Como Milei se tornou o principal adversário de Lula na América Latina
Principais pontos
- Javier Milei emerge como o opositor externo mais agressivo de Lula após discursar na convenção do PL e atacar diretamente o brasileiro.
- O argentino chamou Lula de “presidiário” e Alexandre de Moraes, ministro do STF, de “lixo careca”, o que levou o Itamaraty a convocar os embaixadores de ambos os países.
- A crise é o ponto mais alto de uma rivalidade que vem desde a campanha argentina de 2023.
Depois de Donald Trump, Javier Milei se firmou como o principal adversário internacional de Lula. Quando venceu a eleição na Argentina em 2023, o argentino era o único presidente de direita entre as grandes economias da América Latina. Naquele momento, Lula, Gustavo Petro, Gabriel Boric e Andrés Manuel López Obrador controlavam o Planalto, a Casa de Nariño, La Moneda e o Palácio Nacional do México.
O cenário regional mudou. Com Nayib Bukele no poder em El Salvador, Daniel Noboa reeleito no Equador, Rodrigo Paz à frente da Bolívia após encerrar quase duas décadas de hegemonia do MAS e Abelardo de la Espriella próximo de assumir o comando da Colômbia, Lula passa a ser cercado por governos de direita na América Latina às vésperas da eleição presidencial brasileira de 2026.
No último fim de semana, a rivalidade entre Milei e o governo brasileiro se transformou em crise diplomática. Milei participou como convidado de honra da convenção nacional do PL, no sábado, 25, em São Paulo, no evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
No discurso de cerca de 30 minutos, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário”, “ladrão” e “lixo socialista”, associou o kirchnerismo ao projeto do PT e defendeu o avanço de uma “onda azul” na região.
Ataques ao STF e reação de Fachin
O judiciário brasileiro também foi alvo de Milei. Após o ministro Alexandre de Moraes negar autorização para que ele visitasse Jair Bolsonaro, o argentino o chamou de “lixo careca” e lamentou não poder reencontrar seu “grande amigo”. Na plateia, apoiadores entoaram o coro “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”, ação incentivada por Milei.
O presidente do STF, Edson Fachin, reagiu em nota oficial classificando as declarações de Milei como “referência desrespeitosa” a um ministro da Suprema Corte, feita em solo brasileiro contra ato jurisdicional praticado conforme a Constituição. Fachin também afirmou que o episódio é “incompatível com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”.
No domingo, em entrevista à rádio Mitre, Milei ampliou as críticas e, sem apresentar evidências, afirmou que Brasil, México e o Partido Democrata dos EUA estariam por trás de uma campanha contra a Argentina, citando inclusive a final da Copa do Mundo de 2026, e disse que parte dos recursos viria do Brasil.
O governo brasileiro convocou o embaixador Julio Bitelli, de Buenos Aires, para consultas em Brasília e chamou o embaixador argentino Daniel Raimondi ao Itamaraty para prestar esclarecimentos. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como sem precedentes e lamentável, lembrando os 203 anos de relações bilaterais e o fato de o Brasil ser o principal parceiro comercial da Argentina.
O chanceler Mauro Vieira qualificou as falas de Milei como ríspidas, grosseiras e inaceitáveis, caracterizando-as como interferência em assuntos internos.
Na Argentina, o governador Axel Kicillof manifestou “vergonha alheia” e afirmou que Milei não representa o sentimento do povo argentino.
Crise ganha destaque na imprensa argentina
A fala do ministro da Fazenda Dario Durigan, que chamou Javier Milei de “palhaço”, dominou as manchetes dos principais jornais argentinos nesta segunda-feira.
Os jornais Clarín e La Nación destacaram a declaração como resposta direta aos ataques feitos por Milei contra Lula e a economia brasileira durante o evento do PL em São Paulo e trataram o episódio como novo agravamento da crise diplomática entre os dois países.
Durigan disse que a economia brasileira está em melhor situação que a argentina e rebateu as críticas do presidente argentino.
“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, afirmou em entrevista.
Depois, o ministro esclareceu que a declaração foi de iniciativa própria e não representa posição oficial do governo.
As publicações argentinas também deram espaço às medidas do Itamaraty, como o chamado do embaixador brasileiro para consultas e a convocação do embaixador argentino em Brasília.
A cronologia dos embates
A hostilidade entre Lula e Milei não começou no último sábado, mas remonta à campanha presidencial argentina de 2023.
Ainda como candidato, Milei chamou Lula de “comunista” e “corrupto”, disse que não pretendia se encontrar com ele caso eleito e acusou assessores brasileiros de terem atuado na campanha de Sergio Massa, seu adversário no segundo turno.
Eleito presidente, Milei convidou Lula para a posse em dezembro de 2023. Lula declinou do convite, e o Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira.
Em junho de 2024, Lula declarou publicamente que Milei lhe devia desculpas pelas declarações feitas durante a campanha. Milei negou o pedido e questionou por que teria de se desculpar por “dizer a verdade”.
No mês seguinte, Milei evitou a cúpula de chefes de Estado do Mercosul em Assunção e optou por participar da CPAC em Balneário Camboriú, movimento interpretado como provocação direta ao governo brasileiro.
A divergência de visões voltou a transparecer em julho de 2025, na cúpula do Mercosul em Buenos Aires. Em discursos marcados por tom de confronto, Milei defendeu a abertura irrestrita ao livre-comércio, enquanto Lula contrapôs o argentino ao reafirmar defesas protecionistas e o fortalecimento interno do bloco.
Até o fechamento desta reportagem, o embaixador argentino Daniel Raimondi já havia sido recebido no Itamaraty para prestar esclarecimentos. O embaixador brasileiro Julio Bitelli retornou a Brasília para consultas com o chanceler Mauro Vieira, mas ainda não houve divulgação de novos desdobramentos ou medidas adicionais por parte do governo brasileiro.
Este texto foi atualizado às 17h15 desta segunda-feira, 27.
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