Vantagem de Lula em pesquisas mobiliza bolsonarismo contra 'voto nulo da direita'

Principais pontos

  • Eduardo Bolsonaro comparou anulação a petismo e conclamou 'voto útil' no irmão Flávio para derrotar o atual presidente, que enfrenta diversos candidatos de direita.
  • Pesquisas mostram que eleitores de Renan Santos e Augusto Cury preferem anular a escolher outro candidato no segundo turno.
  • Avaliação de bolsonaristas é que falta de mobilização do campo contribuiu para vitória de Lula em 2022.
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Source: Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Aliados do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) retomaram uma estratégia conhecida de seu grupo político: as investidas contrárias à opção de eleitores que rejeitam o presidente Lula (PT) e pretendem anular o voto ou se abster da participação na eleiçã

No domingo, 30, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) publicou no X que "votar nulo é votar em Lula".

O argumento foi destrinchado por Tallis Gomes, proprietário da G4 Educação e eleitor declarado de Flávio. "Faça chuva ou faça sol, essa turma [apoiadores de Lula] vai votar. Quando você fica em casa ou anula seu voto, por desânimo ou nojinho, você não tira voto do Lula, mas da oposição. O voto nulo da direita é o sonho de consumo do petismo", disse. A tônica foi reproduzida por outros influenciadores desse campo.

Alguém fatura com os nulos?

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contabiliza para o resultado das eleições apenas os votos válidos que são depositados nas urnas, excluindo brancos, nulos e abstenções.

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Considerando uma disputa majoritária -- com apenas um eleito, caso da presidencial --, vence quem obtiver 50% + 1 deste montante. Em um cenário hipotético com 100 votantes, 51 votos garantem a eleição do candidato, em primeiro ou segundo turno.

É importante explicar que essa distribuição é proporcional. O menor contingente de votos válidos aumenta as "fatias" distribuídas a cada um dos candidatos igualmente, sem que haja maior peso para o líder.

Em 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro (PL) pela menor vantagem da história, houve 32,2 milhões de abstenções e mais de 5,6 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno. O petista teve 2,1 milhões de eleitores a mais a seu favor.

Direita refratária

Quatro anos depois, o grupo de Bolsonaro ainda responsabiliza setores da direita e da centro-direita que, embora fossem refratários ao PT, também o eram em relação à continuidade do ex-presidente no poder.

No livro "Biografia do Abismo" (HarperCollins Brasil, 2023), os pesquisadores Felipe Nunes e Thomas Traumann observaram que o medo de um segundo mandato de Bolsonaro movimentou eleitores que o capitão reformado do Exército havia herdado do PSDB em direção a Lula no segundo turno daquele pleito.

"Depois do fracasso na montagem de um candidato de terceira via, os liberais sociais foram decisivos na vitória de Lula, justamente por serem críticos públicos dos governos anteriores do PT. É preciso lembrar que, segundo as pesquisas da Quaest em 2018, parte dos liberais sociais votou em Bolsonaro em 2018", escreveram.

A militância bolsonarista aponta culpados com ainda maior incidência no MBL (Movimento Brasil Livre), grupo de direita de predominância jovem que surgiu em protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), se opôs a decisões do governo Bolsonaro e pregou voto nulo em 2022.

Renan Santos (Missão), candidato à Presidência da República e fundador do MBL
Renan Santos (Missão), candidato à Presidência da República e fundador do MBL
Source: Reprodução/Redes sociais

Lideranças do grupo, como o presidenciável Renan Santos (Missão) e o deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP), mantém a defesa da posição da época, fazem duras críticas a Flávio e responsabilizam a família Bolsonaro pelo retorno do PT ao poder.

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"Bolsonaro começou o governo falando em 'golden shower', mas não sabia o que fazer quanto a saúde, educação e economia. Lula só está aí porque o presidente eleito em 2018 foi o Bolsonaro", disse Renan em entrevista no final de 2025, ao lançar sua pré-candidatura presidencial.

Para a cientista política Thais Pavez, diretora da consultoria Estratégia Latina, a postura crítica às duas forças mais populares da política contribuiu para o candidato do Missão ganhar espaço na direita. "Em um eventual segundo turno, essas redes mobilizadas e forma de fazer política poderão ser influentes", disse ao GSW Brasil.

Os efeitos são verificáveis. Pesquisa AtlasIntel divulgada na segunda-feira, 31, mostrou Renan com 7,6% das intenções de voto no primeiro turno, e 33% desses entrevistados declararam a intenção de anular voto ou votar em branco caso seu candidato não avance ao segundo. O mesmo desejo foi manifestado por 23% dos entrevistados que declararam voto em Augusto Cury (Avante), que registra 7,8% no primeiro turno -- mas está ideologicamente mais distante de Flávio.

Para evitar os efeitos de que seu pai foi vítima na eleição passada, a estratégia de Flávio consiste em usar o antipetismo como força centrípeta para evitar que eleitores de Renan, Cury e dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) rejeitem o voto no '01' no cenário mais provável de segundo turno contra Lula.

Na avaliação de Thais Pavez, o discurso não é exclusividade do bolsonarismo e se insere em um movimento global da direita radical de "mobilizar a ideia de um 'inimigo comum' para consolidar frentes contra a esquerda".

"O próprio Jair criticava o 'voto nulo de direita'. Esse discurso faz parte da expressão de que esse campo representa uma maioria silenciosa e, ao se posicionar, naturalmente terá mais votos nas urnas", concluiu a cientista política.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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