Aluguel, transporte, creche: iniciativa mostra o que isso tem a ver de fato com a economia do país
Principais pontos
- Mais de 100 economistas e 60 organizações lançaram a Vida em Conta, iniciativa que propõe colocar custo de vida e condições concretas da população no centro das decisões econômicas.
- Documento organiza a proposta em cinco eixos e trata de questões que chegam diretamente ao cotidiano, como moradia, jornada de trabalho, emprego e impostos.
- Em dezembro, o grupo pretende apresentar medidas para os primeiros cem dias do próximo governo e um banco de propostas de políticas públicas.

A economia brasileira cresceu perto de 3% ao ano, em média, entre 2023 e 2025. A inflação acumulada em 12 meses, que chegou a 12,1% em abril de 2022, estava em 4,2% em agosto passado. E o desemprego recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor para esse período desde o início da série histórica, em 2012. Ainda assim, para uma parcela da população, é difícil sentir melhora na vida no país quando chegam as contas do aluguel, do supermercado e do transporte. E também quando faltam dinheiro e tempo para cuidar dos filhos.
É justamente a distância entre os grandes números da economia e o cotidiano das pessoas que a iniciativa Vida em Conta quer colocar em discussão. Lançada nesta semana por mais de 100 economistas e 60 organizações da sociedade civil, ela propõe que questões como moradia, transporte, cuidados, jornada de trabalho e qualidade do emprego tenham mais peso na formulação das políticas econômicas.
A iniciativa é articulada pela Plataforma Cipó, instituto brasileiro de pesquisa voltado a temas como clima, desenvolvimento sustentável e relações internacionais, e pelo Transforma, grupo ligado ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) dedicado à discussão de políticas econômicas e públicas.
Entre as organizações que integram a Vida em Conta estão Amazônia em Pé, Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades - Made/USP, Conselho Federal de Economia, Geledés - Instituto da Mulher Negra, Instituto Sou da Paz, Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas (OIMC-UERJ), Oxfam Brasil, Redes da Maré e União Nacional dos Estudantes.
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Entre as lideranças da iniciativa estão Maiara Folly, diretora-executiva da Plataforma Cipó e especialista em desenvolvimento internacional, clima e governança global, e o economista Marco Antonio Rocha, diretor-executivo do Transforma e professor do Instituto de Economia da Unicamp.
“O crescimento econômico é fundamental, mas também importa como seus benefícios são distribuídos. Uma economia bem-sucedida é aquela que reduz desigualdades e transforma as capacidades e riquezas do país em avanços tecnológicos, empregos de qualidade e melhores condições de vida para a população”, afirmou Maiara à Agência Brasil.
Por que nem todos sentem melhoras?
Esse é um dos pontos de partida da iniciativa. Crescimento, inflação e emprego têm consequências concretas sobre a vida da população. A questão levantada pela Vida em Conta é que bons indicadores macroeconômicos não se transformam automaticamente em sensação de prosperidade.
Custo de vida, endividamento e dificuldades para melhorar de vida continuam pesando na percepção das famílias. Em outras palavras, saber quanto uma pessoa ganha ou quanto a economia cresceu não conta toda a história. É preciso observar também quanto custa morar, chegar ao trabalho, cuidar da família e ter acesso a serviços essenciais.
Por isso, a Vida em Conta organizou a discussão em torno de cinco eixos, que constam do documento "Diretrizes para um projeto de país justo, sustentável e soberano". O grupo pretende também apresentar medidas para os primeiros cem dias do próximo ciclo de governo.
1. Desigualdade: saber para quem a economia melhora
O primeiro eixo propõe que diferenças de renda, riqueza, gênero, raça e território sejam consideradas na elaboração do orçamento e das políticas públicas.
A ideia é não medir uma política apenas pelo volume de dinheiro gasto ou pelo número total de pessoas atendidas. Também seria necessário observar quem recebeu seus benefícios, quem suportou seus custos e se os resultados ajudaram a diminuir ou ampliar desigualdades.
Os números mostram por que isso importa. Em 2024, os homens recebiam, em média, 27,2% mais que as mulheres. Pessoas brancas recebiam 65,9% mais que pretos ou pardos. E o rendimento médio por pessoa do 1% mais rico era 36,2 vezes o dos 40% mais pobres.
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No Nordeste, que representava 26,9% da população brasileira em 2024, estavam 50,3% das pessoas em extrema pobreza e 45,8% das pessoas em situação de pobreza naquele ano.
A proposta da iniciativa é fazer essas diferenças entrarem nas decisões sobre onde e como gastar o dinheiro público.
2. Custo de vida: quanto sobra depois das despesas essenciais
Ganhar R$ 3 mil em uma cidade onde aluguel e transporte consomem uma parcela grande do orçamento não produz a mesma condição de vida que receber os mesmos R$ 3 mil e gastar menos com esses serviços.
É essa conta que o segundo eixo pretende colocar em evidência.
Na Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018, a mais recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a habitação correspondia, em média, a 36,6% das despesas de consumo das famílias. Os diferentes tipos de transporte representavam 18,1%.
Por isso, a iniciativa ressalta que a oferta de determinados serviços públicos também interfere na renda disponível.
Uma família que consegue uma vaga gratuita em creche, por exemplo, pode deixar de pagar pelo serviço particular. Isso também permite que o responsável pela criança tenha mais condições de trabalhar.
Um transporte público mais barato reduz diretamente a despesa mensal. Se o serviço também encurtar o deslocamento, o ganho ocorre em duas frentes: dinheiro e tempo.
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Entre as propostas estão ampliar creches, cuidotecas e centros-dia para atendimento de pessoas que necessitam de cuidados e criar mecanismos permanentes de financiamento do transporte público entre União, estados e municípios.
Quando o tempo também vira uma questão econômica
Tempo pode parecer algo que não cabe na conta bancária. Mas a falta dele pode ter custo.
Uma mãe que não consegue vaga em creche pode precisar reduzir a jornada, recusar um emprego ou deixar o mercado de trabalho. Uma pessoa que passa horas por dia entre ônibus, trens e metrô dispõe de menos tempo para estudar, cuidar da família, descansar ou buscar outra fonte de renda.
É nesse sentido que a iniciativa chama atenção para a chamada pobreza de tempo.
O conceito considera o tempo que resta depois do trabalho remunerado, das tarefas domésticas e do cuidado com outras pessoas. Quando essas obrigações ocupam uma parcela tão grande do dia que sobra menos tempo do que o necessário para descanso, lazer e outras atividades essenciais ao bem-estar, existe pobreza de tempo.
O problema também tem efeito econômico porque não atinge homens e mulheres da mesma maneira. As mulheres dedicam, em média, 21,7 horas por semana ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, quase o dobro das 11 horas dos homens. Entre as mulheres negras, são 22,3 horas. Em 2021, o cuidado foi apontado como motivo para não procurar trabalho por 30% das mulheres em idade ativa e por 32% das mulheres negras, ante apenas 2% dos homens.
É por isso que creche, transporte e jornada de trabalho aparecem juntos numa proposta econômica: todos podem alterar não apenas quanto dinheiro uma família gasta, mas também quanto tempo seus integrantes têm disponível para trabalhar, estudar, cuidar de si e descansar.
A discussão sobre a escala 6x1 entra nesse mesmo eixo. Pesquisa da Nexus, realizada entre janeiro e fevereiro deste ano, mostrou que 73% dos brasileiros apoiavam o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, desde que não houvesse redução salarial.
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3. Tecnologia: empregos e renda também dependem do que o Brasil produz
Celulares, computadores, inteligência artificial, equipamentos médicos, baterias e inúmeras tecnologias usadas diariamente carregam conhecimento e componentes que podem ser produzidos em diferentes países. Quem domina as etapas de maior valor dessas cadeias também concentra investimentos, tecnologia e empregos mais qualificados.
Por isso, o terceiro eixo defende que o Brasil desenvolva maior capacidade tecnológica própria em áreas consideradas estratégicas. A proposta inclui inteligência artificial, infraestrutura digital, energia renovável, biocombustíveis e processamento de minerais importantes para novas tecnologias.
O Brasil possui cerca de 94% das reservas mundiais de nióbio, 23% das terras raras, 26% das de grafite e 12% das de níquel. Mas possuir o mineral não significa ficar com a maior parte da riqueza produzida por ele: boa parte do valor está no processamento, na fabricação de componentes e no domínio da tecnologia.
As organizações e os economistas do projeto propõem usar instrumentos como crédito, compras públicas e incentivos para estimular pesquisa, processamento e produção no país.
O Pix aparece como exemplo de tecnologia desenvolvida nacionalmente. Na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), cerca de 2,1 milhões de pessoas estavam empregadas em abril de 2026, com remuneração média superior à nacional.
A conexão com a vida cotidiana está principalmente no emprego e na renda: quanto maior a participação brasileira nas etapas mais sofisticadas da produção, maior pode ser a capacidade de gerar vagas qualificadas e mais bem remuneradas.
“O Brasil precisa ter a ambição de definir uma agenda de transformação social diante do novo cenário global. Não podemos ficar presos apenas às discussões fiscais de curto prazo frente às mudanças climáticas, tecnológicas e nos processos de trabalho”, afirmou Marco Antonio Rocha à Agência Brasil.
4. Mais gente estudou, mas faltam empregos à altura da formação
Nas últimas décadas, o Brasil ampliou fortemente o acesso ao ensino superior. O mercado de trabalho, porém, não criou ocupações qualificadas na mesma velocidade.
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Um estudo publicado em 2024 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) analisou dados de 2012 a 2023 e mostrou o crescimento da chamada “sobre-educação”: pessoas com escolaridade superior à necessária para o trabalho que exercem.
A proporção passou de cerca de 26% dos trabalhadores em 2012 para 38% em 2020 e permaneceu nesse patamar até 2023.
Isso não quer dizer que fazer faculdade deixou de compensar. Trabalhadores com ensino superior completo continuam apresentando menor desemprego e salários maiores. No segundo trimestre de 2024, a diferença salarial em relação aos trabalhadores com ensino médio completo ou superior incompleto ainda era de 126%.
O problema é o desperdício de qualificação: pessoas que estudaram para exercer determinadas funções acabam em postos que exigem menos formação e, em geral, oferecem menor remuneração.
O quarto eixo propõe aproximar as políticas de educação, indústria, inovação e qualificação profissional para aumentar a oferta de empregos capazes de aproveitar a formação que os trabalhadores já têm.
5. Impostos: não importa apenas quanto o governo arrecada
O quinto eixo olha para as duas pontas do dinheiro público: quem paga e quem recebe benefícios.
A proposta é tornar a tributação mais progressiva — ou seja, fazer com que quem tem maior capacidade econômica contribua proporcionalmente mais — e avaliar de forma mais sistemática quem se beneficia de isenções, deduções e subsídios concedidos pelo Estado.
Em 2024, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) custaram juntos cerca de R$ 280 bilhões. No mesmo ano, os subsídios da União — que incluem benefícios tributários, financeiros e creditícios concedidos a diferentes setores e grupos de empresas — chegaram a R$ 678 bilhões, mais que o dobro.
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A comparação mostra que a discussão sobre o uso do dinheiro público não se limita aos programas sociais. A proposta da Vida em Conta é avaliar também quem se beneficia dos subsídios, quais resultados eles produzem e se esses recursos continuam justificáveis diante de outras prioridades do orçamento.
Parte desses benefícios nem sempre é percebida como gasto público porque ocorre quando o governo deixa de arrecadar determinados impostos. É o caso, por exemplo, das deduções de despesas privadas com saúde e educação no Imposto de Renda.
Essas deduções praticamente não alcançam os 78% da população de menor renda. Entre os demais, excluído o 1% mais rico, mais de 73% do benefício fica concentrado nos 10% de maior renda. O 1% do topo recebe outros 18,6% do benefício.
A Vida em Conta entende que é preciso revisar esse tipo de benefício e avaliar se parte dos recursos poderia ser direcionada para serviços públicos de saúde e educação. A estimativa apresentada pela iniciativa é que a eliminação das deduções dessas despesas no Imposto de Renda poderia elevar a arrecadação em cerca de R$ 34 bilhões.
O que acontece agora
A apresentação das diretrizes é a primeira etapa da Vida em Conta. Em dezembro de 2026, durante o Fórum Nova Economia, em Brasília, está previsto o lançamento de um Banco de Iniciativas que reunirá propostas mais específicas de políticas públicas.
Ao apresentar suas diretrizes, o grupo já coloca uma questão mais básica sobre como medir o desempenho da economia. Inflação, emprego e crescimento continuam importando. A Vida em Conta defende que a análise não termine nesses indicadores: é preciso observar também quanto do salário sobra depois das despesas essenciais, quanto tempo as pessoas gastam para trabalhar e cuidar da família e que tipo de emprego a economia está conseguindo gerar.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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