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Número de empreendedoras cresce no país, mas acesso a crédito ainda é desafio

Principais pontos

  • Brasil tem 10,4 milhões de empreendedoras, número que aumentou 27% em uma década, mas mulheres recebem menos de 12% do capital distribuído pelos maiores fundos de venture capital do país.
  • Em 2025, um fundo do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) que facilita o acesso de empreendedoras a empréstimos viabilizou mais de R$ 734 milhões em crédito.
  • Duas advogadas criaram a Protagonizza, aplicativo de apoio a mulheres em situação de violência; as sócias começaram bancando o projeto com recursos próprios e agora recebem apoio de três programas de aceleração.
Mulheres negras analisam documento.
Obter financiamento é um dos desafios das empreendedoras. Elas respondem por menos de 12% do capital distribuído pelos maiores fundos de venture capital do país.
Source: Depositphotos
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Duas advogadas do interior do Rio Grande do Sul sustentam, com o faturamento do escritório, um aplicativo para mulheres em situação de violência, a Protagonizza. Elas fazem parte de um contingente cada vez maior no país: o de empreendedoras. Apesar do crescimento, elas representam uma fatia que segue sem crédito e sem investimento.

O projeto, criado por Franciéle Thaís Mundstock e Brenda Luiza Medina Rech, em 2024, começou no Instagram. A primeira mensagem chegou em uma sexta-feira à noite, momento em que boa parte das pessoas se prepara para aproveitar o fim de semana. Depois, vieram outras e até domingo eram mais de 50 na caixa de entrada da rede. Eram mulheres pedindo ajuda, informação, um caminho para sair de uma situação de violência. "Passei aquele final de semana inteiro trabalhando, orientando. E eram informações básicas", conta Franciéle.

E assim, sem planejar, as duas advogadas estabeleceram um negócio e entraram nas estatísticas do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Em 2025, o país abriu 4,96 milhões de micro e pequenas empresas e MEIs. Pouco mais de duas milhões tinham uma mulher no comando, 42% do total e a maior porcentagem já registrada. São 320 mil a mais que no ano anterior. Na década, o número de empreendedoras saiu de 8,2 milhões para 10,4 milhões, um avanço de 27% contra 11% entre os homens.

Por mais que ainda sejam apenas um terço dos empresários, desde 2023, as mulheres já são maioria entre os chamados empreendedores potenciais, que ainda não têm empresas, mas pretendem abrir uma em até três anos.

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A ideia por trás do negócio

Foi em meio a esse cenário que nasceu a Protagonizza, com a ideia de montar um aplicativo para reunir em um só lugar o que o Estado oferece de forma esparsa a mulheres em situação de violência. O projeto era concentrar canais de denúncia, apoio jurídico e psicológico, geolocalização de serviços públicos e cursos de capacitação.

Hoje, ele tem seis áreas de atuação: assistência social, jurídico, saúde, bem-estar, emprego e capacitação.

A concepção da Protagonizza nasceu de um caso de violência doméstica dentro do próprio escritório. Isso fez Franciéle se perguntar o motivo pelo qual suas clientes não registravam boletim de ocorrência. Ela sempre ouvia as mesmas duas razões: não tinham para onde ir ou temiam que a denúncia piorasse tudo. “Fomos percebendo que era uma falha de sistema, de estrutura e de informação”, conta.

No começo, elas atuavam no fim de semana para cuidar do novo projeto. Esse “plantão” não constava em nenhum plano de negócios. Essa particularidade, porém, não é exclusividade da Protagonizza. Um levantamento do Sebrae com base na Pnad Contínua mostra que 51% das empresárias brasileiras trabalham mais de 40 horas semanais no próprio negócio, contra 71% dos empresários homens.

A explicação, muitas vezes, está na sobrecarga de tarefas, que faz com que elas tenham de conciliar o cuidado da casa, dos filhos e dos idosos com as atividades do negócio. É a essa segunda jornada, informal e sem remuneração, que se somam às demandas da empresa.

Fundada por Brenda Luiza Medina Rech e Franciéle Thaís Mundstock, a Protagonizza é uma plataforma que dá acesso a serviços voltados a mulheres em situação de violência.
Fundada por Brenda Luiza Medina Rech e Franciéle Thaís Mundstock, a Protagonizza é uma plataforma que dá acesso a serviços voltados a mulheres em situação de violência.
Source: Divulgação

A busca por crédito

A proposta do aplicativo tinha potencial, mas, como todas as demandas, precisava de capital para ser resolvida. Esse é o principal entrave enfrentado pelas empreendedoras, que respondem por menos de 12% do capital distribuído pelos maiores fundos de venture capital do país, segundo levantamento de 2023 da revista Startups.

Rodadas avançadas em empresas fundadas só por mulheres são raras a ponto de nem ao menos render série histórica. Além disso, mesmo fora do setor de tecnologia, predominantemente masculino, a diferença de renda persiste. Em 2025, a média salarial delas era de R$ 2.929, o melhor resultado já registrado, contra R$ 3.864 dos homens.

Franciéle também enfrentou problemas nessa parte. "Falar do Protagonizza nunca foi fácil. Nada, absolutamente nada. O fato de sermos mulheres já torna tudo um pouco mais desafiador", relembra.

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As propostas de investimento que apareceram vinham com contrapartidas comerciais, e ela recusou todas. O aplicativo se mantém, desde então, com o dinheiro do escritório de advocacia das sócias, que reservam as tardes de terça-feira e quinta-feira para tocar o projeto.

Um trabalho em constante progresso

Algumas engrenagens, porém, funcionaram. Hoje, elas participam de três programas de aceleração: o Startando, no Rio Grande do Sul, o AVTEC, no Paraná, e o Founders Club, e pesquisam uma parceria com a Espanha, ainda em fase inicial.

Ainda em fase de ideação, a Protagonizza também recebeu auxílio de um programa de pré-aceleração da UCS (Universidade de Caxias do Sul) e recebeu as primeiras mentorias do Sebrae da cidade.

No ano passado, a Fampe Mulher, fundo de aval do Sebrae voltado a negócios liderados por mulheres, destinou mais de R$ 734 milhões em crédito para empreendedoras. Além disso, fornece cursos e especializações gratuitas, sendo uma das indicações que o aplicativo faz às usuárias que precisam de renda própria para ir embora de casa, e quem sabe abrir um empreendimento próprio.

O escalonamento do negócio

Hoje, o site da Protagonizza registra cerca de 350 acessos por semana. O site é aberto a qualquer pessoa. O cadastro, que dá acesso aos serviços voltados especificamente a mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade social, é uma etapa à parte e totalmente sigilosa.

A plataforma organiza os serviços em três instâncias, nacional, estadual e municipal. Quando uma prefeitura adere ao programa, ganha um painel de gestão que centraliza secretarias antes dispersas (Mulher, Assistência Social e, num projeto piloto em Caxias do Sul, também da Saúde).

Além de incentivar e dar visibilidade a serviços prestados por outras mulheres, o aplicativo fornece uma rede de bem-estar com cabeleireiras, manicures, esteticistas e massoterapeutas que dão pelo menos 10% de desconto. "Muitas mulheres não se identificam mais esteticamente, não cortam o cabelo, não fazem a unha há anos", explica Franciéle.

A história da Protagonizza foi compartilhada na comunidade Segurança para as Mulheres, que você acessa aqui, pelo GSW Brasil.

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Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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