Guinada à direita: o que diz a imprensa internacional sobre o 1º turno

Principais pontos

  • The Guardian, El País, New York Times, Financial Times, Le Monde, Washington Post e La Nación destacam que o avanço da direita foi além da disputa presidencial.
  • Rejeição a Lula, desejo de mudança, segurança e desgaste das instituições aparecem entre as explicações para o resultado das urnas.
  • Jornais também relacionam a eleição brasileira à ascensão da direita na América Latina e aos esforços de Donald Trump para ampliar a influência dos EUA na região.
O senador Flávio Bolsonaro fala à imprensa após o resultado do primeiro turno, em que ficou à frente de Lula.
Flávio Bolsonaro fala à imprensa após o resultado do primeiro turno, em que superou Lula, contrariando as pesquisas de intenção de voto.
Source: AFP/ Evaristo Sá

O desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições não foi o único resultado que chamou a atenção da imprensa internacional. Jornais tradicionais como The Guardian, Le Monde e The Washington Post destacaram também um movimento mais amplo para a direita, identificado nas disputas pelo Congresso Nacional e pelos governos estaduais.

As análises salientam tanto a força demonstrada pelo campo conservador quanto as dificuldades de Lula, apesar de indicadores positivos de seu governo. A rejeição ao presidente brasileiro, desejo de mudança, segurança, valores conservadores e desgaste das instituições aparecem entre as explicações. A nova composição política também deixa uma consequência que independe de quem vencer o segundo turno em 25 de outubro: o próximo presidente terá pela frente um Congresso ainda mais inclinado à direita.

The Guardian

“Eleição presidencial brasileira vai ao segundo turno com Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula”

A força da direita foi além do desempenho de Flávio Bolsonaro. O Guardian destaca que 34 dos 54 senadores eleitos são de direita ou extrema direita e chama atenção para as vitórias de outros integrantes da família Bolsonaro e de seus aliados, entre eles Michelle e Carlos Bolsonaro para o Senado, Jair Renan para a Câmara e Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo.

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O avanço no Senado tem importância especial para o bolsonarismo porque cabe à Casa julgar eventuais processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ressalta o jornal. A conquista de cadeiras na Suprema Corte foi tratada como prioridade por aliados de Jair Bolsonaro, que intensificaram os ataques ao STF após a condenação e prisão do ex-presidente.

Na disputa presidencial, a insatisfação com o custo de vida e a violência urbana aparece entre as explicações para o resultado. O jornal também situa a eleição brasileira no avanço recente da direita na América Latina e lembra a proximidade de Flávio com Donald Trump, que busca ampliar na região o grupo de governos alinhados a Washington.

El País

“Bolsonaro vence Lula no primeiro turno das eleições e se aproxima do retorno da extrema direita ao poder no Brasil”

A vitória de Flávio Bolsonaro é apresentada pelo El País como uma demonstração de força do bolsonarismo e uma “vitória crucial” da onda ultraconservadora que percorre a América Latina. O resultado fortaleceu a família Bolsonaro como principal referência da direita brasileira e mostrou que o movimento continua competitivo mesmo com Jair Bolsonaro condenado e afastado da disputa.

A guinada à direita apareceu também nas demais eleições. O jornal destaca a reeleição de Tarcísio de Freitas em São Paulo e o fortalecimento do PL no Congresso, que pode aumentar a pressão por impeachment de ministros do STF e pela anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro.

O El País coloca ainda a eleição brasileira dentro da disputa sobre os rumos políticos da América Latina: ou o país decide entre acompanhar a guinada conservadora de outros países da região ou permanece, ao lado do México, como um dos principais governos progressistas. Essa escolha tem também uma dimensão geopolítica: manter a defesa do multilateralismo ou se aproximar de Trump e da aliança regional articulada por Washington.

The New York Times

 “Lula e filho de Bolsonaro vão ao segundo turno pela Presidência do Brasil”

Uma vitória de Flávio Bolsonaro seria “a maior vitória até agora para a direita em ascensão na América Latina” e levaria ao poder no maior país da região um aliado entusiasmado do governo Donald Trump, afirma o New York Times. O jornal lembra que candidatos alinhados ao presidente norte-americano venceram as últimas sete eleições na região e descreve o Brasil como “o maior prêmio restante”. Uma vitória de Lula, por sua vez, desaceleraria a marcha da direita pelo continente e complicaria os planos de Trump.

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O presidente norte-americano aparece como personagem central da disputa mesmo sem ter declarado apoio formal a Flávio. Segundo o NYT, seu governo trabalhou de maneiras mais sutis para favorecer o candidato, depois de usar tarifas e sanções para tentar ajudar Jair Bolsonaro durante o processo pela tentativa de golpe. Também tentou enviar uma delegação ao Brasil para investigar a integridade das eleições e, após pressão de Flávio e seus aliados, classificou as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Lula respondeu colocando a soberania no centro da campanha, acusando o governo Trump de tentar influenciar a eleição para ter acesso aos recursos naturais brasileiros e apresentando Flávio como subordinado aos interesses norte-americanos. O governo dos Estados Unidos nega que esteja interferindo na eleição.

Financial Times

“Dinastia Bolsonaro no Brasil se aproxima de uma volta surpreendente”

Pouco mais de um ano depois da prisão de Jair Bolsonaro, sua família está perto de protagonizar uma recuperação política que o Financial Times classifica como surpreendente. O desempenho de Flávio, porém, não significaria necessariamente uma onda de entusiasmo por sua candidatura. Analistas ouvidos pelo jornal atribuem parte importante da votação à rejeição a Lula e ao desejo de mudança.

Flávio chegou a essa posição apesar das dificuldades enfrentadas durante a campanha, entre elas o caso do Banco Master, conflitos dentro da própria família (em referência à crise inicial com Michelle Bolsonaro, mulher de Jair Bolsonaro) e problemas no começo para conquistar setores empresariais. Aos 45 anos, ele também se beneficiou do contraste geracional com Lula, de 80.

Segurança, autoridade e valores conservadores também tiveram peso, não apenas uma agenda econômica de direita. O resultado é inserido ainda em uma mudança política mais ampla na América Latina, marcada pelo avanço recente de forças conservadoras. No Brasil, mostra que o campo político construído em torno de Jair Bolsonaro continua competitivo mesmo com o ex-presidente preso e fora da disputa. Uma eventual vitória de Flávio poderia ainda abrir uma nova frente de conflito institucional, diante de sua promessa de buscar a libertação do pai.

Le Monde

“‘Lula pagou o preço do descontentamento dos eleitores’: no Brasil, Flavio Bolsonaro fica à frente de Lula no primeiro turno da eleição presidencial”

O presidente Lula chegou à eleição com desemprego em queda, redução da pobreza e diminuição do desmatamento da Amazônia, mas esses resultados não foram suficientes para neutralizar o descontentamento de parte do eleitorado. Para o Le Monde, o presidente “pagou o preço” dessa insatisfação nas urnas.

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Preocupações com a economia e a segurança se somaram ao desgaste das instituições. O caso do Banco Master e as controvérsias envolvendo o STF deram à campanha de Flávio Bolsonaro espaço para associar Lula à Suprema Corte e ao establishment, embora o próprio candidato do PL também esteja sob investigação relacionada ao caso.

A força da direita nas eleições para o Congresso e governos estaduais mostrou que a votação de Flávio faz parte de um movimento político mais amplo, enquanto a esquerda perdeu espaço em outras disputas. O resultado reforça as dificuldades que Lula enfrentaria no Congresso mesmo em caso de vitória no segundo turno.

Washington Post

“Bolsonaro e Lula vão ao segundo turno: cinco conclusões da eleição brasileira”

O jornal reúne cinco pontos para os resultados do primeiro turno. O primeiro é o recado dos eleitores: parte dos votos em Flávio foi motivada pela rejeição a Lula, enquanto parte dos votos no presidente veio de quem pretende impedir o retorno do bolsonarismo. O segundo é o confronto entre desejo de mudança e medo da mudança: Lula precisa responder à insatisfação com o custo de vida e o endividamento, enquanto Flávio precisa convencer eleitores de que sua eleição não representaria uma volta aos ataques às instituições ocorridos após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. O terceiro é o comparecimento: eleitores que optaram por outras candidaturas justamente por rejeitarem os dois finalistas podem decidir não votar no segundo turno.

A quarta questão é o que Donald Trump fará: depois das pressões exercidas por seu governo durante o processo contra Jair Bolsonaro, permanece a dúvida sobre se Washington intensificará ou reduzirá sua atuação — o Departamento de Estado nega tentativa de interferência. A quinta é a pouca presença de políticas públicas na campanha: Banco Master, STF, interferência norte-americana e ataques entre adversários ocuparam espaço que poderia ter sido dedicado a propostas, e economia e problemas cotidianos podem ganhar importância na disputa pelos eleitores ainda não alinhados a Lula ou Flávio.

La Nación

“Eleições no Brasil: o que está por trás do golpe sofrido por Lula e por que a aritmética favorece Flavio Bolsonaro”

O mapa político brasileiro “ficou inclinado à direita”, na definição do La Nación. A rejeição ao governo Lula, mais do que uma adesão especialmente forte a Flávio Bolsonaro, estaria por trás do crescimento do candidato, mas o movimento foi além da corrida presidencial. A direita ampliou sua força no Senado e teve desempenho expressivo nas eleições estaduais.

É nesse quadro que entra a “aritmética”. A maior parte dos votos dos candidatos eliminados foi para nomes situados à direita, o que oferece a Flávio um universo maior de eleitores a disputar no segundo turno. Para reverter a diferença, Lula precisaria conquistar uma parcela consideravelmente maior desses votos.

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O presidente enfrenta ainda a falta de aliados fortes em alguns dos estados mais populosos e um Congresso mais à direita. A abstenção aparece como outra frente de disputa: trazer às urnas eleitores que não votaram no primeiro turno pode abrir uma fonte adicional de votos.

O resultado também projeta uma discussão para além de 25 de outubro. Uma eventual derrota de Lula colocaria em primeiro plano sua sucessão e a reorganização da esquerda brasileira. E, qualquer que seja o vencedor, a composição política saída das urnas indica que a direita terá peso ainda maior na definição da agenda do próximo governo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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