Espriella toma posse na Colômbia com promessas de guerra contra o narcotráfico e aproximação com os EUA

Abelardo de La Espriella tomou posse nesta sexta-feira, 7, como presidente da Colômbia em uma cerimômia realizada em Cali, no sudoeste do país, rompendo a tradição bicentenária de realizar a cerimônia em Bogotá.
'El Tigre', como é conhecido, assume após vencer no segundo turno o ex-senador Iván Cepeda com 49,66% dos votos.
Na chegada ao ato, De la Espriella classificou a data como "um grande dia para a democracia". O discurso à nação, porém, fica para mais tarde. O novo presidente decidiu transferir a fala para o Batalhão Pichincha, sede do Exército em Cali, onde vai falar ao lado dos comandantes das Forças Militares.
A posse contou com a presença de cerca de dez chefes de Estado, entre eles os presidentes Javier Milei, da Argentina, e José Antonio Kast, do Chile, dois dos principais nomes da nova direita latino-americana. Também esteve em Cali o rei Felipe VI, da Espanha. O presidente Lula não compareceu.
Uma delegação da Casa Branca, liderada pelo procurador-geral dos Estados Unidos, e chanceleres de vários países, entre eles o de Israel, também acompanharam a cerimônia. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, chegou a Cali durante a madrugada, em meio a uma forte crise que atinge a entidade.
Durante a cerimônia, o presidente do Senado, Honorio Henríquez, fez referência a Miguel Uribe Turbay, senador que faleceu em 2025 após um atentado em Bogotá.
Honorio Henríquez também afirmou que, com a eleição de Espriella, a Colômbia mostra que decidiu "reencontrar seu verdadeiro propósito: servir e facilitar que os cidadãos construam e alcancem o bem-estar”,
Após o juramento e a fala de Henríquez, a cerimônia reservou um espaço a representantes de diferentes credos colombianos, em um momento de diálogo interreligioso dedicado ao novo presidente.
Quem é 'El Tigre'
Nascido em Bogotá em 1978 e criado em Montería, no Caribe colombiano, De la Espriella construiu carreira como advogado de causas complexas antes de estrear na política, tendo defendido nomes do entretenimento e do futebol, mas também figuras ligadas ao paramilitarismo, ao escândalo financeiro da pirâmide DMG e o ex-ministro venezuelano Alex Saab, apontado como operador financeiro de Nicolás Maduro.
Com três cidadanias -- colombiana, italiana e americana --, viveu em Miami e é filiado ao Partido Republicano dos Estados Unidos. Ateu até 2020, quando se converteu ao cristianismo após uma perda familiar, Espriella passou a transformar os valores cristãos em um dos pilares de sua retórica.
O apelido "El Tigre" nasceu de uma frase do ex-presidente Álvaro Uribe, que disse em 2024 que a Colômbia precisava de "um tigre" no poder, numa referência ao leão de Javier Milei e à águia de Donald Trump.
A entrada na política foi impulsionada pelo assassinato do jornalista e pré-candidato Miguel Uribe Turbay, alvo de dois tiros na cabeça em Bogotá em junho de 2025. Foi assim que De la Espriella fundou o movimento Defensores de la Patria e, com apoio do Movimento de Salvação Nacional, reuniu 4,8 milhões de assinaturas para viabilizar a candidatura independente.
A escolha do vice, José Manuel Restrepo, ex-ministro da Economia de Iván Duque, trouxe respeitabilidade técnica à chapa e acalmou o mercado financeiro.
Os efeitos na América Latina
A posse consolida o comando da direita em sete dos dez países da América do Sul. Além da Colômbia, a direita governa Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e, desde a posse de Keiko Fujimori, o Peru.
Para Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp, De la Espriella integra uma geração de líderes que rompe com a direita tradicional da região.
"Trata-se de uma vertente de líderes radicais, de matriz midiática e populista. Uma direita que não se confunde com o conservadorismo tradicional de Uribe", disse ao GSW Brasil.
Segundo ela, "Milei introduziu a estética do 'rockstar' libertário, Bukele o modelo do millenial tecnocrático autoritário. Espriella representa um advogado ostentador e influenciador digital."
A ascensão de De la Espriella também reforça a influência de Washington na região. Donald Trump chamou a eleição colombiana de "grande vitória" e compartilhou nas redes um artigo que aponta oito vitórias suas na América Latina.
Para Tomaz Paoliello, da PUC-SP, a troca de poder em Bogotá cria "um corredor estratégico de alinhamento a Washington na América do Sul", com potencial para isolar a diplomacia multilateral de Lula no continente.
O avanço, porém, não deve ser lido apenas pela chave geopolítica regional. Bressan lembra que o fenômeno tem raiz mais ampla. "Vivemos um momento de adesão crescente a ideias e lideranças de direita que não se restringe à América Latina, bem como de crise das democracias liberais."
*Com informações da AFP
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