Artigo | Assimetria de poder: a influência da Meta nas eleições de 2026

Mark Zuckerberg fala de novos modelos de smart glasses no Meta Connect.
Mark Zuckerberg fala de novos modelos de smart glasses no Meta Connect.
Source: Reprodução/ Facebook - Mark Zuckerberg

As eleições presidenciais de 2026 ganharam uma importância histórica frente ao rearranjo geopolítico sob os interesses neocoloniais de Donald Trump que vem sendo bem sucedido. Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Colômbia, Honduras, Costa Rica, Peru e Bolivia ja elegeram presidentes da direita radical, e Panamá e Paraguai também estão se alinhando.

Observando esta tendência, para surpresa de muitos, alguns destes países tiveram uma guinada à direita. Se observarmos, há muitas semelhanças em alguns pontos: a maioria dos líderes eleitos usaram a narrativa da segurança, adotando o termo narcoterrorismo, abrindo espaço para a interferência americana; Em alguns destes países, em especial no Peru e na Colômbia, as eleições foram publicamente contestadas com denúncias de fraude; na Argentina, pesquisa acadêmica apontou tendência algorítmica no TikTok, e no Chile, o grande vilão foram os exércitos de bots.

Não há dúvidas quanto ao uso das redes sociais, inteligência artificial, bots e estratégias sofisticadas com objetivo de influenciar a opinião política. Em 2018, o escândalo da Cambridge Analítica revelou o uso de modelagem de dados para construção de perfis e seu uso para influenciar a posição política do eleitor americano em favor de Donald Trump.

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Se formos remontar a história do uso político da Internet no Brasil, ainda em 1988, quando seu uso servia apenas para conectar universidades, a partir um terminal dentro do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), Carlos Afonso enviava mensagens para universidades e ONGs do mundo todo, denunciando o assassinato do ambientalista Chico Mendes.

Deste ponto em diante, o campo progressista dominou a Internet e as redes sociais incipientes, como Orkut e Twitter, e especialmente em 2008, fizeram delas ferramentas funcionais para mobilização e informação, ganhando voz frente à mídia hegemônica. Na época, as redes sociais eram essencialmente orgânicas, apesar de existirem interações síncronas que alimentavam algoritmos.

Em 2010, um ano antes da popularização do Facebook e dois anos antes da popularização do smartphone, a campanha de José Serra (PSDB) contratou o especialista Ravi Singh para coordenar a área de internet. Conhecido como "Guru Indiano do Serra", o profissional implementou mudanças na comunicação digital, modelou conteúdos eficientes e passou a ameaçar o domínio do campo da esquerda neste ambiente.

Como as redes modelam o debate público

A partir de 2012, a popularização dos smartphones fez dessa ferramenta a principal da inclusão digital por meio de contratos de “zero rating” que gestaram uma massa de usuários que desconheciam a internet fora das redes sociais. Essas pessoas passaram a formar opiniões e construirem consenso a partir dessas plataformas; o principal problema dessa perspectiva é que os algoritmos modelam o comportamento dos usuários por meio da apresentação exclusiva de conteúdos que validem seus pontos de vista.

Um estudo publicado pela Universidade de Cambridge em 2015 demonstrou que o julgamento de personalidade baseado em algoritmos é mais preciso do que aquele que é feito por humanos. As informações em posse das redes incluem perfis psicométricos, orientação sexual, interesse e aversões, condição social, orientação política e muito mais. Para isso, o indivíduo não precisa publicar uma única foto, ou escrever uma única linha. Os dados que permitem modelar estes perfis são os que a pesquisadora Soshana Zuboff chama de "dados residuais", extraídos das interações com a rede social, como rolagem de tela, compartilhamento e envio de conteúdo, comentários e curtidas.

Imagine que as plataformas possuam milhões de perfis modelados como estes, suas conexões, a dados de localização obtidos a partir do GPS do smartphone, que identificam, além da moradia, local de trabalho, locais que o indivíduo costuma frequentar, permitindo identificar outros usuários da rede que estejam fisicamente próximos a esse, mesmo que não possuam nenhum tipo de conexão.

Acontece que as empresas são de fato detentoras dessas informações, de milhões de usuários do mundo todo, e podem colocá-los a serviço de qualquer contratante, o que inclui, por exemplo, um candidato a presidente da república.

Poder sem precedentes

Estas capacidades dão a real dimensão do poder que as redes sociais possuem, um poder incomensurável, nunca antes imaginado, que Sandra Braman chama de "Panspectron", que diferente do Panóptico, não vigia nenhum indivíduo em especial, mas recolhe e modela todos os dados que ele produz, analisando padrões e desvios. Este modelo configura o que ela chama de "Estado Informacional", que tudo sabe sobre o indivíduo, e o indivíduo quase nada sabe sobre ele.

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Tendo em vista o apoio declarado das big techs ao presidente Trump, não é improvável imaginar a possibilidade delas interferirem nas eleições brasileiras em prol do grupo político mais alinhado aos interesses da Casa Branca.

Em 10 de outubro, a campanha de Lula acusou a Meta de prejudicar o engajamento dos conteúdos do petista e restringir a produção de materiais de IA ligados a sua campanha. Após negar, a empresa admitiu existir um “problema técnico” que estava reduzindo o engajamento das publicações do presidente.

Estes problemas não estão relacionados apenas à Meta: ferramentas de IA também produzem informações equivocadas sobre os candidatos e até mesmo o LinkedIn tem reduzido o alcance das publicações que mencionam Lula ou criticam seu oponente.

Há evidências de que a Meta está interferindo nas eleições brasileiras em prol do trumpismo, mesmo que a empresa justifique os problemas técnicos, não temos como aferir se os algoritmos estão sendo imparciais nas entregas de conteúdo. Segundo Soshana Zuboff, as redes sociais transitam na margem da legalidade sempre que possível.

*João Carlos Caribé é cientista da informação e consultor nexialista. Autor de "O Panspectron: como as redes sociais estão moldando a realidade".

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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