária de Política Econômica, Debora Freire, disse que o governo “tem mais clareza” da intensidade do El Niño. O evento climático ocorre quando os ventos alísios do Pacífico Tropical enfraquecem e o oceano aquece, como consequência tende a provocar seca e severo calor em várias partes do mundo.
Incertezas geopolíticas
O documento avalia que as incertezas geopolíticas não foram totalmente eliminadas. A assinatura de um acordo de trégua entre Estados Unidos e Irã ajudou a reduzir os riscos externos associados ao choque de oferta do petróleo. O preço da commodity recuou no começo de março, mas a retomada dos conflitos e a escalada dos ataques reverteu essa tendência de queda no preço do petróleo. O desdobramento da guerra não foi incorporado ao cenário-base, mas o SPE destaca a existência do risco altista relevante para os preços de energia e baixista para a atividade mundial.
No Brasil, o boletim informa que a atividade econômica segue em expansão, mas a projeção é de desaceleração do PIB no segundo trimestre de 2026. Essa moderação deve-se mais à composição do crescimento, ou seja, o impulso da economia registrado no primeiro trimestre, puxado pelo setor agrícola, já está consolidado e não deve se dissipar para o segundo trimestre.
A perda de tração do crédito no trimestre encerrado em maio é outro fator de destaque entre os vetores contrários à aceleração da atividade. Junto à redução do crédito, a inadimplência voltou a subir, em meio a um ambiente de juros reais elevados, além do amplo comprometimento da renda das famílias. Para o ano, a projeção de crescimento do PIB segue em 2,3%, sustentada pela recomposição setorial, especialmente da agropecuária, que foi revisada de 1,2% para 1,8%.
Juros restritivos por mais tempo
A economia dos EUA mantém sinais de resiliência, enquanto a inflação permanece acima da meta. Com a maior resiliência da inflação, o banco central americano (Federal Reserve) elevou as expectativas de juros nos EUA. Na Zona do Euro, o cenário é de estabilização gradual da atividade em meio à inflação persistente e juros elevados. Na China, a força da indústria contrasta com fraqueza da demanda doméstica. Diante desse conjunto de fatores, persistência inflacionária, pressões cambiais e a postura mais dura do Fed tendem a manter os bancos centrais da região mais cautelosos, com juros restritivos por mais tempo.
Inflação
No boletim, as projeções de inflação para 2026 foram revisadas para cima. A revisão do IPCA de 2026, de 4,5% para 5,1%, decorre apenas em parte dos dados já divulgados, com serviços e bens industriais, excluído o etanol, acelerando acima do projetado.
A aceleração projetada reflete os seguintes efeitos: a segunda ordem do choque do petróleo, o repasse ainda pendente da alta do IPA industrial aos preços ao consumidor, a expectativa de alimentos mais pressionados no segundo semestre do que na projeção anterior, diante da possibilidade de um El Niño mais intenso, e a piora das expectativas de mercado para o IPCA, que passaram de 4,9% para 5,3% no Focus para 2026.
Entre os fatores que contribuem para conter a inflação, o relatório cita a manutenção da Selic em patamar contracionista ao longo do ano e a desaceleração esperada da atividade econômica, além das medidas adotadas para limitar o repasse do aumento dos combustíveis ao mercado doméstico.
Já para 2027, o IPCA foi revisado de 3,5% para 3,6%. Para o INPC, a projeção de 2026 saiu de 4,6% para 5,3%, refletindo o maior peso de alimentos no índice. Para o IGP-DI, a projeção passou de 4,9% para 5,6%, em razão da alta acima do esperado no atacado em abril e maio.
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