O Brasil tem um lugar especial no tarifaço de Trump. Como isso está funcionando?
Principais pontos
- Tarifas dos EUA impactaram negativamente indústrias brasileiras, como a química e a de calçados. Por outro lado, linhas de consumo como café, petróleo e minério ficaram isentas do aumento das taxas.
- O Brasil contornou a crise ampliando as exportações para China, Índia e Marrocos.
- A maioria dos economistas concorda que as medidas do presidente dos EUA configuram um cenário em que todos perdem.

Seis meses após a Suprema Corte dos Estados Unidos declarar inconstitucionais as tarifas drásticas originais de Donald Trump, as taxas revisadas redefiniram os termos do comércio internacional.
A decisão deveria ser um marco de recomeço. Em vez disso, a Casa Branca reconstruiu quase toda a barreira tarifária sobre diferentes bases legais em questão de cinco meses e, em alguns casos, elevou ainda mais os patamares.
Para os exportadores do Global South, a diferença prática tem sido menos sobre a alíquota paga e mais sobre a certeza de que as taxas vieram para ficar.
A maioria dos economistas concorda que as medidas configuram um cenário em que "todos perdem".
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"Em geral, tarifas são ruins para todos. São ruins para os Estados Unidos e ruins para o resto do mundo”, observa Marcelo Estêvão, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). “Assim como os preços mais altos do petróleo, elas constituem um choque, mas o impacto desse choque varia de país para país".
Em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte derrubou as tarifas recíprocas do "Dia da Libertação", impostas em abril de 2025. A equipe do presidente Trump reagiu imediatamente com novas medidas.
O efeito líquido, segundo o Budget Lab da Universidade Yale, é uma taxa tarifária estatutária média dos EUA de 11% em 11 de agosto de 2026, a caminho de atingir 11,8% até o final do ano – patamar próximo ao registrado antes da intervenção da Suprema Corte.
Desconsiderando o pico de 2025, o Budget Lab aponta que esse é o nível mais alto desde o início da década de 1940.
E quando a maior economia do mundo levanta barreiras, poucos países saem ilesos.
A atualização de julho de 2026 do World Economic Outlook do FMI projeta o crescimento global em 3,0% em 2026, com uma recuperação para 3,4% em 2027 — contra uma média de 3,5% no biênio 2024-2025.
O crescimento do volume do comércio mundial deve cair para 3,5% este ano, ante os 5,0% registrados em 2025.
Brasil: alvo específico e em adaptação
Em princípio, as nações mais afetadas são grandes exportadores cujos líderes se recusaram a se alinhar ao presidente dos Estados Unidos.
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Perto do topo da lista está o Brasil, enfrentando uma alíquota nominal de até 37,5%, a mais alta entre as grandes economias, fora a China.
Por ser um país que registra déficit comercial com os EUA, o Brasil também é um caso único, porque suas tarifas originais foram explicitamente vinculadas a eventos políticos, e não comerciais. No caso, o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
As medidas impactam de forma desigual. Cerca de dois terços das exportações brasileiras para os EUA escapam totalmente dos novos impostos. Café, suco de laranja, carne bovina, cacau, aeronaves, petróleo e minério de ferro foram todos excluídos para proteger os consumidores estadunidenses.
O que permanece sob alcance das tarifas é a produção industrial de maior valor agregado: máquinas, equipamentos elétricos, pneus, açúcar, vestuário, granito e ouro.
Em certos setores, o impacto tem sido severo.
"Para nós, o tarifaço é um problema estrutural e extremamente significativo", explica André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). "Em alguns casos, está inviabilizando a continuidade da produção."
Isso ocorre porque o Brasil não é atingido apenas pelo impacto direto dos custos mais altos para exportar.
O país também sofre à medida que fabricantes chineses, enfrentando desafios semelhantes, redirecionam sua produção e inundam o mercado brasileiro, a ponto de as importações responderem agora por metade do consumo interno.
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A Abiquim estima que as tarifas custem à indústria US$ 133 milhões por ano. A situação seria ainda pior, segundo Cordeiro, se não fossem as medidas governamentais para manter tarifas sobre importações chinesas e apoiar o setor por meio do programa de suporte financeiro Brasil Soberano.
Outro setor fortemente atingido foi o de calçados, cujas empresas brasileiras já enfrentavam uma concorrência acirrada com fabricantes do Vietnã, Indonésia e China.
Em julho, a indústria importou mais do que vendeu para o exterior pela primeira vez desde o início dos registros, há 29 anos. As exportações caíram 18% em valor nos primeiros sete meses de 2026.
"Diante da perspectiva de queda nas exportações, tornou-se ainda mais urgente a adoção de salvaguardas e outros instrumentos de defesa comercial para proteger o mercado interno do aumento expressivo e prejudicial das importações", disse Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), ao Global South World.
Esses números afetam empresas e trabalhadores diariamente. Os líderes de ambos os grupos setoriais pediram ao governo que amplie as medidas de apoio já existentes para proteger os empregos.
A guinada para o Oriente
Embora outros setores também tenham sofrido perdas expressivas, a economia em geral demonstrou relativa resiliência, à medida que os exportadores encontraram novos mercados fora dos Estados Unidos.
O redirecionamento foi rápido e mensurável. No primeiro semestre de 2026, os EUA absorveram apenas 9,4% das exportações brasileiras – a menor fatia desde o início da série histórica em 1997, abaixo dos 12,1% registrados um ano antes.
As vendas para os EUA caíram 13%, somando US$ 17,4 bilhões, mesmo com o crescimento de 11,5% nas exportações totais do Brasil. China, Índia e Marrocos registraram fortes altas como destinos das exportações brasileiras.
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"O impacto no PIB e na inflação foi o menor possível", nota Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. "A diversificação é necessária. O Brasil não pode continuar dependente dos Estados Unidos. Não vejo isso como algo prejudicial. Pelo contrário, penso que é positivo para o Brasil."
Agostini afirma que a competitividade do Brasil no comércio global permite ao país encontrar novos compradores para os bens que não seguem mais rumo ao Norte.
No fim das contas, o maior perdedor dessa guerra comercial pode ser os próprios Estados Unidos. O Budget Lab de Yale estima que as tarifas atualmente em vigor custam à família norte-americana média cerca de US$ 1.100 por ano.
"Politicamente, o tiro saiu pela culatra para Donald Trump. Ele atacou a democracia brasileira e viu que não há nada que a desestabilize. O resultado foi altamente negativo, e é por isso que seus índices de rejeição vêm aumentando", conclui Agostini.
Estêvão, do IIF, concorda: "A situação não é boa para a América Latina, mas creio que seja pior para os Estados Unidos no longo prazo. Alianças e relações econômicas estão mudando. Se a região continuar sendo empurrada nessa direção, os países terão um incentivo ainda maior para diversificar sua dependência."
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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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