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Pesquisa da USP desenvolve nova estratégia de vacina contra chikungunya
Principais pontos
- Cientistas da Universidade de São Paulo e da Universidade de Bonn, na Alemanha, criaram uma versão modificada do vírus com capacidade limitada de se multiplicar.
- Uma única dose protegeu camundongos mais suscetíveis à doença e reduziu sinais da enfermidade em animais com sistema imunológico normal.
- Publicado na revista científica npj Vaccines, do grupo Nature, o estudo ainda está em fase pré-clínica e não testou a estratégia em seres humanos.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, desenvolveram uma estratégia experimental de vacina contra a chikungunya que protegeu camundongos contra a doença após uma única dose.
O trabalho, publicado na revista científica npj Vaccines, do grupo Nature, utiliza uma versão geneticamente modificada do próprio vírus da chikungunya. A alteração foi feita para impedir que ele complete normalmente uma etapa essencial para se tornar infeccioso e, assim, limitar sua capacidade de se multiplicar no organismo.
Três dos quatro autores do estudo têm vínculo com a USP. O primeiro autor, Danillo Lucas Alves Esposito, é pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, além de ter vínculo com a Universidade de Bonn. Também participaram Jhefferson Barbosa Guimarães e Benedito Antonio Lopes da Fonseca, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, e Beate Mareike Kümmerer, da universidade alemã.
A pesquisa ainda está em fase pré-clínica, com testes em laboratório e em camundongos. Isso significa que os resultados não permitem afirmar que a estratégia terá a mesma eficácia em seres humanos. Mas o estudo é promissor.
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Vírus foi geneticamente modificado
Para produzir novas partículas capazes de infectar outras células, o vírus da chikungunya precisa passar por um processo de maturação. Uma das etapas depende de uma enzima presente nas células, chamada furina. Ela corta uma proteína precursora do vírus, a p62, dando origem a outras proteínas.
Os pesquisadores modificaram justamente esse ponto do vírus. O local normalmente reconhecido pela furina foi substituído por outro que depende de uma enzima diferente, chamada protease TEV.
Com a mudança, as partículas produzidas dentro das células permanecem imaturas e não conseguem se tornar infecciosas normalmente.
Em laboratório, os cientistas conseguiram completar artificialmente a maturação das partículas usando a protease TEV. Já maduras, elas foram utilizadas para imunizar os animais.
A estratégia procura combinar duas características importantes para uma vacina: preservar estruturas do vírus que provocam uma resposta do sistema imunológico e, ao mesmo tempo, restringir sua capacidade de se multiplicar depois da vacinação.
Uma dose protegeu camundongos
Os pesquisadores testaram a estratégia com diferentes grupos de camundongos. Em animais geneticamente mais suscetíveis à infecção, uma única imunização protegeu contra uma exposição ao vírus que seria letal se não fosse a vacina.
Em camundongos com sistema imunológico normal, a vacinação também reduziu a quantidade de vírus encontrada no sangue depois da infecção.
Os animais imunizados apresentaram ainda menos inchaço nas patas, manifestação usada no experimento para medir os efeitos da chikungunya. As partículas que passaram pelo processo artificial de maturação também estimularam níveis mais altos de anticorpos neutralizantes do que aquelas que permaneceram imaturas.
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Estratégia pode ser usada contra outros vírus
Para os pesquisadores, a técnica pode ter aplicações além da chikungunya. Isso porque outros vírus também dependem da furina das células para completar etapas de sua maturação.
A possibilidade precisará ser investigada. O estudo demonstra que o conceito funcionou em modelos experimentais, mas serão necessárias novas etapas de pesquisa antes que a estratégia possa eventualmente chegar a testes clínicos em pessoas.
A participação brasileira também aparece no financiamento. O trabalho de Danillo Esposito recebeu recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Já existem vacinas contra chikungunya
A pesquisa não representa a criação da primeira vacina contra a chikungunya. A novidade do estudo está na forma de construir o imunizante: os cientistas interferiram geneticamente em uma etapa necessária para a maturação do vírus, buscando produzir uma resposta imunológica forte com capacidade limitada de replicação.
“Hoje, temos uma vacina de vírus atenuado contra o chikungunya que, após um período de suspensão, em 2025, voltou a ser aprovada pelo FDA, porém com restrições. Ela não é indicada para pessoas muito jovens, idosos, imunocomprometidos ou que têm algumas comorbidades, pois pode gerar efeitos adversos”, declarou Danilo Esposito para a Agência Fapesp, fazendo menção à agência norte-americana que regula medicamentos.
Segundo o pesquisador, quase todo vírus passa por um processo de maturação fundamental para se tornar infeccioso. No caso de arbovírus, como os causadores da chikungunya, da zika, da dengue e da febre amarela, essa maturação acontece no final do ciclo de replicação dentro da célula hospedeira.
Transmitida principalmente pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, a chikungunya pode causar febre, dores musculares e fortes dores e inflamações nas articulações. Em parte dos pacientes, os problemas articulares podem persistir por meses. O Brasil está entre os países mais afetados pela doença.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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