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Como o voto feminino pode decidir a eleição presidencial no Brasil em 2026
Principais pontos
- Pesquisas mostram Lula na frente entre mulheres e Flávio Bolsonaro na frente entre homens.
- Fala de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino ecoa um movimento americano que defende restringir o direito de voto das mulheres.
- Apesar da maioria nas urnas, mulheres seguem sub-representadas no Congresso

Existe um termo que descreve a diferença de comportamento eleitoral entre homens e mulheres e que cientistas políticos acreditam ser um dos fatores eleitorais mais relevantes nas democracias contemporâneas: gender gap. O fenômeno é global, mas aparece com clareza no Brasil – onde as mulheres são maioria no eleitorado.
Historicamente, o eleitorado masculino e o feminino no país votavam sem grandes disparidades nas disputas presidenciais, tendência que começou a ser revertida em 2018, quando Jair Bolsonaro, então no PSL, foi eleito presidente com forte apoio do eleitorado masculino. A propensão se ampliou em 2022 e, para o pleito de 2026, segue a mesma tendência, conforme mostram as pesquisas.
Segundo o levantamento Datafolha divulgado em junho, entre homens, o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho mais velho do ex-presidente, supera o presidente Luiz Inácio Lula Silva, que tenta a reeleição, por 50% a 41%. Entre mulheres, porém, o mandatário está à frente com 52% contra 37% de seu adversário mais direto. No eleitorado em geral, a disputa é bem mais equilibrada, com Lula marcando 47% contra 43% de Flávio – distância que fica dentro da margem de erro.
O movimento coincide com uma guinada mais ampla à direita no eleitorado brasileiro. De acordo com o mesmo instituto, pela primeira vez desde 2014, mais brasileiros se posicionam à direita e centro-direita (44%) do que à esquerda e centro-esquerda (39%). Entre as mulheres, no entanto, 44% se dizem de esquerda, e 38%, de direita.
Para a professora Maria do Socorro Sousa Braga, cientista política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), essa clivagem entre mulheres e homens sofistica os rachas partidários e ideológicos.
"O gênero se tornou uma das principais linhas de fratura da própria polarização ideológica tradicional e passou a funcionar como um atalho cognitivo fortíssimo: homens e mulheres passaram a processar a economia, os costumes e os discursos políticos por lentes profundamente moldadas por suas realidades sociais."
A percepção é reforçada por Carolina Botelho, doutora em ciência política pelo INCT/SANI (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva, sediado na Universidade Presbiteriana Mackenzie), que explica como as funções sociais distintas moldam o voto mesmo em cenários socioeconômicos idênticos.
“As dinâmicas sociais entre os gêneros são completamente diferentes. Muda o padrão de como a mulher se comporta, do que ela precisa, de como está na posição de renda e de como se vê no ambiente de trabalho.”
Com a percepção de que o voto das mulheres pode definir o resultado das eleições, as equipes de campanha têm acelerado as ações para ampliar sua presença e influência junto ao eleitorado feminino.
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro prepara o lançamento do plano "Brasil Por Elas" – coordenado pela economista Daniella Marques, um dos nomes cotados para integrar a chapa de Flávio como candidata a vice – focado em incentivos ao empreendedorismo feminino e independência financeira das mulheres, uma tentativa de quebrar a barreira de desconfiança e conter os estragos de imagem após episódios de atrito com Michelle Bolsonaro.
No lado oposto, a equipe de Lula aposta na sustentação e ampliação de políticas públicas consolidadas historicamente pelo governo federal voltadas para as chefes de família de baixa renda.
Os acenos não são formalidades e respondem a uma lógica de sobrevivência matemática. Segundo Maria do Socorro Sousa Braga, em um cenário de empate técnico virtual, qualquer oscilação mínima na preferência feminina pode ser significativa.
"O comparecimento feminino às urnas é estatisticamente mais consistente e imune à abstenção do que o masculino. Qualquer oscilação de 1% ou 2% na preferência das mulheres movimenta uma massa de votos maior do que o mesmo movimento entre os homens. Se para a esquerda o desafio é reter o voto das mulheres de baixa renda, para a oposição o desafio é de sobrevivência política”, analisa.

O lançamento de programas sociais voltados às mulheres historicamente gera resultados, mas a trajetória política dos dois principais candidatos do pleito, nesse aspecto, é diferente. Enquanto um construiu ao longo dos anos uma imagem de maior sensibilidade e ações concretas em prol das mulheres, o outro carrega um histórico marcado por declarações e posições controversas que ainda geram rejeição em parcelas importantes desse eleitorado.
“No caso de Lula, as mulheres têm um histórico concreto e palpável de governos anteriores para avaliar. Já Flávio Bolsonaro passou a vida pública submetido à agenda do pai, que pautou sua construção de indivíduo político pela misoginia e pela defesa da submissão feminina. São trajetórias profundamente diferentes diante do eleitorado”, sinaliza Carolina Botelho.
Maria do Socorro pondera que a conversão real depende de entregas práticas, mas ressalta que, no marketing eleitoral, esses acenos são vitais para evitar perdas.
Na visão da cientista política, o impacto desses movimentos funciona como uma ferramenta essencial de prevenção de danos e consolidação de base. Mesmo que não conquiste milhões de eleitoras da oposição, ajuda a evitar que o candidato sangre votos em um segmento que representa a maioria absoluta do eleitorado.
A comprometedora declaração contra mulheres que votam
Foi justamente a percepção de que a direita ainda patina na conquista do voto feminino que serviu de pano de fundo para uma crise que explodiu na pré-campanha do senador do PL no final de junho.
Em um vídeo que gerou grande repercussão, o empresário e influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que vive nos Estados Unidos onde faz lobby pela família do ex-presidente, sustentou que mulheres "votam estatisticamente mal", com destaque para as solteiras, e atribuiu o fenômeno ao avanço do feminismo. A fala ocorreu após a circulação de um vídeo em que Michelle Bolsonaro acusava Flávio Bolsonaro de tê-la desrespeitado publicamente.
O estrago causado pela declaração foi medido pela pesquisa Meio/Ideia, divulgada em 8 de julho. O levantamento revelou que 60,6% dos brasileiros discordaram da frase de Figueiredo, com rejeição ainda maior entre as mulheres: 75,4% delas reprovaram a fala. Entre os homens, o índice de rejeição ficou em 44,6%. Outros 24,1% dos entrevistados disseram concordar com a tese de Figueiredo em algum grau.
Pressionado, Flávio Bolsonaro tentou se desvincular do aliado e afirmou repudiar o argumento de Figueiredo, reforçando que ele não integra a pré-campanha oficial e admitindo que a perda de apoio feminino ao seu nome era resultado de “falta de competência” da própria campanha.
Carolina Botelho interpreta a fala de Figueiredo como típica de uma ala da direita que, no Brasil, convencionou-se chamar de bolsonarismo.
“Se analisarmos as falas de políticos da Nova República até hoje, dificilmente veremos líderes de outras gerações falarem tamanhos absurdos. Desde a Nova República, foi construída uma ideia de inserção e independência da mulher, enquanto o atual grupo de extrema-direita tende a ver a mulher como submissa ao homem”, argumenta.

Maria do Socorro detecta no episódio também um comportamento clássico de frustração eleitoral. "Quando um grupo demográfico específico se consolida como uma barreira para as pretensões de um campo político, vozes desse espectro tendem a deslegitimar o comportamento eleitoral desse grupo em vez de ajustar suas próprias propostas”, avalia.
A postura de Figueiredo não é um posicionamento inédito, mas parte de uma onda em curso nos Estados Unidos, onde influenciadores da chamada manosphere (machosfera) e da extrema-direita têm defendido abertamente a revogação da 19ª Emenda à Constituição americana, que garantiu o voto feminino em 1920.
A pauta ganhou tração digital após a reeleição de Donald Trump em 2024, impulsionada por virais e influenciadores que defendem o "voto por domicílio", sob a justificativa de que as mulheres teriam uma suposta "empatia suicida" nas urnas que prejudicaria a direita. O investidor Peter Thiel, de linha conservadora e um dos apoiadores do presidente norte-americano, já manifestou visão semelhante sobre o sufrágio feminino.
A conexão ideológica entre o bolsonarismo e a extrema-direita americana funciona de maneira operacional e estruturada, observa Maria do Socorro. "O bolsonarismo historicamente não cria suas pautas morais do zero; ele traduz e adapta os pânicos morais americanos para o contexto brasileiro. Diante do avanço global do feminismo, esses movimentos compartilham um forte ressentimento cultural”, afirma.
O peso da história e os recortes que podem decidir 2026
As mulheres representam hoje a maior fatia do eleitorado brasileiro. Em 2026, elas somam 82,8 milhões de eleitoras contra 73,9 milhões de homens, o que equivale a 52,8% do total, uma diferença de quase nove milhões de votos.
Paradoxalmente, essa maioria numérica nas urnas não se converte em representação legislativa. A média de candidaturas femininas entre 2018 e 2024 foi de 34%, mas apenas 17% delas foram eleitas. Mulheres ocupam apenas 18,1% das cadeiras da Câmara dos Deputados.
"Embora a legislação obrigue o repasse de verbas do Fundo Eleitoral para mulheres, a distribuição ainda é controlada por caciques partidários homens, que concentram os recursos em poucas candidatas tradicionais, deixando as novatas sem capital. Além disso, há o problema das candidaturas laranjas usadas para burlar as cotas, a sobrecarga da dupla jornada e as agressões de violência política de gênero que afastam novas lideranças”, detalha Maria do Socorro.
Para além das barreiras de representação, o voto feminino em 2026 não deve se comportar como um bloco monolítico. As análises indicam que a eleição será decidida justamente nas subdivisões desse eleitorado. Dois segmentos concentram as atenções: as evangélicas e as chefes de família de baixa renda que vivem com até dois salários mínimos.
"Elas priorizam de forma pragmática o poder de compra, o controle dos preços dos alimentos e o funcionamento de serviços públicos básicos como creches e postos de saúde", analisa a cientista política.
Com as preferências do eleitorado masculino já consolidadas entre os polos da disputa, os indecisos que podem definir o segundo turno, hoje entre 3% e 4%, estão em grande parte concentrados no eleitorado feminino de centro ou sem posição ideológica definida. A definição da disputa passa diretamente pela capacidade das campanhas de dialogar com as urgências cotidianas dessas mulheres.
O principal desvio nessa tendência ocorre na faixa de 16 a 24 anos. Nesse grupo, Flávio Bolsonaro bate Lula por 45,7% a 33,3%, segundo a pesquisa Meio/Ideia, a maior vantagem do senador em qualquer recorte etário. O dado sugere que o fator geracional impõe um limite ao chamado gender gap.
Para Carolina Botelho, é nesse recorte fino que a disputa pode se decidir. "Grupos como as mulheres, os mais pobres, os jovens e o eleitorado do Nordeste são perfis que podem decidir uma eleição. O grande desafio das candidaturas será entender e explorar de forma cirúrgica qual perfil desse eleitorado indeciso pode ser conquistado na reta final."
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.