Seca extrema na Amazônia pode se tornar nove vezes mais frequente até 2100

Principais pontos

  • Pesquisa publicada na revista científica Earth's Future analisou dados climáticos de 2000 a 2024 e projeções até 2100; Unicamp participou do estudo.
  • Durante o último El Niño, 77% das florestas tropicais enfrentaram períodos simultâneos de seca e calor extremo, com duração média acumulada de seis meses.
  • Na Amazônia, a probabilidade de secas semelhantes pode aumentar até nove vezes nos cenários de emissões mais elevadas. O Nordeste brasileiro também aparece entre as regiões vulneráveis.


Barcos encalhados na Ponta da Piraiba, na maior seca em 121 anos que Manaus sofreu.
Barcos encalhados na Ponta da Piraiba, na maior seca em 121 anos que Manaus sofreu.
Source: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

A seca histórica que atingiu a Amazônia em 2023 e 2024 deixou rios em níveis excepcionalmente baixos, comunidades isoladas, florestas sob estresse e centenas de botos mortos pelo aquecimento das águas. Naquele momento, os efeitos foram associados a um episódio do El Niño, fenômeno natural que altera as temperaturas e as chuvas em diferentes partes do planeta. Agora, uma pesquisa internacional indica que condições climáticas semelhantes poderão ocorrer com frequência crescente nas próximas décadas, mesmo em anos sem El Niño.

O alerta é especialmente preocupante para a Amazônia. Se as emissões globais de gases de efeito estufa permanecerem elevadas, a probabilidade de secas tão severas quanto as registradas em 2023 e 2024 poderá aumentar até nove vezes até o fim do século. No Nordeste brasileiro, a ocorrência de períodos com chuvas tão escassas quanto as daquele biênio poderá se tornar duas vezes mais provável.

As conclusões fazem parte de um estudo publicado na revista científica Earth's Future, da União Geofísica Americana (AGU). A pesquisa reuniu cientistas de instituições de diferentes países e teve como autora principal Johanna Van Passel, da Universidade de Ghent, na Bélgica, pesquisadora visitante do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre os coautores está o biólogo Peter Groenendijk, professor do mesmo instituto.

A equipe investigou como o El Niño de 2023 e 2024 afetou as florestas tropicais da América, África e Ásia. Depois, comparou as condições daquele período com projeções climáticas até 2100, considerando quatro cenários de emissões de gases de efeito estufa.

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O resultado revela que um evento considerado excepcional pode oferecer uma prévia do clima futuro das florestas tropicais. Em alguns cenários, temperaturas semelhantes às registradas em 2023 e 2024 poderão ocorrer praticamente todos os anos em grande parte dessas regiões, em menos de duas décadas.

Um El Niño moderado, mas com consequências extremas

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico tropical. Esse aquecimento modifica a circulação dos ventos e a distribuição das chuvas, provocando efeitos em diferentes continentes.

No Brasil, costuma favorecer chuvas acima da média no Sul, reduzir as precipitações em partes do Norte e do Nordeste e elevar as temperaturas em diversas regiões.

Nem todos os episódios têm a mesma intensidade. Os de 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016 estão entre os mais fortes já registrados. O fenômeno de 2023–2024, porém, foi considerado moderado segundo um dos indicadores utilizados pelos pesquisadores. Isso não impediu que seus efeitos fossem excepcionalmente graves.

“Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos”, afirmou Johanna Van Passel em entrevista à Agência Fapesp.

O estudo identificou temperaturas excepcionalmente elevadas em praticamente toda a extensão das florestas tropicais da América, África e Ásia. A seca também foi generalizada: atingiu cerca de 80% dessas áreas.

O dado mais preocupante, porém, está na combinação dos dois fenômenos. Em 77% das florestas tropicais do planeta, o calor extremo e a falta de chuvas ocorreram simultaneamente durante o El Niño de 2023 e 2024.

Nas áreas afetadas por essa combinação, os pesquisadores identificaram, em média, 6,4 meses de seca e calor extremos ao longo dos dois anos. Isso não significa que as florestas tenham enfrentado mais de seis meses consecutivos nessas condições.

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Os cientistas somaram os meses em que os dois fenômenos coincidiram, mesmo quando houve intervalos entre eles. Os resultados mostram, portanto, não apenas a extensão geográfica do problema, mas também por quanto tempo as florestas ficaram expostas a condições climáticas adversas.

Nas áreas atingidas nas florestas tropicais americanas, os períodos extremos foram mais prolongados. A duração média acumulada chegou a 10,3 meses de seca e a 9,2 meses de seca e calor simultâneos, ao longo dos dois anos. Em partes do centro e do oeste da Amazônia, os registros indicaram condições anormalmente secas durante quase todo o período analisado.

Na comparação com o El Niño de 2015–2016, a seca de 2023–2024 atingiu uma área maior das florestas tropicais americanas e africanas. Nas florestas asiáticas, ocorreu o contrário: a extensão afetada foi menor.

Os pesquisadores relacionam a gravidade do episódio recente à combinação de fatores naturais com o aquecimento global provocado pelas atividades humanas. O El Niño de 2023–2024 ocorreu em um planeta mais quente do que aquele que enfrentou episódios anteriores do fenômeno.

A Amazônia diante de um novo padrão climático

A principal preocupação para o Brasil está na combinação entre temperaturas cada vez mais elevadas e a possibilidade de secas mais frequentes.

Os pesquisadores verificaram que o aumento do calor é uma tendência comum às florestas tropicais dos três continentes. As projeções de chuva, entretanto, apresentam diferenças regionais importantes.

Na Bacia do Congo, na África, por exemplo, o risco futuro está associado sobretudo às temperaturas mais altas. Em algumas regiões asiáticas, a probabilidade de secas comparáveis às de 2023–2024 pode até diminuir.

Na Amazônia, o cenário é diferente. Os modelos indicam aumento tanto da frequência do calor extremo quanto da probabilidade de períodos de chuva excepcionalmente escassa.

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Nos dois cenários de emissões mais elevadas, a ocorrência de secas comparáveis às de 2023–2024 poderá se tornar até nove vezes mais provável até 2100.

É importante distinguir essa projeção de uma previsão de que haverá nove secas por década ou de que a floresta ficará permanentemente seca. O cálculo compara a probabilidade futura dessas condições com a frequência estimada para o período de referência, de 2000 a 2024.

O Nordeste brasileiro também aparece nas projeções. Na região, períodos com volumes de chuva tão baixos quanto os registrados durante o último El Niño poderão se tornar duas vezes mais prováveis até o fim do século, nos cenários de emissões mais altas.

Há incertezas importantes. Os próprios autores reconhecem que os modelos climáticos apresentam limitações para representar a disponibilidade de água em algumas regiões, incluindo a Amazônia. Por isso, os números devem ser interpretados como projeções condicionadas aos cenários de emissões, e não como previsões inevitáveis.

Ainda assim, a direção do alerta é clara: quanto maior o aquecimento global, maior tende a ser a exposição da floresta amazônica a condições climáticas capazes de comprometer seu funcionamento.

O que acontece com uma floresta quando falta água e sobra calor

As florestas tropicais dependem de um equilíbrio delicado entre chuva, temperatura, umidade do solo e disponibilidade de água para as árvores.

Durante a fotossíntese, as plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e utilizam a energia da luz solar para produzir substâncias necessárias ao seu crescimento. Nesse processo, também liberam vapor de água pelas folhas, ajudando a regular sua temperatura e a umidade do ambiente.

Quando a temperatura aumenta, a atmosfera passa a demandar mais umidade. A água pode evaporar mais rapidamente do solo e ser perdida em maior quantidade pelas folhas, mesmo que o volume de chuva não diminua na mesma proporção.

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Se houver água suficiente, as árvores conseguem compensar parte desse efeito. Em períodos prolongados de seca, porém, precisam reduzir a perda de água para sobreviver.

Uma das respostas é fechar pequenas aberturas nas folhas, chamadas estômatos. Isso diminui a transpiração, mas também limita a entrada do dióxido de carbono necessário à fotossíntese.

A árvore passa, então, a produzir menos energia para crescer e manter suas funções.

Em situações extremas, a falta de água compromete o sistema que a transporta das raízes até as folhas. Esse transporte ocorre por estruturas internas chamadas xilema. Quando ele falha, partes da copa podem morrer e, dependendo da intensidade e da duração do estresse, a própria árvore pode não sobreviver.

“O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores”, afirmou Peter Groenendijk à Agência Fapesp.

O estudo chama atenção para outro aspecto: cerca de 80% dos meses de calor extremo identificados ocorreram durante a estação chuvosa.

Isso é relevante porque as chuvas dessa época ajudam a abastecer as reservas de água no solo utilizadas pelas árvores durante os meses mais secos. Se a estação chuvosa também apresentar deficiência de precipitação, a floresta pode começar o período seco seguinte com menos água disponível.

Assim, os efeitos de uma seca não necessariamente terminam quando as chuvas retornam.

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A equipe ressalta que ainda há lacunas importantes na compreensão dos mecanismos que levam à mortalidade das árvores sob calor e seca prolongados.

O risco de a floresta deixar de absorver carbono

A ameaça não se restringe à sobrevivência das árvores.

As florestas tropicais exercem um papel importante na regulação do clima porque retiram dióxido de carbono da atmosfera e armazenam carbono na vegetação e nos solos.

Enquanto absorvem mais carbono do que liberam, funcionam como sumidouros de carbono, ajudando a reduzir a quantidade desse gás de efeito estufa na atmosfera.

O equilíbrio pode mudar quando as árvores crescem menos, perdem folhas ou morrem em grande quantidade. A decomposição da vegetação morta libera parte do carbono armazenado, e os incêndios podem acelerar esse processo.

Nessas condições, determinadas áreas florestais podem passar temporariamente de absorvedoras a emissoras líquidas de carbono.

Os pesquisadores consideram provável que o calor e a seca de 2023–2024 tenham levado muitas florestas tropicais, ao menos temporariamente, nessa direção. O estudo, entretanto, não mediu diretamente o balanço de carbono de todas as áreas analisadas.

O problema pode se agravar porque a própria floresta participa da manutenção das chuvas.

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Ao retirar água do solo e liberá-la na atmosfera, as árvores contribuem para a formação de umidade que poderá retornar em forma de precipitação. A perda de vegetação reduz essa contribuição e pode favorecer condições ainda mais secas.

Forma-se, assim, um mecanismo de retroalimentação: a seca enfraquece a floresta, a perda de vegetação prejudica a reciclagem de umidade e a redução das chuvas pode intensificar novas secas.

Esse processo preocupa os cientistas porque, se persistir por tempo suficiente, poderá levar à degradação de áreas florestais e comprometer sua capacidade de recuperação.

O que pode acontecer nas próximas décadas

Para investigar o futuro, os cientistas combinaram informações de satélites, registros climáticos e projeções de 24 modelos utilizados em pesquisas internacionais sobre mudanças climáticas.

A análise considerou o período de 2000 a 2024 como referência e avaliou diferentes trajetórias possíveis entre 2025 e 2100.

Os quatro cenários utilizados representam desde uma trajetória de emissões relativamente baixas, com reduções importantes dos gases de efeito estufa, até situações em que essas emissões continuam elevadas.

Em todos eles, a probabilidade de temperaturas semelhantes às de 2023–2024 aumenta nas florestas tropicais.

Mesmo no cenário de menores emissões considerado pela pesquisa, os episódios de calor comparáveis aos daquele biênio poderão se tornar pelo menos seis vezes mais prováveis até 2100.

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Nos cenários com reduções menos rigorosas, muitas regiões poderão atingir, já a partir da década de 2040, temperaturas médias anuais tão altas quanto as de 2023–2024 praticamente todos os anos.

Isso não significa que haverá um El Niño permanente. A pesquisa procurou justamente identificar a possibilidade de condições climáticas semelhantes ocorrerem independentemente da presença do fenômeno.

Também não significa que as secas acompanharão automaticamente o mesmo ritmo do aumento das temperaturas. Os autores analisaram separadamente as probabilidades futuras de calor e de falta de chuvas, pois a coincidência entre esses extremos envolve incertezas adicionais.

A diferença entre os cenários, entretanto, mostra que a intensidade do aquecimento futuro depende das decisões tomadas em relação às emissões globais.

Ainda é possível evitar os cenários mais graves?

A trajetória futura não está definida. Os modelos indicam que o aumento das temperaturas continuará representando um desafio para as florestas tropicais mesmo em um cenário de emissões mais baixas. Mas também mostram diferenças expressivas entre um mundo que reduz rapidamente a liberação de gases de efeito estufa e outro que mantém níveis elevados de emissões.

Na avaliação dos pesquisadores, cortes rápidos e profundos são necessários para impedir que as condições excepcionais de 2023–2024 se tornem cada vez mais frequentes.

A mensagem é especialmente relevante para a Amazônia, onde a elevação das temperaturas se soma ao risco de secas mais intensas, incêndios e perda de vegetação.

O estudo não prevê o desaparecimento da floresta nem estabelece uma data para um eventual colapso do ecossistema. O que demonstra é que as condições climáticas que colocam sua capacidade de recuperação sob pressão poderão se repetir com frequência muito maior.

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A seca de 2023–2024, portanto, pode deixar de ser lembrada apenas como um acontecimento excepcional e passar a ser vista como um alerta sobre o clima que as florestas tropicais terão de enfrentar ao longo deste século.

Com Agência Fapesp/ Luciana Constantino

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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