‘Grande Sertão: Veredas’: 70 anos da obra que dá voz ao Brasil profundo
Principais pontos
- Publicado em julho de 1956, o romance de Guimarães Rosa narra as memórias do ex-jagunço Riobaldo, em linguagem que resgata a oralidade de moradores dos rincões de Minas Gerais, Goiás e Bahia.
- Parte das travessias feitas pelo escritor formam o projeto Caminhos de Rosa, que permite conhecer paisagens do cerrado por meio de caminhadas, corridas, rotas de bicicleta e vivências em fazendas do sertão mineiro.
- Com cerca de 230 mil hectares, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas é o único parque brasileiro cujo nome faz referência e homenagem a uma obra literária.

Obra fundamental da literatura brasileira, o romance “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, completa 70 anos neste mês. Ambientado em uma região que compreende Minas Gerais, Goiás e Bahia, o livro transformou a geografia, a linguagem e os conflitos de um sertão marcado por jagunços e coronéis em uma narrativa de alcance universal.
A história é contada por Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas travessias, batalhas, alianças e perdas. Ao reconstruir sua trajetória e a relação com o personagem Diadorim, o narrador procura compreender a existência do diabo, os limites entre o bem e o mal e a possibilidade de cada pessoa escolher o próprio destino.
Essas indagações estão diretamente ligadas ao território percorrido pelos personagens. O sertão não funciona apenas como cenário: condiciona os deslocamentos, impõe perigos, determina encontros e interfere na formação da consciência de Riobaldo. Rios, veredas, chapadas, fazendas, arraiais e caminhos constituem uma força central do romance.
O reconhecimento foi imediato. Publicado em 16 de julho de 1956 pela Livraria José Olympio Editora, “Grande Sertão: Veredas” recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pelo Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, em 1956, e o Prêmio Paula Brito, em 1957. Traduzido para diversos idiomas, o romance consolidou Guimarães Rosa entre os autores centrais da literatura brasileira e ampliou internacionalmente o alcance de uma narrativa profundamente ligada à paisagem e à linguagem do sertão.



A obra também ganhou uma adaptação memorável da TV Globo em 1985. Com roteiro de Walter George Durst e direção de Walter Avancini, a minissérie teve Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi no papel de Diadorim. Gravada no sertão mineiro, "Grande Sertão" mobilizou centenas de profissionais e cerca de 1,8 mil figurantes da região para transportar à televisão as guerras entre jagunços, as paisagens e os dilemas do romance. Seus 25 episódios estão atualmente disponíveis no Globoplay.
Um sertão real e imaginário
Estudos já identificaram mais de 400 localidades reais citadas em “Grande Sertão: Veredas”, entre cidades, povoados, propriedades rurais e acidentes geográficos. Algumas correspondências ainda são discutidas, mas os rios Urucuia e São Francisco são referências incontestáveis.
A cartografia do romance inclui Morro da Garça, Três Marias, Curvelo, Lassance, Pirapora, São Francisco, Januária e Cordisburgo, terra natal de Guimarães Rosa. Também aparecem a Serra das Araras, em Chapada Gaúcha, e Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro associado à batalha final do livro.
Parte dos caminhos percorridos por Guimarães Rosa pode ser conhecido pelos leitores. Criado em 2014, o projeto Caminhos de Rosa promove experiências pelo território que inspirou o escritor, com caminhadas, corridas, trajetos de bicicleta e travessias que incluem encontros com moradores e hospedagens em fazendas da região. Os percursos atravessam paisagens e comunidades do sertão mineiro e uma das rotas de longa distância chega à região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, criado pelo governo federal em 1989.

Essa unidade de conservação é a única no país a homenagear uma obra literária. O parque nacional preserva parte da paisagem das Gerais retratada no livro, além de proteger a biodiversidade e os recursos hídricos do Cerrado. Ampliado em 2004, ele ocupa cerca de 230 mil hectares entre Minas Gerais e a Bahia.
Vale explicar que as veredas são áreas úmidas que se formam em terrenos onde a água aflora, geralmente marcadas pela presença do buriti, uma palmeira de tronco alto que, na região, costuma ter entre 12 e 15 metros. No romance, essas formações orientam as travessias, oferecem abrigo e participam diretamente da experiência dos personagens.
A linguagem como centro da obra

Se a paisagem oferece o chão do romance, é a linguagem que lhe dá existência. Guimarães Rosa combinou expressões populares, regionalismos, palavras antigas, alterações de sentido, construções sintáticas incomuns e vocábulos inventados.
Quando o livro foi lançado, parte da crítica reagiu com estranhamento. A fala dos personagens chegou a ser descrita como uma língua “de outro planeta”. Para o biógrafo de Guimarães Rosa, o jornalista Leonêncio Nossa, essa avaliação revelava principalmente o desconhecimento de setores da intelectualidade sobre a maneira de falar das populações do interior brasileiro.
Segundo o biógrafo, em entrevista dada à Agência Brasil, Rosa rejeitava a ideia de ter inventado sozinho uma língua. Ele afirmava que os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia e de Goiás já utilizavam muitas daquelas formas de expressão.
A linguagem do romance, portanto, não é uma simples transcrição da oralidade. Rosa reorganizou sons, ritmos e expressões para criar a fala de Riobaldo. O narrador hesita, repete ideias, corrige lembranças, interrompe raciocínios e muda de direção enquanto tenta atribuir sentido ao passado.
Nossa também observa que “nonada”, palavra que abre o livro e costuma ser tratada como criação do escritor, aparecia anteriormente em jornais brasileiros. Embora tenha produzido neologismos, Rosa também recuperou palavras que tinham deixado de circular amplamente.
A abertura com “nonada” antecipa um dos movimentos essenciais do romance. Uma palavra aparentemente estranha conduz o leitor a uma língua que, embora profundamente trabalhada pelo escritor, tem raízes na história e na fala do país. Rosa não apenas inventou formas de expressão: preservou e renovou uma parte do português brasileiro.
O escritor mineiro levou aproximadamente dez anos para concluir “Grande Sertão: Veredas”. No mesmo período, trabalhou em “Corpo de Baile”, ciclo de novelas também publicado em 1956. De acordo com Leonêncio Nossa, o romance teria surgido inicialmente como uma das histórias desse conjunto, mas ganhou dimensão suficiente para se tornar uma obra independente.
Edição comemorativa
A Companhia das Letras lançou uma edição especial comemorando os 70 anos, com 608 páginas. O livro tem novo projeto gráfico e capa elaborada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes. Ele traz também um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre os caminhos dos rascunhos até a forma final do romance.
A edição comemorativa conta ainda com depoimentos de leitores ilustres que foram fortemente influenciados pela obra: Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. Os preços da obra ficam em R$ 209,90 (livro físico) e R$ 44,90 (e-book).
A celebração dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na Companhia das Letras inclui um audiolivro narrado pelo ator Caio Blat, com trilha sonora e entradas de viola de Ivan Vilela, já disponível nas principais plataformas de áudio.
Em agosto, será realizado, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, um ciclo de debates sobre o livro. Uma biografia de João Guimarães Rosa escrita por Gustavo de Castro, poeta, escritor e professor da Universidade de Brasília (UnB), também deve ser publicada no fim do ano. O livro narra em detalhes a vida do escritor, médico e diplomata que viria a se tornar um dos nomes mais fascinantes da literatura brasileira.
Outra novidade é que o livro ganhará novas traduções em 2027. Em inglês, a australiana Alison Entrekin responde pelo trabalho de “Vastlands: The crossing”, título que substituirá a da versão de 1963, “The devil to pay in the backlands”. O alemão Berthold Zilly responde por “Großer Sertão: Querungen”.
Quem foi Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa, mudou-se aos 10 anos para Belo Horizonte. Formou-se em medicina em 1930 e trabalhou como médico antes de ingressar na carreira diplomática.
Sua estreia literária ocorreu em 1929, com a publicação do conto “O mistério de Highmore Hall” na revista O Cruzeiro. Em 1936, a coletânea de poemas “Magma”, que permaneceria inédita durante sua vida, recebeu o Prêmio Academia Brasileira de Letras.
Como diplomata, trabalhou em Hamburgo, Bogotá e Paris e representou o Brasil em conferências internacionais. Posteriormente, ocupou diferentes funções no Ministério das Relações Exteriores e assumiu, em 1962, a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.
A consagração literária começou com “Sagarana”, publicado em 1946. A coletânea renovou o regionalismo brasileiro ao trabalhar com paisagens e materiais de origem local por meio de uma linguagem experimental e de temas universais.
Em 1956, Rosa publicou “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”. Com “Primeiras estórias”, de 1962, recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil.
Guimarães Rosa foi eleito para a Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras em 8 de agosto de 1963, na sucessão de João Neves da Fontoura. Adiou a posse por quatro anos e foi recebido por Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, aos 59 anos.
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