Terremoto na Colômbia mobiliza apoio internacional e impõe primeiro teste decisivo a Espriella
Principais pontos
- Na manhã de segunda-feira, 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia
- O desastre ocorreu apenas 72 horas após a posse do novo presidente, Abelardo de la Espriella
- Em uma resposta rápida, o mandatário decretou estado de desastre nacional para acelerar a liberação de orçamentos de emergência

Foram necessárias menos de 72 horas após a posse presidencial para que o novo governo da Colômbia enfrentasse sua primeira grande crise.
Na manhã de segunda-feira, 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste do país, deixando um rastro de destruição e um balanço provisório que já supera 240 mortos, mais de mil feridos e centenas de pessoas desaparecidas, segundo informações da AFP publicadas com base em dados da Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD) e das autoridades locais.
Advogado de 48 anos e sem experiência prévia em cargos públicos eletivos ou no comando de governos, Abelardo de la Espriella assumiu o poder após erguer sua campanha sobre plataformas rígidas, defendendo bandeiras como a do combate intransigente a grupos armados, corte de gastos públicos, alinhamento automático com os Estados Unidos e a promessa de descentralizar a administração nacional. Mas o desastre natural o forçou a mudar suas prioridades imediatas e assumir no ato a articulação do resgate e do socorro às vítimas.
O sismo foi classificado pelo Serviço Geológico Colombiano (SGC) e pelo USGS americano como o mais potente registrado no território colombiano na última década.
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O epicentro ocorreu nas proximidades de San José del Palmar, no departamento de Chocó, a aproximadamente 100 quilômetros de profundidade, e repercutiu com intensidade nas cidades de Cali, Pereira, Manizales e Quibdó, sendo sentido inclusive na capital Bogotá e em países vizinhos como Equador, Panamá e Venezuela.
Em diversas regiões, edifícios residenciais e comerciais sofreram colapsos estruturais, hospitais perderam capacidade operativa e aeroportos precisaram interromper voos.
Entre os municípios afetados, Cali e Pereira registram o maior volume de danos e vítimas fatais. Na capital de Risaralda, bairros inteiros e estabelecimentos comerciais sofreram desabamentos parciais, enquanto em Manizales uma das torres da catedral histórica desmoronou.
O quadro é também dramático em Chocó, região historicamente vulnerável pela pobreza e pela presença de facções criminosas, onde comunidades isoladas continuam sem energia e com rotas de acesso bloqueadas.
No departamento de Valle del Cauca, o Hospital Universitario del Valle Evaristo García teve parte de sua estrutura comprometida, obrigando equipes médicas a improvisar tendas de atendimento nos estacionamentos para socorrer feridos.
Primeiro teste de fogo
Espriella cumpria agenda regional em Medellín no momento do tremor. Em uma resposta rápida, o mandatário convocou o Comitê Nacional de Gestão de Desastres, determinou a instalação de Postos de Comando Unificado em pontos estratégicos e decretou estado de desastre nacional para acelerar a liberação de orçamentos de emergência.
O presidente esteve em Quibdó e Cali nas primeiras horas após a tragédia e programou deslocamentos para Pereira e Manizales.
A urgência do momento colocou a nova gestão diante de uma sinuca técnica. O braço operacional da resposta está sendo conduzido pela UNGRD, órgão cuja estrutura administrativa e corpo diretivo Espriella ainda não havia tido tempo de reformular, herdando integralmente a equipe da gestão anterior. A capacidade de entrosamento entre os novos nomes do Palácio de Nariño e o escalão técnico da agência passa a ser um teste decisivo para avaliar a fluidez do socorro.
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Diante do surgimento de saques e transtornos à ordem pública em centros urbanos atingidos, o governo optou pela militarização de áreas críticas. As prefeituras de Cali e Pereira estabeleceram toques de recolher noturnos para conter saques e facilitar o trânsito de ambulâncias e socorristas, que trabalham contra o tempo em meio aos escombros.
Para além das perdas humanas, os estragos na infraestrutura são preocupantes para a economia colombiana. Deslizamentos de terra interromperam trechos vitais de rodovias que conectam o Eixo Cafeeiro ao porto de Buenaventura, o principal terminal do país no Oceano Pacífico, ameaçando interromper o fluxo de exportações agrícolas e o abastecimento de combustíveis nas regiões afetadas.
O isolamento de vilarejos rurais em Chocó e Risaralda acendeu o alerta das autoridades para o risco de uma crise de suprimentos e de água potável nos próximos dias.
Buscando atenuar o impacto social, a presidência anunciou a concessão de subsídios emergenciais de aluguel para famílias que perderam suas residências. A promessa, contudo, cria um quebra-cabeça para o governo, que vivia cenário de déficit habitacional no país antes mesmo da tragédia, fazendo com que a necessidade de estruturar repasses diretos de moradia sem inflacionar o mercado imobiliário local nem estourar as metas de contenção de despesas se desenhe como a primeira grande encruzilhada econômica do governo.
Austeridade em xeque
A tragédia impõe um dilema direto ao programa de governo de Espriella. Eleito sob a promessa de aplicar um choque de austeridade, reduzir o tamanho do Estado em até 40% e reorganizar os gastos públicos -- medida que inclui o fechamento e a reestruturação de embaixadas e representações no exterior --, o presidente agora precisará destinar volumosos recursos para obras de reconstrução.
Para analistas políticos colombianos, a emergência cria uma tensão inevitável com as bandeiras de campanha do mandatário. Durante o período eleitoral, Espriella enfatizou a descentralização do poder e chegou a realizar sua posse simbólica em Cali para marcar o compromisso de "governar a partir das províncias". No entanto, especialistas ponderam que grandes catástrofes exigem uma centralização quase absoluta do poder decisório e orçamentário em Bogotá, o que deve pressionar a narrativa regionalista adotada pelo presidente.
O desafio também se estende à segurança pública e à política externa. Durante a campanha, o novo presidente defendeu o encerramento das negociações de paz com guerrilhas como o ELN e o Clan del Golfo, prometendo enfrentá-las com rigor militar e reclassificar cartéis como organizações terroristas em sintonia com Washington. Contudo, a necessidade de levar socorro humanitário a zonas rurais de Chocó dominadas por esses grupos exige coordenação e garantia de acesso a territórios conflagrados.
No plano internacional, o governo obteve respaldo imediato. Os Estados Unidos anunciaram o envio de US$ 15,5 milhões para abrigos e ajuda humanitária, enquanto a União Europeia disponibilizou dados do sistema de satélites Copernicus para mapeamento de áreas destruídas.
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Organismos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), acenaram com linhas de crédito extraordinárias para a reconstrução, e diversos países da região ofereceram apoio técnico e equipes especializadas em resgate.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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