Brasil registra 258 indígenas assassinados em 2025, aponta relatório

Principais pontos

  • Em 2025, o Brasil registrou alta de 22,3% nos assassinatos de indígenas liderada por Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul.
  • Segundo o Cimi, a violência é impulsionada por conflitos de terra, invasões ilegais e impasses na demarcação territorial.
  • No mesmo período, 1.024 crianças de até 4 anos morreram, a maioria por causas evitáveis.
Acampamento terra livre em Brasília-DF
Acampamento terra livre em Brasília-DF
Source: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O número de indígenas assassinados no Brasil aumentou 22,3% em 2025, para 258 casos, ante 211 em 2024. Os dados constam do Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

O levantamento cruza informações do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), de secretarias estaduais de Saúde e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Estados com registros de assassinatos de indígenas:

  • Roraima: 82 casos
  • Amazonas: 47 casos
  • Mato Grosso do Sul: 37 casos
  • Bahia: 19 casos
  • Rio Grande do Sul: 12 casos
  • Pernambuco: 10 casos
  • Mato Grosso: 8 casos
  • Paraná: 8 casos
  • Maranhão: 7 casos
  • Minas Gerais: 6 casos
  • Tocantins: 5 casos
  • Alagoas: 4 casos
  • Paraíba: 4 casos
  • Ceará: 3 casos
  • Acre: 2 casos
  • Pará: 2 casos
  • Rio Grande do Norte: 1 caso
  • Santa Catarina: 1 caso

O documento aponta aumento em diferentes formas de violência contra indígenas, incluindo ataques a pessoas, conflitos territoriais, invasões de terras, suicídios e mortes de crianças.

Conflitos territoriais e impasse na demarcação de terras

O relatório relaciona parte dos casos de violência ao avanço de conflitos pela posse e regularização de terras indígenas.

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Em janeiro de 2025, quatro indígenas Avá-Guarani foram baleados durante um ataque na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, no oeste do Paraná. A área está em processo de demarcação e é alvo de conflitos possessórios. Um dos indígenas ficou paraplégico após ser atingido na coluna.

Em março, o Pataxó Vitor Braz foi morto na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, no extremo sul da Bahia. O caso ocorreu em meio à disputa pela demarcação do território.

Já em novembro, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes foi assassinado no Tekoha Pyelito Kue, na Terra Indígena Iguatemipegua I, em Mato Grosso do Sul. O relatório também relaciona a morte ao conflito territorial.

Segundo o Cimi, os três casos ocorreram em áreas que já haviam sido delimitadas oficialmente pelo Estado, mas cujos processos de regularização se prolongam há mais de dez anos.

O relatório afirma que as invasões continuam mesmo em terras indígenas já demarcadas, apesar de operações de desintrusão realizadas pelo governo federal. Algumas dessas ações foram determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O Cimi também relaciona o cenário de violência ao debate sobre a Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, que estabelece regras para a demarcação de terras indígenas. De acordo com o relatório, os questionamentos sobre a constitucionalidade da legislação continuavam pendentes no STF até dezembro de 2025.

Para a entidade, a legislação também prevê mecanismos que podem facilitar a exploração econômica das terras indígenas por terceiros e dificultar novos processos de demarcação.

O relatório cita ainda a pressão por projetos de mineração, obras de infraestrutura e exploração de petróleo e gás como fatores de conflito em áreas que afetam povos indígenas.

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Violência contra o patrimônio indígena

O Cimi registrou 1.276 casos de violência contra o patrimônio indígena em 2025. A categoria inclui problemas relacionados à regularização fundiária, conflitos territoriais, invasões e exploração ilegal de recursos naturais.

Do total, 897 ocorrências foram classificadas como omissão ou demora na regularização das terras. Outros 169 casos envolveram conflitos relacionados a direitos territoriais, enquanto 210 foram registrados como invasões, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio.

O levantamento considera 1.443 terras e reivindicações territoriais indígenas no país. Desse total, 897 dependiam de alguma medida administrativa para avançar na regularização. Em 582 casos, segundo o relatório, nenhuma providência havia sido tomada para iniciar o processo de demarcação.

Apesar das pendências, houve avanços administrativos em parte dos territórios. Em 2025, foram publicados nove relatórios de identificação e delimitação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O Ministério da Justiça emitiu dez portarias declaratórias, sete terras foram homologadas e cinco foram registradas como patrimônio da União, concluindo a regularização fundiária.

A Funai também criou ao menos 16 grupos técnicos para delimitação de terras indígenas e constituiu dez reservas indígenas.

Suicídios e mortalidade infantil

O relatório contabilizou 215 suicídios de indígenas em 2025, acima dos 208 casos registrados em 2024. Amazonas, com 77 mortes, Mato Grosso do Sul, com 42, e Roraima, com 37, tiveram os maiores números.

Os jovens concentram a maior parte das ocorrências. Indígenas de 20 a 29 anos representaram 41% dos casos, enquanto aqueles com até 19 anos responderam por 34%.

Outro indicador que aumentou foi o de mortes de crianças indígenas. Dados das mesmas fontes utilizadas pelo Cimi apontaram 1.024 mortes de bebês e crianças indígenas de até 4 anos em 2025, contra 922 no ano anterior.

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Amazonas registrou 306 mortes, seguido por Roraima, com 158, e Mato Grosso, com 123.

Em 57% dos óbitos (586 casos) foi atribuída a causas consideradas evitáveis. Entre elas estão gripe e pneumonia, com 104 mortes; doenças infecciosas intestinais, com 85; e desnutrição, com 32.

O relatório também registrou 58 casos de desassistência geral, 111 relacionados à educação e 121 à saúde. Houve ainda 62 mortes atribuídas à falta de atendimento médico e 14 ocorrências relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas. Ao todo, foram 366 registros de omissão ou falta de assistência do poder público.

Segundo o Cimi, a falta de profissionais, medicamentos e infraestrutura se soma à dificuldade de acesso à água potável e ao saneamento básico em diferentes territórios.

A situação também pode ser agravada pela contaminação de rios e outros cursos d'água por agrotóxicos e pelo mercúrio utilizado no garimpo.

No Rio Grande do Sul, estado com maior número de registros nessa categoria, o relatório aponta maior vulnerabilidade entre indígenas que vivem em acampamentos às margens de rodovias enquanto aguardam a regularização de seus territórios.

Povos indígenas isolados

O relatório dedica ainda um capítulo aos povos indígenas isolados, grupos que mantêm pouco ou nenhum contato com a sociedade e que, em alguns casos, ainda não foram oficialmente reconhecidos pelo Estado.

A Equipe de Apoio aos Povos Livres do Cimi identificou 119 registros de povos indígenas isolados no Brasil. Segundo a entidade, 28 foram confirmados pela Funai.

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Também foram identificados casos de invasão e danos ao patrimônio em 20 terras indígenas onde existem registros da presença de 45 grupos isolados.

O Cimi afirma que esses povos estão sujeitos a riscos relacionados às invasões territoriais e à ausência de políticas de proteção específicas.

O relatório anual do Cimi reúne informações de diferentes fontes, entre elas registros das equipes regionais da entidade, denúncias de indígenas, boletins de ocorrência, notícias da imprensa e dados oficiais de órgãos públicos.

*Com informações da Agência Brasil

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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