Violência doméstica leva 15 mulheres por dia a hospitais no Brasil
Principais pontos
- Estudo liderado pela Unifesp analisou 90.798 internações registradas pelo SUS entre 2008 e 2023.
- Mais de oito em cada 10 internações foram de urgência, e cerca de dois terços ocorreram em leitos cirúrgicos.
- Pesquisa encontrou relações entre o tipo de agressão e as lesões, como ferimentos em mãos e punhos associados ao uso de objetos cortantes.

A violência doméstica levou, em média, cerca de 15 mulheres por dia a internações em hospitais brasileiros entre 2008 e 2023. O dado faz parte de um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que analisou 90.798 hospitalizações de mulheres de 20 a 59 anos registradas no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS) com diagnósticos relacionados à violência.
Publicado na revista científica “Ciência & Saúde Coletiva”, o estudo “Análise de padrões da violência contra mulheres no Brasil: uma abordagem com aprendizado de máquina não supervisionado” reúne ainda pesquisadores ligados ao Hospital São Paulo e à Fiocruz Mato Grosso do Sul.
Mais do que dimensionar as hospitalizações, os pesquisadores utilizaram técnicas de Inteligência Artificial (IA) para procurar relações que poderiam passar despercebidas em uma base de dados tão extensa. A análise permitiu associar determinados tipos de lesão aos mecanismos de agressão e identificar nove perfis diferentes de internação.
Mais de oito em cada dez internações foram de urgência
A gravidade dos casos aparece nas características do atendimento. Das 90.798 internações analisadas, 81,87% ocorreram em caráter de urgência e 67,17% foram em leitos cirúrgicos.
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As mulheres de 20 a 29 anos responderam por 34,42% das internações e as de 30 a 39, por 30,44%. Outros 21,21% dos registros eram de pacientes de 40 a 49 anos e 13,93%, de mulheres entre 50 e 59 anos. Assim, quase 65% das hospitalizações se concentraram entre 20 e 39 anos, embora os casos graves apareçam em todas as faixas etárias incluídas na pesquisa.
Em relação à raça ou cor, 35,57% das mulheres foram registradas como pardas, 20,49% como brancas e 4,37% como pretas. Há, no entanto, uma lacuna importante nos dados: em 38,29% das internações, essa informação foi ignorada ou não preenchida.
São Paulo, Bahia e Minas Gerais concentraram juntos 46% dos casos em números absolutos. Quando os pesquisadores consideraram as taxas populacionais, o Rio Grande do Norte apresentou a maior média, de 17,49 internações por 100 mil habitantes, seguido pelo Pará, com 6,49 por 100 mil.
Os autores alertam que essas diferenças não permitem concluir simplesmente que há mais violência nos Estados com taxas mais elevadas. Os números podem ser influenciados pela prevalência das agressões, mas também pelo acesso aos serviços de saúde, pela cobertura assistencial e pela maneira como os casos são registrados.
Como foi feito o estudo
Os pesquisadores partiram de 193,4 milhões de internações registradas pelo SUS entre 2008 e 2023. Desse universo, 828.264 continham códigos relacionados à violência e 144.140 correspondiam a mulheres. Depois da aplicação do recorte etário de 20 a 59 anos, a amostra ficou em 90.798 internações.
A equipe utilizou aprendizado de máquina não supervisionado, uma modalidade de inteligência artificial na qual o sistema procura padrões e agrupamentos nos próprios dados, sem receber previamente categorias nas quais cada caso deva ser encaixado.
Uma das técnicas empregadas foi o algoritmo Apriori, usado para descobrir quais diagnósticos apareciam associados com frequência acima do esperado. Dessa forma, os pesquisadores puderam verificar relações entre determinados ferimentos e o mecanismo de agressão registrado na internação.
A segunda técnica foi o LDA (Latent Dirichlet Allocation), método que permitiu agrupar combinações recorrentes de características das hospitalizações — como idade, raça ou cor, Estado, tipo de leito, urgência, diagnóstico e procedimento realizado. Os pesquisadores testaram de dois a 15 agrupamentos e chegaram a nove perfis como a divisão que melhor representava os padrões encontrados na base.
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Lesões nas mãos podem indicar tentativa de defesa
Uma das relações mais fortes encontradas no estudo envolve traumatismos de músculos e tendões do punho e da mão e agressões com objetos cortantes ou penetrantes. Entre os registros com esse tipo de traumatismo, 69,5% também apresentavam o código correspondente à agressão com objeto cortante ou penetrante.
Segundo os pesquisadores, o padrão pode estar relacionado ao movimento instintivo de colocar as mãos ou os braços à frente do corpo para se defender durante um ataque, mecanismo já descrito em estudos de medicina legal.
Também foi encontrada uma associação entre fraturas do crânio e dos ossos da face e agressões por força corporal: 61,05% dos registros com esse tipo de fratura estavam associados a esse mecanismo. Os autores observam que lesões craniofaciais estão entre os padrões reconhecidos em agressões diretas e repetidas relacionadas a situações graves de violência doméstica.
Ferimentos do tórax também apareceram associados a agressões com objetos cortantes ou penetrantes em 59,01% dos registros da respectiva regra. Nos casos de traumatismo intratorácico, a proporção foi de 57,28%.
Essas relações são estatísticas. Elas não significam que uma determinada lesão seja suficiente, isoladamente, para estabelecer como ocorreu uma agressão, mas mostram combinações que aparecem de forma recorrente nas internações analisadas.
Perfis mostram diferentes formas de violência
Outra etapa do estudo separou as hospitalizações em nove perfis recorrentes, mostrando que os casos que chegam aos hospitais apresentam características bastante diferentes.
O grupo mais frequente, responsável por 17,2% das internações, reuniu principalmente mulheres de 20 a 29 anos atendidas com urgência e submetidas a procedimentos cirúrgicos por politraumatismos ou a toracostomia com drenagem pleural, procedimento para retirar ar ou líquido do espaço ao redor dos pulmões. Nesse perfil predominavam mulheres pardas e apareciam diagnósticos de agressão por objeto cortante ou penetrante e traumatismo intratorácico.
Outro grupo, com 13,5% dos casos, reuniu principalmente internações em São Paulo e Minas Gerais, em caráter de urgência, por traumatismos de localização não especificada, agressões por força corporal ou ferimentos múltiplos.
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A análise também encontrou um perfil formado por mulheres de 40 a 59 anos, equivalente a 10,8% dos casos. Nele predominavam mulheres brancas de São Paulo e Santa Catarina internadas em leitos cirúrgicos depois de agressões por força corporal ou com objetos contundentes.
Um grupo menor, correspondente a 5,5% das internações, reuniu alguns dos quadros mais graves. Eram principalmente mulheres pardas de São Paulo e Ceará, com registros de agressão por arma de fogo ou exposição a substâncias tóxicas. Nesse perfil apareceram tratamento por envenenamento ou cirurgias de emergência, necessidade de UTI e evolução para morte.
Casos que não chegam à internação ficam fora da conta
A taxa de internações por violência contra mulheres se estabilizou a partir de 2012, oscilando entre 2,6 e 3,2 por 100 mil habitantes. Os pesquisadores apontam que esse comportamento pode estar relacionado a avanços na legislação e à ampliação da rede de atendimento às mulheres, mas ressaltam que parte expressiva da violência permanece invisível para os sistemas de saúde.
Esse é um ponto importante para interpretar os números. A pesquisa analisou exclusivamente internações hospitalares registradas no SIH-SUS. Portanto, não entram nas 90.798 ocorrências mulheres atendidas em pronto-atendimento sem internação, na atenção primária nem aquelas que não chegaram ao sistema de saúde.
Os próprios autores citam a subnotificação e o preenchimento inadequado dos códigos de diagnóstico entre as limitações do levantamento. Mudanças ao longo dos anos ou diferenças entre Estados também podem refletir alterações na qualidade dos registros, no acesso e na oferta de serviços, e não necessariamente uma variação real da violência.
Por isso, a média de cerca de 15 por dia representa internações registradas no universo analisado pelo estudo, e não a totalidade das mulheres vítimas de violência doméstica no país.
Dados podem ajudar profissionais a reconhecer situações de risco
Ao encontrar combinações recorrentes entre ferimentos, mecanismos de agressão e características das pacientes, os pesquisadores avaliam que esse tipo de análise pode contribuir para aprimorar a vigilância em saúde e auxiliar na identificação de grupos que exigem diferentes formas de atendimento.
O trabalho também pode servir de base para discussões futuras sobre sistemas de informação e ferramentas de apoio à decisão. Os autores destacam especialmente o potencial de utilização dessas informações na Atenção Primária à Saúde, além do planejamento de serviços e de políticas públicas de prevenção.
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O estudo, porém, não criou uma ferramenta capaz de prever individualmente se uma mulher sofrerá uma nova agressão. O que a pesquisa faz é identificar e organizar padrões clínicos e epidemiológicos presentes em milhares de internações, que poderão subsidiar o desenvolvimento futuro de instrumentos de vigilância e análise em saúde.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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