Artigo | Vencendo o ‘burnout cívico’: como reconstruir consensos em uma sociedade hiperpolitizada

Nos últimos anos, a política brasileira deixou de ser apenas um tema de debate para se tornar um campo de batalha emocional. Nas últimas eleições gerais brasileiras, em 2022, por exemplo, não foram apenas os votos que se dividiram. Laços familiares foram rompidos, amizades desfeitas e até casos de violência política entre eleitores de campos opostos circularam no noticiário. A política, que deveria ser o espaço do dissenso civilizado, transformou-se em campo minado.
Durante minha pesquisa de doutorado, busquei compreender a radicalização política como um processo assimétrico, ou seja, que não se dá da mesma forma, nem na mesma intensidade, entre os diferentes polos ideológicos.
Em vez de retratar a polarização como um duelo entre dois lados igualmente extremados, procuro revelar como uma das margens do espectro político — em especial a extrema-direita bolsonarista – radicalizou mais intensamente e de forma organizada, rompendo com normas democráticas fundamentais.
No entanto, ao longo da pesquisa, realizando grupos focais de entrevistas com eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), deparei-me com outro fenômeno: um esgotamento cívico de eleitores que têm preferências, mas que escolheram se afastar de discussões políticas no cotidiano. Não por apatia, mas por autopreservação emocional.
Política tóxica
Esse cansaço sistemático diante da política, que identifiquei a partir de um conjunto recorrente de falas dos entrevistados, levou-me a elaborar o conceito de ‘burnout cívico’. Trata-se de uma forma de exaustão emocional gerada pelo ambiente político, em que cidadãos optam deliberadamente por se distanciar do tema no cotidiano.
Ao contrário do processo de apatia política, não são pessoas indiferentes ou desinteressadas. Elas têm preferências, valores, candidatos e convicções, mas passaram a evitar assuntos políticos como forma de autoproteção emocional e de preservação dos laços interpessoais. São vozes comuns, cuja postura revela o grau de desgaste emocional causado por anos de animosidade política.
“Cansei de tentar conversar. As pessoas não querem entender, só querem vencer”, disse uma eleitora de Lula, visivelmente frustrada. Já um eleitor de Bolsonaro, ao falar da convivência com colegas de trabalho, desabafou: “Hoje em dia, se você fala o que pensa, te rotulam. Então eu prefiro ficar quieto e não falar mais de política.”
Uma jovem que se identificou como eleitora de Bolsonaro em 2018 e de Lula em 2022, relatou: “Não converso mais sobre política, cansei. Briguei com uma amiga de infância por isso. A gente voltou a se falar, mas não é a mesma coisa que antes”. Em vez de engajamento democrático, o que resta é cansaço.
Essas falas não são apenas desabafos pessoais. Elas expressam uma ruptura na possibilidade de diálogo, marcada por frustração e medo da escalada de conflito. O burnout cívico, neste sentido, emerge como uma resposta afetiva à hiperpolitização conflitiva da vida cotidiana -- uma exaustão que atinge justamente aqueles que, para proteger vínculos pessoais ou a própria saúde emocional diante de assuntos conflitivos, optam por silenciar-se.
Essa tensão permanente deteriora as condições de escuta e mediação. A política, para essas pessoas, é um terreno minado, em que cada discordância pode escalar para um confronto pessoal.
Quando a tentativa de diálogo é percebida como inútil ou até ameaçadora, o espaço público se enrijece e as subjetividades se armam. O adversário político começa a ser visto não apenas como alguém que pensa diferente, mas como uma ameaça à própria possibilidade de convivência.
Neste cenário, a polarização afetiva alimenta dois movimentos simultâneos e preocupantes: de um lado, a radicalização barulhenta daqueles que buscam “limpar” o debate de seus “inimigos”; de outro, o silêncio cauteloso dos que se retiram do espaço público por fadiga emocional. Ambos enfraquecem o tecido democrático: uma por excessiva confrontação, outra por retração e afastamento.
Caminhos para o consenso
Este é o ponto em que a polarização afetiva se encontra com a radicalização política. Quando afeto vira ódio e pertencimento vira trincheira, abre-se caminho para narrativas extremistas, teorias conspiratórias e a normalização da violência política.
O caso do 8 de janeiro de 2023 foi o exemplo mais concreto e visível desse processo. A radicalização não é um raio em céu azul. Contudo, se a radicalização é barulhenta, o burnout cívico é silencioso, e, por isso mesmo, talvez mais perigoso. Porque quando parte da população se sente emocionalmente incapaz de participar da vida pública, perde-se o senso de pertencimento coletivo. E sem isso, a democracia enfraquece. Uma democracia precisa de instituições, mas precisa também de cidadãos dispostos a participar, defender ideias e discordar sem dinamitar pontes.
A resposta não é simples, mas começa por reconhecer o problema. Precisamos de lideranças políticas com escuta qualificada, que valorizem o diálogo e que não se alimentem do conflito permanente.
A cientista política Liliana Mason, uma das principais referências no estudo da polarização afetiva, demonstrou em suas pesquisas mais recentes que as lideranças políticas desempenham um papel decisivo na intensificação ou no arrefecimento da radicalização.
Seus estudos indicam que, quando líderes adotam uma postura conciliadora e reconhecem a legitimidade da oposição, seus apoiadores e eleitores tendem a moderar as próprias atitudes e afetos em relação ao outro campo político.
Por outro lado, quando incentivam o antagonismo, desumanizam adversários ou reforçam discursos antidemocráticos, a polarização e radicalização se intensifica e se aprofunda. Isso reforça a urgência de responsabilizar as elites políticas pelo tom do debate público e pelo tipo de sociedade que estão ajudando a construir — ou a destruir.
A democracia brasileira, marcada por sobressaltos, sempre encontrou formas de se reinventar. Mas para que isso continue a acontecer, é urgente cuidar da saúde emocional da nossa vida pública. Porque uma sociedade emocionalmente exaurida não se mobiliza por direitos. Ela se retrai, se fecha, ou pior: se entrega aos braços de soluções fáceis, autoritárias, excludentes e pode também ficar à mercê de outsiders políticos sem comprometimento cívico.
É preciso reconstruir um mínimo denominador comum. Um consenso sobreposto, que permita a convivência, mesmo em meio a discordâncias profundas. Só assim poderemos desradicalizar os entrincheirados e reativar a energia cívica de quem está cansado -- não por desinteresse, mas por excesso de conflito.
A saída para o impasse político brasileiro não virá da unanimidade, mas da possibilidade de conviver com o dissenso sem que ele destrua o comum. Quando o desgaste emocional leva ao afastamento deliberado, ao silêncio cauteloso e à retração no espaço público, o risco é que a democracia fique fragilizada justamente onde deveria ser mais viva: na esfera das relações cotidianas, onde a tolerância se constrói na prática.
A pergunta que deixo é simples, mas urgente: estamos dispostos a cuidar da democracia também como um espaço afetivo? Ou vamos deixar que o cansaço e o ódio vençam o convívio?
*Lilian Sendretti é pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Foi consultora de pesquisa no projeto “Mulheres em Diálogo”, que buscou compreender pontos de convergência entre eleitoras brasileiras conservadoras e progressistas. Escreve a convite do Global South World.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.