Entre secas e tempestades, El Niño devasta safras e agrava crises na América do Sul e Ásia
Principais pontos
- Fenômeno intensifica secas na América do Sul e ciclones na Ásia, levando governos como o da Bolívia a decretar estado de emergência.
- Estimativas do Climate Impact Lab e da FAO apontam riscos crescentes para populações atingidas por eventos extremos e alta nos custos de produção.
- A irregularidade das chuvas ameaça safras essenciais como arroz, milho e café, com projeção de alta de 18% nos alimentos pelo Banco Mundial até 2027.

Com seca devastadora na América do Sul e chuvas torrenciais na Índia e no Nepal, os efeitos do El Niño continuam se manifestando e ameaçam as safras de arroz e café a tal ponto que o Banco Mundial prevê uma alta de 18% nos preços dos alimentos até o próximo ano.
Esse fenômeno climático natural ocorre a cada dois a sete anos no Pacífico equatorial. O aquecimento das águas superficiais nessa região altera todo o clima e os ventos sobre esse oceano.
Em um efeito dominó, o fenômeno também afeta os regimes de chuva e as temperaturas em todo o planeta, agravando secas, enchentes e outros eventos meteorológicos extremos, com consequências já visíveis para as populações.
Bolívia em "estado de emergência"
Na Bolívia, a seca afeta pouco mais de 78 mil famílias em seis dos nove departamentos do país. Também provocou a perda de mais de 75 mil cabeças de gado, segundo o relatório mais recente do Vice-Ministério da Defesa Civil, publicado nesta semana.
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O presidente Rodrigo Paz anunciou no sábado que decretou estado de emergência para enfrentar as intensas secas e as inundações relacionadas ao chamado "super El Niño".
A medida permitirá mobilizar mais recursos financeiros e equipes de resgate para as áreas críticas. "Fizemos um trabalho enorme para preservar o meio ambiente e garantir que os efeitos do super El Niño neste ano sejam os menores possíveis", afirmou Paz em uma mensagem à nação.
Em países vizinhos, como o Peru, o El Niño elevou as temperaturas e favoreceu incêndios florestais, que já provocaram a morte de pelo menos 12 pessoas. O fenômeno também contribuiu para a disseminação da dengue, doença tropical que causou outras 81 mortes em 2026.
No Chile, provocou o outubro mais chuvoso já registrado em Santiago, a capital do país.
Índia "debaixo d'água"
O ciclone Arnab, acompanhado de ventos fortes e chuvas torrenciais, atingiu na manhã de quarta-feira o sudeste da Índia e devastou áreas costeiras, causando três mortes e obrigando cerca de 100 mil pessoas a deixarem suas casas.
"Nossas casas estão inundadas e tivemos que ficar dentro d'água", afirmou Rajeshwari, de 65 anos, que informou apenas o primeiro nome após ser retirada de sua residência e levada para um abrigo próximo a Kakinada, no estado de Andhra Pradesh.
Os ciclones são uma ameaça recorrente no golfo de Bengala e no norte do oceano Índico. Mas a temporada de tempestades está particularmente intensa neste ano, agravada pelo El Niño.
"O fenômeno pode desempenhar um papel importante na amplificação dos efeitos do ciclone Arnab. As temperaturas do mar já estão acima do normal. Uma atmosfera mais quente contém mais umidade (...) e favorece precipitações mais intensas", explicou Akshay Deoras, pesquisador do Centro de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading, no Reino Unido.
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O ciclone seguiu depois em direção ao Nepal, provocando fortes nevascas nas regiões mais elevadas do Himalaia e chuvas intensas até sábado.
El Niño em números
Os preços dos alimentos devem subir 18% entre 2025 e 2027, segundo o Banco Mundial, que atribui esse comportamento tanto às dificuldades de abastecimento provocadas pelas guerras em diferentes partes do mundo quanto aos efeitos previstos do El Niño.
484.500: esse é o número de mortes já provocadas por este episódio do fenômeno climático desde junho, de acordo com dados do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago.
O balanço é apenas provisório, já que a organização estima que outras 373 mil mortes poderão ocorrer nos próximos seis meses.
Quais são as culturas mais vulneráveis ao El Niño?
Não existe uma resposta única: tudo depende de cada região.
Mas, "do ponto de vista da segurança alimentar, as culturas que recebem maior atenção são aquelas que constituem a base da alimentação, ou seja, fontes da maior parte das calorias consumidas pelas populações dos países vulneráveis", afirmou à AFP Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Assim, o El Niño afeta especialmente o arroz nas regiões onde reduz as chuvas, sobretudo na Ásia, onde pode limitar o plantio e a produtividade das lavouras. O milho e o feijão, essenciais no México, na América Central e no sul da África, também ficam expostos a um risco maior de seca.
Até mesmo o sorgo e o milheto, muito importantes na África Oriental e, ainda assim, mais resistentes à falta de água, podem sofrer com a escassez prolongada de chuvas, destacou a FAO. A organização acrescentou que o trigo também pode ser afetado pela irregularidade das precipitações.
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Além de comprometer a disponibilidade e elevar os custos dos alimentos nos mercados locais, essas situações podem provocar oscilações nos preços mundiais dos principais cereais - trigo, arroz, milho... - e aumentar os gastos dos países que dependem de importações.
A organização também acompanha de perto as culturas destinadas à exportação, especialmente o cacau e o café, que são sensíveis tanto ao excesso quanto à falta de chuvas. O excesso favorece o surgimento de doenças, enquanto a escassez prejudica a qualidade e o volume da produção.
Um ano de perdas nas lavouras pode, em última instância, comprometer a renda dos agricultores locais e a entrada de divisas nos países produtores, ao mesmo tempo que provoca uma alta nos preços internacionais.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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