Colômbia se torna o quarto país a permitir operações militares dos EUA em seu território
Principais pontos
- Colômbia autoriza operações militares conjuntas com os EUA contra grupos ligados ao narcotráfico.
- Decisão amplia uma estratégia regional de Trump que já envolve Equador, Guatemala e Honduras.
- Aproximação militar sinaliza uma política mais intervencionista de Washington na América Latina.

Os Estados Unidos anunciaram que pretendem realizar operações militares conjuntas com a Colômbia contra grupos ligados ao narcotráfico, a pedido do recém-empossado presidente colombiano, Abelardo de la Espriella.
A informação foi dada pelo secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth, durante uma reunião do “Escudo das Américas”, coalizão antidrogas liderada por Trump e que tem a Colômbia como mais novo membro. Não há, por enquanto, data para início das ações.
“Colômbia já solicitou que o Departamento de Guerra se junte à Colômbia em sua luta contra o narcoterrorismo, autorizando operações militares conjuntas para destruir os terroristas e as redes de terror”, afirmou o chefe do Pentágono. A declaração de Hegseth foi divulgada nesta quarta-feira, 12, durante reunião da Americas Counter-Cartel Coalition, em curso no Panamá.
A solicitação de Espriella aos Estados Unidos cumpre uma promessa feita ainda na campanha: combater, nas palavras do presidente durante a posse, “sem trégua o narcoterrorismo e todas as organizações criminosas no país”. No mesmo dia, os Estados Unidos anunciaram a destinação de US$ 1 bilhão à Colômbia para ações na área de segurança.
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Roteiro regional
O anúncio de Hegseth não estabelece, por enquanto, uma data ou um plano operacional detalhado para as ações. O que foi tornado público é a autorização para operações militares conjuntas entre forças americanas e colombianas contra organizações classificadas por Washington como terroristas e ligadas ao narcotráfico.
A iniciativa amplia para a Colômbia um modelo que já começou a ser aplicado no Equador. Em março, forças equatorianas e americanas iniciaram operações conjuntas contra organizações designadas como terroristas pelos Estados Unidos. O presidente Daniel Noboa havia anunciado que as ações ocorreriam ao longo daquele mês e apresentado a operação como uma nova fase do combate ao narcoterrorismo.
No caso colombiano, ainda não foram divulgados os alvos, o número de militares envolvidos, a área de atuação ou o formato das operações. A declaração de Hegseth, portanto, estabelece a autorização política para a cooperação militar, mas não detalha como ela será executada.
A adesão colombiana ao Escudo das Américas segue um roteiro que já tem precedentes na região. A coalizão, batizada oficialmente de Americas Counter-Cartel Coalition (A3C), nasceu em março deste ano e hoje reúne 19 países latino-americanos sob liderança de Washington. A iniciativa foi criada a partir da conferência realizada em março, quando 17 países se comprometeram a ampliar a cooperação militar contra cartéis e organizações criminosas.
O Equador foi o primeiro a transformar a coalizão em ação militar concreta. Em 3 de março, forças equatorianas e americanas iniciaram operações conjuntas contra organizações classificadas como terroristas pelos Estados Unidos. Dias depois, o governo de Daniel Noboa confirmou que uma operação aérea em Sucumbíos, na fronteira com a Colômbia, havia sido realizada com apoio americano.
Na Guatemala, o processo avançou de forma diferente. Em maio, o governo de Bernardo Arévalo solicitou aos Estados Unidos cooperação em operações conduzidas pelas forças guatemaltecas contra organizações de narcotráfico. O New York Times informou, citando pessoas familiarizadas com as negociações, que Arévalo havia concordado com ataques aéreos e outras ações militares conjuntas. O governo guatemalteco, porém, contestou a existência de um acordo que autorizasse operações militares estrangeiras em seu território e afirmou que o pedido estava dentro dos acordos bilaterais já existentes.
Honduras também vinha sendo pressionada por Washington a aceitar uma cooperação militar semelhante. Em junho, o Comando Sul americano tratava a expansão da parceria de defesa com o país como parte da implementação da coalizão. Agora, no entanto, Hegseth afirma que Honduras e Colômbia concordaram em iniciar operações conjuntas com os Estados Unidos.
A sequência mostra que a coalizão deixou de ser apenas uma plataforma diplomática. No Equador, operações conjuntas já ocorreram; Guatemala avançou em pedidos de cooperação, embora tenha contestado publicamente a existência de uma autorização para operações americanas; e Honduras e Colômbia passaram agora a ser apresentadas por Washington como novos parceiros para ações militares conjuntas.
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Significado estratégico
A expansão da cooperação militar ocorre dentro de uma mudança mais ampla na política americana para a América Latina.
Ao GSW Brasil, a cientista política Denilde Holzhacker, professora da ESPM, explica por que a Colômbia aceitou tão rapidamente o pedido americano.
“Trump tem demonstrado como o alinhamento com Washington pode gerar contrapartidas aos países aliados. No plano retórico, Trump utiliza sua capacidade de mobilização para respaldar aliados ou pressionar adversários, indicando que recursos americanos serão direcionados a quem apoiar sua agenda. Por outro lado, governos alinhados a posições opostas enfrentam pressões diplomáticas, tarifas e sanções, como se observa nas relações com o Brasil, o México e o Canadá.”
A mudança também aparece nos documentos oficiais de Washington. Em março, durante a primeira conferência da coalizão, Hegseth afirmou que os Estados Unidos estavam dispostos a combater os cartéis sozinhos, se necessário, mas que a preferência de Washington era atuar em conjunto com os governos da região. Na mesma ocasião, apresentou a iniciativa como uma forma de reforçar a Doutrina Monroe.
A Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca em dezembro cita a Doutrina Monroe como referência explícita para a política americana no continente. O documento de março que criou formalmente a Americas Counter-Cartel Coalition também deixa explícita essa orientação.
A Casa Branca afirma que os Estados Unidos pretendem treinar e mobilizar forças militares de países parceiros para desmontar cartéis e organizações terroristas e estabelece como objetivo manter afastadas “influências malignas” externas ao hemisfério.
Além da coalizão antidrogas
A lista de países onde os Estados Unidos ampliaram presença ou influência nos últimos meses vai além da coalizão antidrogas. Na Venezuela, o governo apoiado por Washington, chefiado por Delcy Rodríguez, segue como exemplo de parceria estratégica em uma nação que durante décadas manteve relações marcadas por forte antagonismo com os interesses americanos.
Na Argentina, a proximidade entre Trump e Javier Milei também se traduziu em uma aproximação militar. Em abril, o presidente argentino participou de exercícios navais combinados a bordo do porta-aviões USS Nimitz, no Atlântico Sul. A atividade ocorreu no âmbito do exercício Passex 2026 e incluiu uma demonstração de aeronaves americanas.
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Além disso, o governo argentino autorizou, por decreto publicado em abril, a entrada de meios e pessoal das Forças Armadas dos Estados Unidos para a participação no exercício Daga Atlántica, realizado em território argentino entre abril e junho. O decreto previa operações em áreas terrestres, aéreas, marítimas e fluviais e estabelecia que a atividade teria como objetivo ampliar a interoperabilidade entre as forças dos dois países.
Ao El País, Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Diálogo Interamericano, um dos centros de análise mais influentes de Washington sobre política hemisférica, afirma que entender os limites dessa escalada exige abandonar a lógica jurídica. “Os obstáculos à intervenção militar não estão relacionados a fatores legais ou jurídicos, porque estes não têm peso para esta administração. O que eles estão medindo são os fatores práticos: no caso de Cuba, uma intervenção poderia gerar uma situação totalmente caótica ou uma onda migratória massiva”, explica ele.
Shifter afirma que a agenda antes comum de fortalecimento institucional e defesa dos direitos humanos entre os EUA e a América Latina foi completamente marginalizada em favor de uma estratégia agressiva focada na segurança e no combate ao narcotráfico. “Toda a abordagem voltada para o fortalecimento das instituições e a proteção dos direitos humanos foi suplantada, se não totalmente eliminada. Washington essencialmente deu sinal verde para qualquer projeto autoritário que um líder latino-americano possa empreender”, alerta Shifter.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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