Apagões em Cuba agravam saúde mental e colapsam sistema hospitalar

Principais pontos

  • Cuba enfrenta o sétimo apagão nacional de 2026, agravado pelo bloqueio de petróleo imposto pelos EUA desde janeiro.
  • Estudo aponta níveis extremos de depressão, ansiedade e estresse ligados aos apagões.
  • Fome, migração em massa e desigualdade de acesso a soluções energéticas completam o quadro da crise humanitária na ilha.
Homem andando de bicicleta em Havana, Cuba, durante um apagão.
Homem andando de bicicleta em Havana, Cuba, durante um apagão.
Source: YAMIL LAGE / AFP)

Em meio ao sétimo apagão nacional só em 2026, a estatal cubana Unión Eléctrica projetou neste domingo, 9, blecautes que deixariam até 70% do país sem energia no horário de pico. Em algumas províncias, moradores passaram mais de dois dias seguidos sem luz.

Cuba enfrenta problemas estruturais na rede elétrica desde 2024 por conta de seu sistema de usinas termelétricas obsoletas, falta de manutenção e escassez crônica de combustível. Mas o quadro piorou depois que o governo Donald Trump apertou o cerco energético à ilha a partir de janeiro, impondo tarifas a qualquer país que venda petróleo a Cuba. O resultado foi a quase paralisação das importações de combustível e uma sequência inédita de apagões nacionais.

A pressão americana não se limita ao campo energético. Segundo reportagem do New York Times, a CIA montou uma força-tarefa dedicada a Cuba, com recrutamento de oficiais de operações secretas e de inteligência para atuar na ilha. Ao jornal americano, o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío classificou a iniciativa como mais um capítulo histórico de tentativas de desestabilização do governo por Washington.

O sistema de saúde do país, outrora muito elogiado, é o primeiro a sentir os efeitos da crise. Segundo dados do Ministério da Saúde Pública cubano, há hoje uma fila de espera em hospitais de 96 mil pacientes, entre eles mais de 11 mil crianças aguardando cirurgia. O bloqueio energético dificulta tanto a importação de medicamentos quanto o acesso a matérias-primas para a indústria farmacêutica local, o que forçou hospitais a concentrar a capacidade operacional quase exclusivamente no atendimento de emergências.

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Um levantamento da mídia estatal Cubadebate, divulgado em junho, mostrou queda na taxa de sobrevivência de crianças com câncer, de 85% para 65% desde o início das restrições energéticas em janeiro. Há também quase 3 mil pacientes em diálise afetados pela crise energética, segundo o mesmo levantamento.

Em março, o sistema da ONU em Cuba lançou um apelo emergencial de US$ 94,1 milhões, alertando para risco de perdas de vidas com o agravamento da escassez de combustível. Na ocasião, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chamou a situação sanitária cubana de "profundamente preocupante" e defendeu que a saúde não deveria ficar refém de geopolítica.

Impacto psicológico

O colapso também afeta a saúde mental. A relação começou a ser medida em 2025, antes mesmo do agravamento mais recente da crise. Um estudo dos psicólogos Yunier Broche-Pérez e Zoylen Fernández-Fleites, publicado na revista científica Social Science & Medicine, ouviu 415 adultos cubanos entre julho e novembro daquele ano e encontrou 55,4% com depressão "extremamente severa", 65,8% com estresse extremo e 66% com ansiedade severa. Outros 79% relataram irritabilidade alta. Os autores encontraram relação direta entre a duração dos apagões e a piora dos sintomas.

Em entrevista à DW, Broche-Pérez, que dirige um centro terapêutico na Flórida, apontou a imprevisibilidade como o fator mais desgastante. Sem saber quando a energia falta nem quanto tempo o corte vai durar, a pessoa permanece em estado constante de vigilância e antecipação, o que impede qualquer rotina estável de sono, trabalho, alimentação ou cuidado com filhos e idosos. O psicólogo defendeu que a instabilidade energética seja tratada como problema de saúde pública, não apenas como inconveniente técnico.

Em Centro Habana, Mayumis Núñez, de 44 anos, dorme numa cama improvisada na rua desde que o prédio onde morava desabou parcialmente e foi interditado. O que mais pesa, contou à AFP, não é o desconforto físico, mas não saber quando a situação vai terminar. Já o guia turístico Leandro Wanton, desempregado após o colapso do setor, disse à reportagem que a frustração, em muitos dias, é difícil de conter.

A mesma reportagem ouviu Tania Peón, diretora de Saúde Mental de Havana, para quem grande parte da população cubana vive hoje em estado de alerta permanente, gasta tentando resolver necessidades básicas do dia a dia. Segundo ela, esse esforço contínuo se acumula num quadro que descreve como estresse sobre estresse. Peón também alerta para o aumento de comportamento suicida entre adolescentes no primeiro semestre de 2026, embora faça a ressalva de que o fenômeno não pode ser atribuído apenas à crise energética.

Dados apresentados pela ONU em maio reforçam o quadro material por trás dos números de saúde mental. Segundo a organização, 33,9% dos lares cubanos relataram fome recente, e 79,4% das famílias destinam mais de 80% da renda à compra de alimentos.

A exaustão da população acompanha um quadro migratório que já vinha se agravando antes mesmo do atual ciclo de apagões. Segundo dado divulgado em julho pela Oficina Nacional de Estatística e Informação (ONEI), Cuba fechou 2025 com 9.434.593 habitantes, 313.414 a menos que no ano anterior – pelo menos 245.264 dessas pessoas emigraram. Desde 2020, a população da ilha caiu quase 1,8 milhão de pessoas.

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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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