Por que a esquerda internacional busca 'modelo Janones' para enfrentar direita radical nas redes

Principais pontos

  • Janones recebe convites de Espanha e México para colaborar com campanhas de esquerda contra direita radical.
  • Coordenador do 'Exército do Lula', deputado ganhou reconhecimento após virada do petista nas urnas.
  • Aposta em comunicação digital combativa alterou estratégia adotada até então pelo presidente.
André Janones (Rede-MG) participa de comemoração da reeleição do presidente Lula (PT) na avenida Paulista, em São Paulo: deputado teve papel reconhecido na estratégia de comunicação digital do petista no segundo turno
André Janones (Rede-MG) participa de comemoração da reeleição do presidente Lula (PT) na avenida Paulista, em São Paulo: deputado teve papel reconhecido na estratégia de comunicação digital do petista no segundo turno
Source: BRAZIL PHOTO PRESS

O deputado federal André Janones (Rede-MG), agora mais conhecido pela criação do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, recebeu convites para colaborar com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, em sua campanha eleitoral, e para visitar o México a convite da presidente Claudia Sheinbaum. 

A articulação coloca em evidência a repercussão internacional da estratégia de comunicação digital empregada pelo parlamentar na campanha de reeleição do presidente Lula (PT), considerada pelo próprio e aliados como crucial para a virada inédita sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno.

  • Na Espanha, Janones foi convidado a contribuir com a campanha de Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), cuja eleição está marcada para 29 de novembro. A participação do brasileiro ainda não foi confirmada.
  • No México, Sheinbaum convidou o deputado para uma visita voltada à discussão de ações conjuntas para fortalecer a esquerda nos dois países. A viagem ainda não tem data definida.
  • No Brasil, o canal Exército do Lula, criado e coordenado por Janones, chegou a quase 11 milhões de integrantes na reta final de campanha. A iniciativa ampliou a presença do petista nas redes, antes limitada, e organizou ações de militância digital. 

As duas iniciativas têm como pano de fundo uma experiência política que ganhou reconhecimento após a reeleição do petista. Conhecido pela atuação combativa nas redes sociais, Janones redimensionou o espaço da esquerda na disputa por um espaço onde o bolsonarismo foi dominante ao longo da última década.

Chamada pelo próprio de “Janonismo Cultural”, a abordagem combina linguagem informal, confronto direto com adversários, conteúdos de rápida circulação e mobilização permanente de apoiadores. A experiência brasileira passou a ser observada como uma possível referência para partidos de esquerda que enfrentam adversários da direita radical em outros países.

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Da campanha de Lula às eleições espanholas

O convite de Pedro Sánchez, revelado pelo site Metrópoles, ainda depende de uma conversa para definir sua participação, a logística da viagem e as despesas. Até o momento, não havia confirmação de que o deputado tivesse aceitado a proposta.

O primeiro-ministro encara a proximidade das eleições — marcadas para 29 de novembro — em um cenário de desgaste do governo socialista, que enfrenta a oposição conservadora e o avanço da direita radical. A vitória de Lula repercutiu entre os partidos progressistas espanhóis, que passaram a apresentar o resultado brasileiro como exemplo de que é possível reverter um cenário eleitoral desfavorável.

Spanish Prime Minister Pedro Sanchez
Spanish Prime Minister Pedro Sanchez
Source: UN Web TV

O próprio Sánchez celebrou a reeleição do petista e associou o resultado brasileiro à disputa espanhola. Conforme reportagem do jornal El País, a esquerda local tenta transformar a vitória de Lula em estímulo para mobilizar eleitores progressistas e combater o avanço de seus adversários. 

Em seguida, ainda conforme o Metrópoles, a presidente Claudia Sheinbaum pediu que o parlamentar visitasse o México para discutir iniciativas conjuntas de fortalecimento da esquerda. 

Embora os dois convites tenham origens e objetivos distintos, eles convergem em um ponto: o interesse internacional pela capacidade de Janones de organizar militantes e transformar a comunicação digital em instrumento de mobilização política.

O que é o ‘Janonismo Cultural’

O termo é usado pelo próprio deputado para descrever sua estratégia de comunicação desde a eleição presidencial de 2022, quando também teve atuação reconhecida na campanha de Lula contra o bolsonarismo.

A expressão foi objeto de pesquisas acadêmicas que analisaram a apropriação, pela esquerda, de estilos de comunicação empregados pela direita. Entre as características dessa estratégia estão a linguagem coloquial, a postura de confronto e o foco em conteúdos que despertam raiva e indignação — dezenas de estudos mostram como esses sentimentos são identificados pelos algoritmos e ganham maior impulsão nas plataformas digitais.

Em vez de depender exclusivamente dos canais oficiais de campanha, a estratégia é fazer com que os próprios apoiadores se tornem distribuidores de mensagens políticas. Publicações, vídeos curtos, memes e palavras de ordem são replicados por diferentes usuários, ampliando a circulação das mensagens para além dos perfis originais.

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O modelo carrega uma contradição: a reprodução de táticas de confronto pode aumentar o alcance de uma mensagem, mas também intensificar a polarização e favorecer a circulação de conteúdos enganosos. O uso das ferramentas, portanto, não é sinônimo automático de comunicação democrática ou informação confiável.

O papel do mineiro na virada

A experiência de 2026 transformou o Janonismo Cultural em uma operação de mobilização de grande escala. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, Lula precisava ampliar sua votação em um intervalo de apenas três semanas.

Foi nesse contexto que Janones intensificou a atuação do canal Exército do Lula, criado em abril. Inicialmente voltado à troca de mensagens entre apoiadores, o canal passou a funcionar como uma central de distribuição de conteúdos e organização de tarefas para a militância. 

O crescimento foi acelerado. De acordo com o portal UOL, o canal ultrapassou 8 milhões de integrantes em 22 de outubro e chegou a quase 11 milhões na reta final da campanha. Janones orientava os participantes a divulgar vídeos, interagir com publicações favoráveis a Lula, ampliar a circulação de mensagens e evitar determinadas interações com perfis adversários que poderiam impulsionar conteúdos bolsonaristas. 

A operação não se limitou à internet. O deputado convocou apoiadores para ações coordenadas, como um panelaço durante a entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional, além de incentivar manifestações públicas de apoio à reeleição do petista nas ruas.

A campanha também investiu em uma comunicação mais informal, com vídeos de celular e transmissões ao vivo. Em uma delas, o mandatário conversou com Janones e agradeceu à mobilização digital. Na noite da vitória, o presidente chamou o parlamentar de “general”, reconhecendo publicamente seu protagonismo na estratégia. 

O canal também enfrentou questionamentos na Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral determinou sua suspensão em decisões relacionadas a alegações de disseminação de conteúdos inverídicos apresentadas pela campanha adversária.

Por que a estratégia interessa à esquerda internacional

O interesse de partidos estrangeiros pela experiência brasileira está relacionado a um desafio que ultrapassa as fronteiras do país: como competir em plataformas digitais nas quais movimentos de direita radical desenvolveram comunidades engajadas, linguagem própria e métodos de circulação de mensagens capazes de contornar os meios tradicionais de comunicação.

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No Brasil, o bolsonarismo construiu parte de sua força política por meio de redes de apoiadores, influenciadores e canais de mensagens. Esse ecossistema permitiu distribuir conteúdos em grande escala e manter uma comunicação permanente com simpatizantes, inclusive fora dos períodos eleitorais. A campanha de Janones procurou responder a essa estrutura usando instrumentos semelhantes, mas direcionados à mobilização em torno de Lula.

A eficácia desse modelo depende da conjuntura política de cada país, da confiança nas lideranças, dos hábitos de consumo de informação e das regras eleitorais. Uma estratégia que alcança milhões de pessoas no Brasil não necessariamente produzirá o mesmo resultado na Espanha ou no México.

O desafio para Sánchez e Sheinbaum será identificar quais elementos da experiência brasileira podem ser adaptados a seus contextos sem pressupor que a vitória de Lula possa ser reproduzida por meio de uma fórmula única.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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