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Oportunidades para mulheres existem, mas não para altos cargos, diz executiva

Principais pontos

  • Copresidente da agência de live marketing Mark Up, Dilma Campos afirma que as mulheres ganharam espaço na liderança do setor de eventos e marketing de experiência, mas seguem pouco representadas na alta gestão e nos conselhos.
  • A executiva avalia que muitas profissionais chegaram a postos de comando pelo domínio técnico, enquanto áreas estratégicas, como a financeira, continuam majoritariamente masculinas.
  • Além das barreiras profissionais, Dilma destaca o peso da dupla ou tripla jornada e vê a inteligência artificial como uma ferramenta capaz de ampliar a produtividade, embora a economia de tempo ainda seja limitada.
Dilma Campos, copresidente da Mark Up, agência de live marketing.
Dilma Campos, copresidente da agência de live marketing Mark Up.
Source: Thiago Bruno
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Mulheres na liderança: experiências e desafios no mundo do trabalho

Referência no setor de live marketing, área estratégica em que marcas promovem conexões com o consumidor por meio de eventos ao vivo e experiências presenciais ou digitais, Dilma Campos deixou para trás o mercado de entretenimento e mergulhou no setor de comunicação, onde há 25 anos exerce cargos de liderança.

Explica-se. Dilma deu voz à personagem Patativa no icônico “Castelo Rá-Tim-Bum”. Inaugurou, com essa vivência, uma história conectada a narrativas plurais, que já supera três décadas. Hoje é copresidente da Mark Up, agência de eventos, ativações e marketing de experiência.

Além de empresária e executiva, Dilma integra conselhos e faz mentorias para futuras líderes. É membro do Instituto Conselheira 101, iniciativa dedicada a promover a ascensão de mulheres negras e indígenas em posições de alta liderança e governança corporativa. É mentora na Rede Mulher Empreendedora, conselheira de instituições como Universidade São Judas, Ampro (Associação de Marketing Promocional), São Paulo Companhia de Dança, Instituto Clima e Sociedade, APP (Associação dos Profissionais de Propaganda) e Comitê de Diversidade da WOB (Women on Board), iniciativa independente brasileira lançada em 2019 e apoiada pela ONU Mulheres e pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), cujo objetivo é reconhecer, valorizar e promover ambientes corporativos com a presença de mulheres em cargos de liderança.

Reconhecida cinco vezes pelo Pacto Global da ONU por impacto comprovado em governança e clima, Dilma atua apoiando CEOs e fornecendo frameworks para escalar a cultura inclusiva nas organizações. É ainda coautora dos livros “Publicidade Antirracista” (finalista do Prêmio Jabuti), “Uma Sobe e Puxa a Outra” e “Bora Inspirar: 16 Histórias Inspiradoras de Empreendedorismo Feminino”.

Dilma é mais uma convidada do GSW Brasil para a série de conversas com lideranças femininas de diferentes segmentos sobre experiências e desafios na sociedade contemporânea.

Há quanto tempo desempenha cargos de liderança?

Há mais de 25 anos desempenho cargos de liderança. Começou quando eu assumi a parte do departamento de direção artística e de produção de uma empresa de eventos e desde então eu venho liderando.

Falando da perspectiva de uma mulher na liderança de uma empresa, que desafios encontrou ao chegar? E no setor: como as mulheres chegavam a postos de comando no início de sua jornada como executiva?

Na minha jornada como executiva, o que acontecia é que você era muito especialista em uma área para se tornar realmente líder. No meu caso, eu comecei na verdade com a diretoria artística das empresas de eventos. Depois, eu somei na questão da produção. No segmento de eventos, a gente já via mulheres liderando nesses cargos, embora a grande maioria ainda fosse de homens. Nós subíamos de cargo porque era muito especialista naquilo que a gente fazia. Ou porque a gente tinha uma metodologia de controle – que não se chamava assim na época –, um pouco mais eficiente, e isso era visível. Aquela mulher que conseguia fazer muitas planilhas e ter um controle do funcionamento das coisas e de tudo que precisava para realizar aquilo, ela realmente tinha a possibilidade de ascender e chegar a ser uma executiva do grupo, justamente por essa especialidade dela.

E hoje como vê esse cenário? Que avanços identifica? O que ainda merece atenção no segmento em que atua?

O meu segmento ainda merece muita atenção. A gente vê poucas mulheres no nível de liderança financeira, por exemplo. Ainda há muitos homens, muito mais, nessa área. Acho que a gente precisa dividir a melhoria. Porque quando você fala sobre liderança é uma coisa. Tem mais mulheres, há um pouco mais de equilíbrio. Mas, quando se fala em alta liderança, aí você entende que realmente não existe isso. Quando você olha para um conselho, então, a porcentagem de mulheres é muito menor.

Como equilibra as demandas da carreira e as demandas pessoais? É comum que as mulheres assumam dupla, tripla jornada. É uma questão para você?

Eu não tenho vida de trabalho e vida familiar. Para mim, tudo é vida. Então, tudo eu tento encaixar na minha vida. O tempo de atenção para minha filha, o tempo de atenção para o marido, o tempo para casa, o tempo de trabalho, o tempo de atenção para quem trabalha comigo, para quem já trabalhou comigo, para quem não trabalha comigo e precisa de uma mentoria para evoluir na carreira. Tenho esse lugar de mentorar muita gente que está aí, caminhando. Acho que a gente pode enxergar a vida como uma só. Você não é uma pessoa de dia e outra de noite. Você é a mesma pessoa. Eu só consegui equilibrar isso quando fez sentido para mim que é uma coisa só. As mulheres já assumem dupla ou tripla jornada. Até porque eu acho que essa minha geração é a primeira sanduíche. Eu comecei a cuidar da filha, mas que hoje eu cuido da minha mãe. Então, tenho essa tripla jornada que não é uma jornada só de trabalhar e vir para a minha casa. Eu trabalho, eu venho para a minha casa e eu olho para a casa da minha mãe. Então, essa primeira geração sanduíche que cuida dos pais e cuida dos filhos é uma novidade no mundo. E isso a gente tem de considerar. Quando a gente olha para a economia do cuidado, que é muito atribuída às mulheres, a gente sabe que ela representa milhões de dólares. Não sei as últimas pesquisas, mas é muito dinheiro mesmo. Porque é um trabalho não remunerado. Se a gente fosse remunerar todas as mulheres que trabalham, muitas, não só em dupla jornada, como eu dei o exemplo da tripla jornada, seria muito dinheiro na mesa. Muito dinheiro com que essas mulheres normalmente não são remuneradas.

Uma pergunta sobre IA: afinal, ela tem ajudado com a rotina a ponto de permitir mais tempo para outras atividades, inclusive as pessoais? Os agentes de IA ainda não são uma realidade para facilitar a vida? Muito se teme a tecnologia como “eliminadora de empregos”, mas ela pode ser um recurso para abrir mais espaço na agenda para que as pessoas tenham mais tempo para cuidar da mente, da saúde, da inspiração?

A IA chegou justamente com esse medo de que ela ia roubar o nosso emprego. Depois, entendemos que não. Ela está em um lugar que talvez a gente consiga ver muito mais a produtividade. O que temos visto nas pesquisas hoje é que a gente não tem ainda esse tempo, que a gente gostaria de produtividade. Mas também é relativamente novo o período que a gente começa a entender como colocamos a IA no meio dos humanos como ferramenta. Para mim, tem o input que eu dou para a IA, tem o trabalho que a IA faz e tem o que a IA me mostra o que fez. Daí, tem de ter, de fato, outro input meu para entender se aquilo faz sentido. Eu acho que, ao longo dos anos, a gente vai entender que essa ferramenta vai nos ajudar a melhorar o tempo. Isso a gente já tem visto, mas ainda não tem isso claramente definido em pesquisa. Inclusive as pesquisas dizem que, mesmo com a utilização da IA, nós não estamos tendo o tempo que a gente pensou que fosse ter. Talvez a gente tivesse a ilusão de que iria sobrar por dia umas quatro horas e não está sobrando. Sobra aí uma hora. Então, a gente tem de pensar nessas considerações. Mas que ela facilita a vida, isso é uma realidade. Que ela elimine emprego, eu não acredito. Acho que alguns sim no longo prazo. Mas, ao eliminar alguns, outros precisam nascer, até para lidar com ela. As oportunidades estão aí e a gente vai ver a IA como essa ferramenta para nos trazer para esse lugar do novo pensar. De pensar com uma nova ferramenta como extensão de nós mesmos.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.