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Em 20 anos, Brasil reduz desigualdade de gênero, mas fica atrás em renda
Principais pontos
• Relatório global do Fórum Econômico Mundial mostra que os avanços acumulados em duas décadas perdem força; mantido o ritmo histórico, serão necessários 120 anos para eliminar a distância entre mulheres e homens.
• Brasil permanece na 72ª posição entre 145 economias no ranking de igualdade de gênero, mas teve pequeno recuo em 2026, depois de reduzir em 6,1 pontos percentuais a distância desde 2006.
• Participação das brasileiras no mercado de trabalho é de 53,7%; o índice dos homens é de 73,5%; na análise de rendimentos, elas chegam a 62,2% do que eles ganham.

Em 20 anos, o Brasil reduziu a distância entre mulheres e homens quando se trata de igualdade de gênero, mas os resultados de 2026 do relatório global sobre o tema coordenado pelo Fórum Econômico Mundial mostram que o avanço foi desigual e não se manteve no mesmo ritmo em todas as áreas. Segundo o levantamento, as mulheres alcançaram – e até superaram – os homens nos indicadores de educação, mas continuam atrás na renda, na participação no mercado de trabalho e na representação política.
Em 2026, o país permaneceu na 72ª posição entre 145 economias e teve um pequeno recuo na pontuação geral, de 72% para 71,5%. Na comparação com 2006, no entanto, a desigualdade diminuiu 6,1 pontos percentuais.
Divulgado nesta quarta-feira, 16, o Relatório Global sobre a Desigualdade de Gênero 2026 chega à 20ª edição e permite acompanhar a evolução das diferenças entre mulheres e homens ao longo de duas décadas.
O balanço traz números positivos, mas também expõe a perda de ritmo e retrocessos no último ano. No comunicado que acompanha o estudo, o Fórum Econômico Mundial classifica o progresso como “frágil”: a primeira década do levantamento registrou avanços mais rápidos que a segunda, enquanto algumas conquistas começaram a ser revertidas.
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O que o índice mede
Para entender os números, é preciso saber exatamente o que o estudo está medindo. O índice do Fórum Econômico Mundial não avalia as condições de vida das mulheres de maneira ampla nem diz, por exemplo, se um país oferece boa educação, bons salários ou elevada participação política.
O levantamento compara os resultados de mulheres e homens nas seguintes áreas: mercado de trabalho e renda, educação, saúde e participação política.
Se as participações delas e deles em um determinado segmento forem iguais, o índice chega a 100%. Quando o resultado feminino supera o masculino, a pontuação se limita a 100%, porque o objetivo do levantamento é medir a desvantagem das mulheres.
Isso significa que os 71,5% registrados pelo Brasil não querem dizer que o país tenha “71,5% de igualdade de gênero”. O percentual mostra quanto da distância entre mulheres e homens, dentro dos indicadores selecionados pelo Fórum Econômico Mundial, já foi eliminada.
Com essa metodologia, um país pode atingir a pontuação máxima em educação porque as mulheres igualaram ou superaram os homens nos indicadores escolhidos. Porém, isso não significa que tenham desaparecido outras desigualdades enfrentadas pelas mulheres.
Avanço global perde força
No mundo, o índice do Fórum Econômico Mundial ficou em 69,2% em 2026. Na comparação entre as 143 economias presentes também na edição anterior, houve avanço de 0,4 ponto percentual.
Para avaliar o que aconteceu em 20 anos, o Fórum considerou as 97 nações presentes em todas as edições. Nesse grupo, o resultado passou de 64,2% em 2006 para 69,4% em 2026, avanço de 5,2 pontos percentuais e o maior nível da série histórica. Mantido o ritmo registrado ao longo desse período, seriam necessários outros 120 anos para eliminar a distância restante.
As diferenças são grandes entre as áreas analisadas. No ritmo observado desde 2006, seriam necessários 129 anos para eliminar a diferença na área econômica e 194 anos na política. Para a educação, a estimativa é de oito anos.
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A política mostra de forma mais evidente como a trajetória pode combinar avanço e retrocesso. Foi a área que mais evoluiu globalmente desde 2006, com ganho de 8 pontos percentuais entre as 97 economias acompanhadas durante todo o período. Ainda assim, continua sendo aquela em que mulheres e homens estão mais distantes. E o resultado de 2026 está abaixo do registrado em 2016.
O Fórum Econômico Mundial chama atenção para outra reversão: entre as 97 economias acompanhadas desde o início do levantamento, a parcela com uma mulher como chefe de Estado chegou a 27% em 2022, mas depois recuou e, em 2026, voltou ao mesmo nível registrado em 2016.
Mulheres perdem espaço no poder político
O sinal de perda de fôlego não aparece apenas no levantamento do Fórum Econômico Mundial. Dados divulgados em março pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar (UIP), organização mundial dos parlamentos nacionais, revelam estagnação e, em alguns casos, retrocesso na presença das mulheres no poder político.
Segundo o levantamento, as mulheres ocupavam 22,4% dos cargos ministeriais e 27,5% das cadeiras parlamentares no mundo no início de 2026. Apenas 28 países eram liderados por uma mulher como chefe de Estado ou de governo, enquanto 101 nunca haviam tido uma mulher no comando. (ONU Mulheres)
No mundo corporativo, avanço também perde fôlego
A perda de espaço não se restringe à política. Dados do LinkedIn Economic Graph Research Institute analisados no Relatório Global sobre a Desigualdade de Gênero 2026, do Fórum Econômico Mundial, mostram que a presença das mulheres nos níveis mais altos de gestão está praticamente estagnada desde 2024.
Em 62 economias analisadas, as mulheres ocupam menos de 30% desses postos. Entre as 16 economias para as quais há dados sobre novas contratações para a alta gestão, a participação feminina caiu todos os anos desde 2022: passou de 34,8% naquele ano para 32,3% nos dois primeiros trimestres de 2026.
Nos cargos de maior poder dentro das empresas, a distância aumenta. Segundo o Fórum Econômico Mundial, mulheres ocupam 19,1% das posições de CEO e aproximadamente um quarto dos cargos de direção financeira e de operações. Ao mesmo tempo, representam cerca de dois terços dos postos de direção de recursos humanos e gestão de pessoas, mas menos de uma em cada dez posições de direção de tecnologia.
Outro levantamento recente aponta na mesma direção. O estudo “Unfinished Business: Private Sector and Gender Equality”, publicado pela ONU Mulheres em setembro de 2025, analisa os avanços e as lacunas das empresas na promoção da igualdade entre mulheres e homens.
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A conclusão da ONU Mulheres é que, apesar do aumento dos compromissos empresariais com o tema, as iniciativas continuam fragmentadas e pouco mensuradas. O relatório aponta falta de mecanismos de responsabilização, dados confiáveis e incentivos para que as empresas incorporem a igualdade entre mulheres e homens à liderança, às operações e às cadeias de fornecedores. O resultado, segundo a organização, são avanços desiguais e diferenças persistentes na representação e no poder econômico das mulheres. (UN Women)
Educação se destaca no Brasil
No Brasil, a educação apresenta o melhor resultado no estudo do Fórum Econômico Mundial. Pelo segundo ano consecutivo, o país atingiu a pontuação máxima nos quatro indicadores avaliados: alfabetização e matrículas nos ensinos fundamental, médio e superior.
Isso não significa que haja exatamente o mesmo número de mulheres e homens estudando. Como o índice procura medir a desvantagem feminina, considera a meta atingida quando o resultado das mulheres iguala ou supera o dos homens.
No ensino superior, por exemplo, a taxa bruta de matrícula considerada pelo Fórum Econômico Mundial é de 85,3% entre as mulheres e de 55% entre os homens.
No ensino fundamental, a comparação histórica mostra uma mudança: o indicador que mede a distância entre mulheres e homens passou de 94% em 2006 para 100% em 2026.
Diferença permanece no mercado de trabalho
O resultado favorável nos indicadores educacionais não se repete no mercado de trabalho. Segundo os dados usados pelo Fórum Econômico Mundial, a participação na força de trabalho no Brasil é de 53,7% entre as mulheres e de 73,5% entre os homens — diferença de quase 20 pontos percentuais.
Na estimativa de rendimento utilizada pelo Fórum, a renda das mulheres corresponde a 62,2% da dos homens. O Brasil ocupa a 92ª posição entre as economias avaliadas nesse indicador.
No indicador que reúne legisladores, altos funcionários e gerentes, a distância também diminuiu em duas décadas: a pontuação passou de 58,7% em 2006 para 66% em 2026.
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No conjunto da participação e das oportunidades econômicas, o Brasil alcançou 66,6% em 2026. O resultado representa avanço de 6,2 pontos percentuais desde 2006, embora o país ocupe a 102ª posição entre as 145 economias nessa dimensão.
Política avançou em 20 anos, mas recuou agora
A participação política apresenta outra trajetória que exige atenção. Segundo o Fórum Econômico Mundial, foi a área em que o Brasil mais avançou desde 2006, com melhora de 15,8 pontos percentuais. Mesmo assim, continua sendo aquela em que mulheres e homens estão mais distantes.
Além disso, houve piora no último ano. O resultado caiu 2,1 pontos percentuais em relação à edição anterior e ficou em 21,8% em 2026.
As mulheres representam 17,15% das cadeiras parlamentares consideradas pelo levantamento do Fórum, ante 82,85% dos homens. Nos ministérios, a participação feminina considerada pelo estudo é de 29,03%, contra 70,97% masculina.
Dados divulgados em março pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar também mostram recuo recente no Brasil. A participação feminina na Câmara dos Deputados passou de 18,1% para 17,2% entre 2025 e 2026, de 93 para 88 mulheres entre as 513 cadeiras. No Senado, caiu de 19,8% para 18,5%, de 16 para 15 mulheres entre 81 cadeiras. (ONU Mulheres)
Assim, o resultado brasileiro reúne movimentos diferentes. Em relação a 2006, houve redução da distância entre mulheres e homens. No retrato mais recente, porém, o país permaneceu em 72º lugar e sua pontuação geral caiu ligeiramente.
América Latina teve maior avanço em 20 anos
A América Latina e o Caribe foram a região que mais avançou desde 2006 no levantamento do Fórum Econômico Mundial. A desigualdade diminuiu 8,6 pontos percentuais no período, e o índice regional chegou a 74,5% em 2026.
A região aparece em terceiro lugar, atrás da Europa e da América do Norte. No ritmo observado nas últimas duas décadas, o Fórum estima que seriam necessários ainda 60 anos para eliminar a diferença restante.
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O resultado regional reforça uma das conclusões dos 20 anos do levantamento: houve progresso, mas ele não ocorreu em linha reta nem com a mesma intensidade em todas as áreas. Educação se aproximou muito mais rapidamente do equilíbrio entre mulheres e homens, enquanto renda, participação econômica e acesso ao poder continuam concentrando algumas das maiores diferenças.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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