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Escolha de vice reflete dificuldade da campanha de Flávio em atrair mulheres e ampliar alianças

Principais pontos

  • Deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) foi anunciado como candidato a vice nesta quarta-feira, 5.
  • Escolha sucedeu tentativas frustradas do grupo de Flávio Bolsonaro em atrair partidos como PP, União Brasil e Republicanos à chapa.
  • Articulação também tratava como prioridade ter mulher no posto como forma de aplacar dificuldades do '01' no eleitorado feminino.

A confirmação do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato à vice-presidência da República na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) selou, de uma vez, o fracasso das articulações para ter uma mulher na posição e coligar-se a outros partidos.

Neste texto, o Global South World Brasil relembra os revezes que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sofreu até definir sua composição de chapa e analisa o potencial eleitoral da aliança construída.

Revés feminino

As dificuldades do bolsonarismo no eleitorado feminino — 52,8% do total de votantes no Brasil, conforme o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) — eram conhecidas mesmo antes de Flávio ser oficializado presidenciável do grupo.

Um levantamento realizado pelo PoderData na semana que antecedeu o segundo turno das eleições de 2022 mostrou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era o candidato preferido de 58% das mulheres, ante 42% de Jair Bolsonaro, que tinha a preferência de 53% dos homens. O petista terminou eleito com 50,2% dos votos válidos.

Ao longo do governo, Lula não perdeu a vantagem no segmento. Pesquisa Datafolha divulgada em 28 de julho mostrou que o mandatário tinha 50% das intenções de voto das mulheres na simulação de segundo turno contra Flávio, que registrou 40%.

O “01”, como é conhecido o parlamentar, viu sua imagem no grupo piorar em razão de um vídeo publicado por Michelle Bolsonaro (PL) no final de junho.

Madrasta de Flávio, a ex-primeira-dama o acusou de tê-la desrespeitado e maltratado durante uma ligação telefônica. As declarações foram apoiadas por lideranças femininas à direita, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), e mesmo à esquerda, caso da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.

Flávio hesitou em pedir desculpas inicialmente e o entrevero familiar só foi publicamente apaziguado semanas depois, com um vídeo enviado por Michelle à convenção partidária que oficializou a candidatura do enteado. Em busca de conter a sangria, a campanha do presidenciável apostou as fichas em atrair uma mulher para a posição de vice.

Tereza Cristina
Senadora Tereza Cristina (PP-MS) foi uma das convidadas para ocupar vice na chapa de Flávio
Source: Agência Senado

A prioridade foi dada à senadora Tereza Cristina (PP-MS), ministra da Agricultura durante o governo Bolsonaro. Além da representação feminina, a parlamentar reforçaria o diálogo da candidatura com o agronegócio e o empresariado, setores simpáticos a sua atuação. Flávio chegou a anunciar o "sim", mas o PP barrou o acordo minutos depois ao comunicar a decisão de permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto.

Em seguida, o grupo passou a trabalhar com os nomes de Daniella Marques (Republicanos), ex-presidente da Caixa Econômica Federal, e Renata Abreu, deputada federal por São Paulo e presidente nacional do Podemos. Nos dois casos, a opção das legendas pela neutralidade no pleito presidencial estragou os planos do PL.

Chapa puro-sangue

As vices desejadas por Flávio refletiam, ao mesmo tempo, uma articulação do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha, e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, em alargar o arco de alianças da candidatura e ao menos reproduzir a composição que acompanhou Jair na tentativa frustrada de reeleição, em 2022, com PP e Republicanos.

Sonho de consumo para a chapa, a federação formada por PP e União Brasil, que concentra as maiores fatias de tempo de televisão e recursos do fundo eleitoral, não escondia sua preferência -- manifestada em especial pelo senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP -- por um nome menos identificado com o bolsonarismo para enfrentar Lula, como o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Ao lado do próprio Republicanos e de legendas menores, como o Podemos, a federação "soltou as mãos" do presidenciável em definitivo após a revelação de suas relações com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master preso pela Polícia Federal, a quem o "01" chamou de "irmão" em uma troca de mensagens onde pedia verba para o financiamento de "Dark Horse", filme ainda inédito sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Com danos políticos imediatos à campanha de Flávio -- que, antes do escândalo, chegou a superar Lula em pesquisas -- e o receio de associação a um caso considerado tóxico para as eleições de outubro, os partidos colocaram a formação de bancadas parlamentares como prioridade e optaram por evitar associações diretas ao candidato.

Sem outros partidos, Flávio deverá ter 4 minutos e 30 segundos por bloco da propaganda eleitoral gratuita, contra 5 minutos e 32 segundos de Lula, conforme projeção baseada nos parâmetros de distribuição do TSE, além da menor garantia de palanques regionais e repasses de recursos para financiar a campanha.

Diante deste cenário, a "solução caseira" representada pela escolha de Alfredo Gaspar sinaliza, ao contrário da articulação inicial, para um reforço do alinhamento à direita na campanha do PL.

Ex-promotor de Justiça conhecido pela firmeza nas pautas ligadas à segurança pública, o deputado teve, como relator da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou as fraudes no INSS (Instituto Nacional da Seguridade Social), uma vitrine para promover sua atuação como opositor contumaz do petismo.

No anúncio desta quarta-feira, 5, Flávio disse que o companheiro "enfrentou e defendeu nossos aposentados na CPMI do INSS" e "pediu a prisão do Lulinha [filho do presidente Lula] porque tinha culpa no cartório. Com a confirmação, nenhum dos principais candidatos à Presidência da República terá uma mulher na vice e apenas o atual mandatário terá um companheiro de chapa -- Geraldo Alckmin (PSB) -- de outro partido.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.