Sem 'frente ampla', PT troca candidaturas ao governo por palanques de centro para Lula

Principais pontos

  • Partido lançou 12 candidatos a governos estaduais e decidiu apoiar aliados nas outras 15 disputas. Alianças vão do PSOL ao PP, com o PSD de Ronaldo Caiado liderando a lista.
  • Cientistas políticos ouvidos pelo GSW Brasil avaliam que a estratégia alia cálculo de competitividade ao 'caminho possível' para garantir apoios de centro a Lula.
Lula durante lançamento da campanha em São Bernardo do Campo
Lula durante lançamento da campanha em São Bernardo do Campo
Source: Ricardo Stuckert

À frente do governo federal com o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva, o PT não repetirá nas eleições de outubro a estratégia de outras disputas em que o presidente esteve no poder.

Para 2026, o partido decidiu abrir mão de lançar candidatos ao governo de 15 estados, onde apoiará aliados, e terá palanques próprios em 12 unidades da federação — menor patamar da história da sigla. Veja a seguir a divisão.

Candidaturas próprias:

  • Bahia: Jerônimo Rodrigues
  • Ceará: Elmano de Freitas
  • Distrito Federal: Leandro Grass
  • Espírito Santo: Helder Salomão
  • Goiás: Luiz Cesar Bueno
  • Maranhão: Felipe Camarão
  • Minas Gerais: Patrus Ananias
  • Mato Grosso do Sul: Fábio Trad
  • Piauí: Rafael Fonteles
  • Rio Grande do Norte: Cadu Xavier
  • Rondônia: Expedito Netto
  • São Paulo: Fernando Haddad

Apoios a outros partidos:

  • Acre: Thor Dantas (PSB)
  • Alagoas: Renan Filho (MDB)
  • Amazonas: Omar Aziz (PSD)
  • Amapá: Clécio Luís (União Brasil)
  • Mato Grosso: Natasha Slhessarenko (PSD)
  • Pará: Hana Ghassan (MDB)
  • Paraíba: Lucas Ribeiro (PP)
  • Pernambuco: João Campos (PSB)
  • Paraná: Requião Filho (PDT)
  • Rio de Janeiro: Eduardo Paes (PSD)
  • Roraima: Rosi Aires (PSOL)
  • Rio Grande do Sul: Juliana Brizola (PDT)
  • Santa Catarina: Gelson Merísio (PSB)
  • Sergipe: Fábio Mitidieri (PSD)
  • Tocantins: Laurez Moreira (PSD)

Caminho ao centro

A opção por lançar menos candidatos consolida uma tendência na sigla e não se restringe às disputas pelo Executivo. Ao todo, o PT terá 1.097 pessoas disputando cargos eletivos em outubro, menor número da história da legenda, conforme dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em 2022, a título de comparação, foram 1.119 candidaturas.

Nos pleitos para os governos estaduais, a redução já foi significativa na eleição passada, quando o partido teve 13 candidatos. Na ocasião, Lula retornou ao poder depois de derrotar Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno — o mais acirrado da história — com um discurso de “frente ampla” que ampliava as alianças políticas para além do campo ideológico do petismo. Em 2024, nas eleições municipais, os petistas apoiaram aliados de outras legendas às prefeituras de 13 capitais.

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Os números ilustram a “mudança de rota” na postura da agremiação. Em 2002, eleição que levou Lula ao Palácio do Planalto pela primeira vez, o PT encabeçou chapas pelo governo de 25 das 27 unidades da federação.

Em boa parte da sua história, o partido lançava candidatos a quase todos os cargos, mesmo sem chance de vitória, para construir uma marca a médio e longo prazo. Com uma posição consolidada, essa estratégia é dispensável”, disse ao GSW Brasil Sérgio Simoni Júnior, professor de ciência política da USP (Universidade de São Paulo).

Com a prioridade de garantir um quarto mandato a Lula, o partido concentrou esforços na ampliação das alianças nacionais. Sem sucesso para atrair siglas como PSD, MDB e União Brasil, no entanto, o presidente irá às urnas em uma coligação restrita ao campo da esquerda — que reúne, além da federação PT-PCdoB-PV, PSB, PDT, Rede e PSOL — para um embate que, conforme mostram as pesquisas, deverá ser novamente acirrado.

O PT enfrenta um divórcio dos partidos de centro desde a Operação Lava Jato e o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, essas siglas têm variações regionais que se sobrepõem a um programa nacional”, afirmou Renato Dorgan, presidente do instituto de pesquisas Travessia, ao GSW Brasil.

"O cenário de disputa acirrada entre Flávio e Lula faz com que partidos mais pragmáticos, como MDB e PSD, hesitem a aderir a uma das candidaturas. Nos estados, onde há interesses locais que predominam em prol de um dos lados, esse tipo de acordo é mais viável”, acrescentou Simoni.

Omar Aziz: candidato ao governo do Amazonas é um dos cinco do PSD apoiados pelo PT
Omar Aziz: candidato ao governo do Amazonas é um dos cinco do PSD apoiados pelo PT
Source: Roque de Sá/Agência Senado

Ponderando este cenário, a alternativa foi negociar palanques estaduais para Lula em troca de apoios nas disputas pelo Executivo local. Cinco candidatos do PSD terão apoio dos petistas -- a legenda, vale lembrar, tem Ronaldo Caiado concorrendo à Presidência --, dois do MDB, um do PP e um do União Brasil. Os demais apoiados pela legenda já integram a chapa formal do presidente — PSB (3), PDT (2) e PSOL (1).

O histórico de aliança com o chefe do Planalto pesou a favor de candidatos como Omar Aziz (PSD) no Amazonas e Renan Filho (MDB) em Alagoas, mas a conjuntura eleitoral foi preponderante em acordos os firmados na região Sul — onde o partido apoia Requião Filho (PDT-PR), Gelson Merísio (PSB-SC) e Juliana Brizola (PDT-RS) — e no Mato Grosso, com apoio a Natasha Slhessarenko (PSD). Em todos esses estados, Lula teve menos votos do que Bolsonaro em 2022.

O cálculo é de viabilidade eleitoral. O partido desperdiçaria recursos ao lançar candidatura no Paraná, por exemplo, onde as chances de vitória seriam remotas”, avaliou a professora de ciência política da Uninter-PR Karolina Roeder ao GSW Brasil. “O PT tem priorizado investir recursos dos fundos partidário e eleitoral em candidaturas à Câmara e, naturalmente, à Presidência”.

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Renato Dorgan acrescentou que a legenda é eleitoralmente inferior ao próprio Lula e tem um "teto de votos na casa dos 20% a 30% em muitas regiões", o que inviabiliza candidaturas majoritárias. "Essa percepção tornou prioritários os estados onde há maior competitividade", concluiu.

Via obstruída

Em acordo com as duas análises acima, os candidatos a governador do PT estão divididos entre os estados onde o partido busca se manter no poder — Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte — ou a configuração local dificulta composições.

Nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais, Lula subirá nos palanques dos correligionários Fernando Haddad e Patrus Ananias. No caso paulista, siglas que se aliaram a petistas em outras regiões apoiam a reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos); no mineiro, o partido insistiu em vão para que o senador Rodrigo Pacheco (PSB) fosse candidato e teve de buscar uma solução caseira. Em ambos, as alternativas encontradas não atraíram apoios ao centro.

“Além da grandeza eleitoral, os dois estados abrigam cidades-pêndulo que são decisivas para a eleição presidencial, o que torna fundamental apresentar candidaturas próprias”, avaliou Roeder. Para a professora, as alianças formadas em outros estados foram a “conquista possível” para a campanha de Lula.

Um fator adicional para essa conjuntura está nas eleições para o Senado. Em oito dos 15 estados onde apoia outras siglas ao governo, o PT incluiu candidatos à Casa Alta do Legislativo na chapa. O pleito é tratado como prioridade pelo presidente diante da mobilização de aliados de Flávio Bolsonaro (PL), seu opositor, pelas 54 vagas em disputa.

“É importante que a gente leve em conta onde é necessário mesmo a gente ter candidato a governador. Muitas vezes a gente tem que pegar os melhores quadros nossos e eleger senador da República, eleger deputado federal, porque nós precisamos ganhar maioria do Senado", disse Lula em junho de 2025, antecipando a estratégia que seria elaborada pela agremiação um ano mais tarde.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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