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50ª Mostra de SP celebra o cinema, a pluralidade e a memória
Principais pontos
- Criada em 1977, a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ajudou a formar gerações de cinéfilos e a ampliar o acesso a obras independentes e cinematografias pouco presentes no circuito comercial brasileiro, vocação que se mantém.
- A edição comemorativa, que vai de 15 a 29 de outubro, reúne mais de 380 títulos de 93 países, incluindo vencedores de Cannes e Veneza, produções brasileiras, retrospectivas e obras que abordam questões contemporâneas.
- A venda de pacotes de ingressos e passes com múltiplas sessões começa neste sábado, 10, às 9h. A programação terá ingressos avulsos de R$ 13 a R$ 32, além de sessões gratuitas e populares.

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo chega à sua 50ª edição celebrando não apenas os filmes que apresenta, mas a história de uma relação construída ao longo de quase cinco décadas entre o cinema e seu público. De 15 a 29 de outubro, mais de 380 títulos de 93 países serão exibidos em 57 salas e espaços culturais da capital paulista. A programação reúne vencedores de grandes festivais internacionais, obras independentes, produções brasileiras, retrospectivas, exposições e encontros com cineastas.
A venda de pacotes de ingressos e passes para a Mostra se inicia neste sábado, 10, às 9h, pelo aplicativo oficial do festival e pelo site da Velox Tickets, com valores que vão de R$ 270 a R$ 640. Os ingressos avulsos, que custam de R$ 13 a R$ 32, começam a ser vendidos quatro dias antes de cada sessão. Também haverá exibições gratuitas e ingressos populares no Circuito Spcine.
A edição de aniversário reafirma uma característica que acompanha a Mostra desde sua criação: abrir espaço para diferentes maneiras de fazer cinema e de interpretar o mundo. Entre os destaques deste ano estão “Fjord”, do romeno Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, e “Mulher Desconhecida”, da dinamarquesa May el-Toukhy, que conquistou o Leão de Ouro em Veneza. A seleção também inclui produções que discutem desigualdade, guerra, memória, relações familiares e os conflitos das sociedades contemporâneas.
A abertura para convidados será na quarta-feira, 14, na Sala São Paulo, com “Tigre de Papel”, do americano James Gray – autor do cartaz da Mostra –, e o curta “Sul de Teerã”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho. Os dois cineastas estarão presentes na sessão.
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Uma história que começou durante a ditadura
A Mostra nasceu em 1977, por iniciativa do crítico de cinema Leon Cakoff (1948-2011), no Museu de Arte de São Paulo (Masp). O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, e a censura, somada às limitações do mercado de distribuição, restringia o acesso a produções de diversas partes do mundo.
A proposta de Cakoff era ampliar esse horizonte, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer obras que dificilmente chegariam às salas comerciais brasileiras. Filmes europeus, asiáticos, latino-americanos e africanos passaram a dividir espaço com produções independentes e experimentais, permitindo o contato com diferentes linguagens, culturas e perspectivas.
Ao longo das décadas, a Mostra se transformou em um dos principais eventos cinematográficos do Brasil. Sua importância ultrapassa a apresentação de filmes inéditos. O festival contribuiu para formar público para o cinema de autor, deu visibilidade a diretores ainda pouco conhecidos no país e estabeleceu um espaço de encontro entre realizadores, distribuidores, críticos e espectadores.
Também criou uma tradição própria de cinefilia. Os chamados "mostreiros" organizam suas agendas para assistir a vários filmes por dia, acompanham debates com diretores e fazem da Mostra uma experiência que se estende para além das salas de exibição.
A expansão para diferentes cinemas e centros culturais mudou a relação do festival com a cidade. Na edição de 2026, as sessões chegam a equipamentos públicos em diversas regiões de São Paulo, incluindo Centros Educacionais Unificados (CEUs). A programação também terá atividades em Belém, no Pará, e uma itinerância por dez cidades do interior paulista.
Um retrato do cinema contemporâneo
A programação de aniversário reúne obras que se destacaram nos principais festivais internacionais. Além de prêmios, muitos filmes compartilham o interesse por questões sociais e políticas, conflitos familiares e diferentes maneiras de representar a realidade.
“Fjord”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é dirigido pelo romeno Cristian Mungiu, conhecido por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, também vencedor do principal prêmio francês, em 2007. Estrelado por Sebastian Stan e Renate Reinsve, o novo longa acompanha uma família envolvida em um conflito com os serviços de proteção à infância na Noruega. A recepção crítica foi marcada por elogios à construção dos dilemas morais, mas também por divergências sobre a maneira como o filme apresenta as instituições responsáveis pela proteção das crianças.
Outra obra premiada “Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy, que recebeu o Leão de Ouro em Veneza. Ambientado na Dinamarca após a Segunda Guerra Mundial, o drama acompanha uma mulher em uma sociedade marcada pelas consequências da ocupação nazista.
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“Amor Possível”, do sul-coreano Lee Chang-dong, conquistou o Grande Prêmio do Júri em Veneza. O filme examina desigualdade econômica, desejo e relações humanas.
Um dos destaques é “Minotauro”, de Andrey Zvyagintsev, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes. O cineasta russo, responsável por “Leviatã” e “Sem Amor”, constrói um drama conjugal que incorpora questões relacionadas à sociedade russa e à guerra na Ucrânia.
“A Terra do Meu Pai”, do polonês Paweł Pawlikowski, tem uma boa média na avaliação de críticos internacionais. A obra acompanha o escritor Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha devastada pela Segunda Guerra Mundial. A crítica destacou a concisão da narrativa, a reflexão sobre memória e culpa e a atuação de Sandra Hüller.
Entre os filmes espanhóis, “O Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, tem Javier Bardem no papel de um diretor de cinema cuja relação com a filha é marcada por conflitos.

Diferentes linguagens e olhares
Além dos filmes premiados, a Mostra apresenta produções de cineastas consagrados e títulos que exploram diferentes gêneros e formas de narrativa.
“O Outro Lado das Redes”, de Aaron Sorkin, retoma o universo de “A Rede Social”, filme de 2010 sobre a criação do Facebook. A nova produção reúne Jeremy Strong, Jeremy Allen White e Mikey Madison.
“Primetime”, produção da A24 estrelada por Robert Pattinson, também integra a programação. Mais um destaque é “Ray Gunn”, animação para adultos dirigida por Brad Bird, responsável por “Os Incríveis” e “Ratatouille”.
O cinema japonês terá representantes importantes. Hirokazu Kore-eda, diretor de “Assunto de Família”, vencedor da Palma de Ouro em 2018, apresenta “Look Back”, adaptação do mangá de Tatsuki Fujimoto sobre duas jovens unidas pelo interesse pelo desenho.
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Já Ryûsuke Hamaguchi, de “Drive My Car”, participa com “O Sentido da Vida”. A presença dos dois cineastas reforça o espaço dedicado pela Mostra a diretores que exploram as relações humanas por meio de diferentes linguagens narrativas.
Entre as produções de maior experimentação está “I Love Boosters”, do americano Boots Riley. A sátira acompanha um grupo que furta artigos de luxo e utiliza o universo da moda para discutir consumo, exploração do trabalho e desigualdade. O diretor estará em São Paulo para apresentar o filme e participar do júri da Competição Novos Diretores.
Cinema brasileiro e novos realizadores
A edição comemorativa também abre espaço para produções nacionais de diferentes gêneros e formatos, além de filmes de diretores em início de carreira.
Um dos destaques brasileiros é “Feito Pipa”, de Allan Deberton, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional de 2027.
O curta “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho, será apresentado na cerimônia de abertura, antes do novo longa de James Gray.
A programação inclui “Elza”, de Eryk Rocha, “Maria de Maria”, de Luiza Shelling Tubaldini, e “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvam Rodic, além de produções documentais e trabalhos de novos realizadores.
A presença brasileira se estende à seção Mostra em Série. Walter Salles apresentará dois episódios ainda em finalização de “Sócrates Brasileiro”, produção sobre o jogador do Corinthians e da seleção brasileira. A conversa com o cineasta está marcada para 23 de outubro.
Também integra a seção “Coligay – A Torcida Impossível”, de Paulo Machline, sobre a torcida gay do Grêmio criada durante a ditadura militar.
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A programação inclui ainda cinco curtas realizados com apoio do Displacement Film Fund, iniciativa proposta pela atriz Cate Blanchett em parceria com o Fundo Hubert Bals, do Festival de Roterdã. Os filmes abordam experiências relacionadas ao deslocamento forçado e ao refúgio, ampliando a presença de cineastas e histórias frequentemente pouco representados no cinema internacional.
A memória do cinema em retrospectivas e homenagens
As comemorações dos 50 anos também recuperam obras e trajetórias importantes da história do cinema.
James Gray é um dos principais homenageados da edição. Além de apresentar “Tigre de Papel”, o diretor terá uma retrospectiva de sua obra e receberá o Prêmio Leon Cakoff. No dia 15, participará de uma conversa com Walter Salles após a exibição de seu novo filme.
O produtor português Paulo Branco, responsável por mais de 300 produções, também receberá o prêmio. Uma retrospectiva apresentará parte de sua trajetória, incluindo obras de Raúl Ruiz e Werner Schroeter.
Outro convidado é o cineasta indiano S. S. Rajamouli, que apresentará uma sessão especial de “RRR: Revolta, Rebelião, Revolução”, produção de 2022 que conquistou o Oscar de melhor canção original. O encontro está marcado para 19 de outubro.
A Mostra homenageará o diretor polonês Andrzej Wajda, que completaria 100 anos em 2026, com cópias restauradas de “Cinzas e Diamantes”, “O Bosque de Bétulas” e “Sem Anestesia”.
Uma das sessões especiais será dedicada a “Aurora”, clássico de 1927 dirigido por F. W. Murnau. O filme será exibido nos dias 23 e 24 de outubro, no Teatro Cultura Artística, com trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra Jazz Sinfônica.
Exposições e um acervo de cinco décadas
As comemorações também ultrapassam as salas de cinema.
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A exposição “Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”, concebida pela cineasta e multiartista Daniela Thomas, apresenta documentos, cartazes e registros da trajetória do festival no Solar Fábio Prado.
O título da exposição recupera uma definição de cinema feita pela artista Tomie Ohtake, responsável pelo cartaz da 17ª edição da Mostra: "Para mim cinema é isso, tempo e movimento".
No Museu da Imagem e do Som (MIS), a exposição “STEPS – Fotografias Inéditas de Abbas Kiarostami” reúne imagens produzidas pelo cineasta iraniano. A programação inclui ainda uma conversa com seu filho, Ahmad Kiarostami, e o diretor argentino Lisandro Alonso.
Dois livros comemorativos recuperam a memória do evento: “Antes que eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”, de Renata de Almeida, e “50 Anos, 50 Cartazes: A História dos Cartazes da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”.
Outro legado é o lançamento de Acervo, plataforma digital com informações sobre mais de 12 mil filmes apresentados ao longo das cinco décadas. A iniciativa permite consultar parte da história da Mostra e acompanhar a evolução das cinematografias que passaram pelo festival.
Mostrinha e a formação de novas gerações
A terceira edição da Mostrinha, dedicada ao público infantil, terá 20 longas e um curta de 20 países. Treze produções são animações, dez contam com participação brasileira e nove têm mulheres na direção ou codireção.
A abertura será com “Clarice Vê Estrelas”, escrito e dirigido por Letícia Pires, baseado em seu livro. A arte do cartaz da Mostrinha é de Ziraldo (1932-2024).
Parte das sessões será gratuita, especialmente nos CEUs e em outros equipamentos culturais. A iniciativa amplia o alcance da Mostra e contribui para a formação de novas gerações de espectadores.
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Como comprar ingressos
Como informado mais acima, a venda de permanentes e pacotes começa neste sábado, 10. O passe conhecido como Permanente Integral custa R$ 640 e permite o acesso a sessões em todos os dias e horários, incluindo sessões especiais. Já a Permanente Especial custa R$ 160 e vale para exibições de segunda a sexta-feira, com início até as 17h55.
Há um pacote de 40 ingressos por R$ 440 e outro de 20 ingressos por R$ 270. Os créditos podem ser trocados por ingressos a partir de cinco dias antes de cada sessão.
E existem os ingressos avulsos. De segunda a quinta-feira, custam R$ 26 (inteira) e R$ 13 (meia). De sexta-feira a domingo, os valores são R$ 32 (inteira) e R$ 16 (meia).
A compra antecipada de entradas individuais começa quatro dias antes da sessão, sempre às 9h. Os ingressos também poderão ser adquiridos no dia da exibição, conforme a disponibilidade. O cancelamento pode ser feito até quatro horas antes do início.
No Circuito Spcine, algumas salas oferecem ingressos a R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia). A programação também inclui sessões gratuitas, especialmente em equipamentos públicos e espaços culturais.
Serviço — 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Período: 15 a 29 de outubro de 2026.
Programação: mais de 380 títulos de 93 países, em 57 salas e espaços culturais.
Venda de pacotes e permanentes: a partir de sábado, 10 de outubro, às 9h.
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Ingressos: pelo aplicativo oficial da Mostra ou pelo site Velox Tickets.
Programação completa: mostra.org.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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